Conheci os absorventes de pano por acaso

por Bárbara Blum

No começo de 2015, eu e minha irmã mais nova decidimos começar a usar coletores menstruais. Saí pela internet lendo listas e mais listas das melhores marcas, dobras, limpeza, armazenamento, enfim, o pacote completo. Finalmente tínhamos nos decidido por algumas marcas, EvaCup, MeLuna… A preferência era pelos coloridos. A ideia de ter alguma coisa azul com glitter coletando meu sangue soava amigável. Minha irmã preferia o sem glitter. Admito que o glamour não é pra qualquer colo de útero. Só me agradaria mais se o coletor tivesse uma carinha feliz desenhada nele!

A questão é que essa pesquisa levou um certo tempo e simultaneamente a ela, comecei a me interessar por indústrias cosméticas que não testassem em animais. Vi aqueles vídeos de coelhinhos de olhos vermelhos (não da música de Páscoa, tô falando de vermelho-sangue. Literalmente.) e decidi não financiar mais nenhuma empresa que testasse em animais. Ou seja: tive que ir atrás de marcas alternativas de literalmente todos os produtos cosméticos e de limpeza que eu usava. Por causa de uma conhecida envolvida na causa animal, fui lembrada que os absorventes descartáveis também estavam na jogada, por serem produzidos por empresas que testam em animais. Foi ela que me indicou os absorventes de pano.

Eu achava que esse era aquele tipo de coisa que só hippies-avançados usavam. Não hippies que compram saia longa na FARM, eu tô falando de gente que come quinoa e tofu orgânico feito em casa em todas as refeições, tem uma composteira, usa saias ecológicas e sapatos de garrafa PET. Então tentei dar mais uma procurada antes de encarar meu próprio preconceito e encontrei absorventes descartáveis não-testados em animais que também eram biodegradáveis. Coincidentemente, custavam um zilhão de reais e eu, com meu ciclo se aproximando, decidi que ia comprar os absorventes hippongos de pano enquanto me decidia sobre o coletor.

Pedi os meus de uma loja virtual chamada Morada da Floresta e peguei os modelos noturnos em branco e rosa. Poucos dias depois, recebi o pacote em casa, no primeiro dia da minha menstruação. Lavei, sequei e mandei ver.

Em aparência, são iguais a um absorvente descartável externo, têm abas que você abotoa em vez de colar na calcinha e aquele formato que já conhecemos. Eles vêm dobradinhos e abotoados e parecem uma almofadinha. A parte que toca a calcinha é rosa e super macia. A parte que toca a vagina é branquinha e parece uma toalha mais macia. Eles são feitos inteiramente de algodão. A absorção é garantida pelas camadas de tecido e a higienização é feita por uma lavagem com água, água oxigenada ou sabonete neutro. Do mesmo jeito que se lava calcinhas.

Depois de alternar os 3 que comprei (deveria ter comprado mais, mas com o coletor em mente, deixei quieto) durante um ciclo, percebi algumas coisas sobre mim, tipo:

1)      Menstruação tem cheiro…… de sangue.

A justificativa que sempre me deram pro cheiro horrível que ficava no absorvente descartável (e no corpo e no banheiro e no lixo) era de que o sangue se oxida em contato com o ar e cria esse cheiro característico. O que eu percebi usando os absorventes de algodão (que são inodoros) é que, sim, o sangue de fato oxida em contato com o ar e o cheiro que resulta disso é (rufem os tambores) de sangue. Ela tem cheiro de sangue. Tipo de ferro. Tipo cheiro de joelho ralado. Não aquele cheiro de podridão mortífera que ficava nos absorventes descartáveis.

Eu li algumas teorias conspiratórias sobre o assunto dizendo que as empresas cosméticas fazem com que esse cheiro horrível exista por meio de produtos químicos para que as mulheres sintam necessidade de trocar o absorvente com mais frequência e consequentemente comprem mais.

E eu não duvido. Estamos falando de pessoas que machucam coelhinhos.

2)      Meu fluxo não é intenso como eu sempre achei que fosse.

Quando você se vê obrigada a pegar o absorvente usado e lavar ele com as mãos, percebe que ali dentro nem tinha tanto sangue assim. Uma “torcida” no tecido foi suficiente para retirar quase todo o sangue do absorvente e o trabalho depois era só tirar a manchinha da parte mais externa. Isso foi resolvido com esfregadas. Ou seja: o fluxo que eu sempre acreditei ser intenso, não era.

Com os absorventes descartáveis, eu tinha vazamentos frequentes, mesmo usando sempre o noturno estilo fraldão.

Comprei o absorvente de tecido também “noturno” para fins de teste (e do meu conforto) e observei que tive muito menos vazamento. O único foi super tranquilo e nem manchou a calcinha, só minha pele, de leve.

3)      Coceira e assaduras não são só coisas normais da menstruação.

Eu estava acostumada a sentir desconforto usando absorventes. Tanto noturno quanto normal e em todos os modelos. Não só porque minha calcinha está mais cheia que o normal (e não do jeito legal), mas porque as abas adesivas arranhavam a parte interna das coxas e o “excessinho” de absorvente incomodava minha bunda.

Como eu passei a vida inteira sentindo isso tudo, achei que era normal e é isso aí. Segui a vida. Quando troquei para os absorventes de pano, minha pepeca foi agraciada com a maciez do algodão e minhas pernas nunca estiveram tão confortáveis. Minha bunda ficou tão feliz que eu fiquei de fato ansiosa pro próximo ciclo.

O problema do volume na calcinha não foi tão solucionado, mas o fim de tantos incômodos meio que anulou essa parte pra mim.

4)      Absorventes descartáveis = queimar dinheiro + queimar o planeta Terra

Quando eu usava absorventes descartáveis, tinha que investir em, no mínimo, 2 pacotes por mês, já que eu uso o noturno e troco de 8 em 8 horas. Isso são 8 absorventes de plástico, com cola que vem embalados individualmente em mais plástico, tanto individualmente, quanto a coisa toda. Ou seja, são 24h, divididas por 8h, resultando em 3 trocas por dia. 3 trocas por dia durante 5 dias = 15 absorventes = 1 pacote inteiro + 7 absorventes, que são basicamente 2 pacotes.

2 pacotes do absorvente que eu usava custariam um total de R$11, 50. Durante um ano, isso são R$138, 00 e 180 absorventes descartáveis. É muita grana e muito lixo. Um absorvente de algodão custa uns R$20,00 e dura em torno de 5 anos. Então comprando 5 ou 6 com os quais você faz rodízio durante o ciclo, fica R$120,00. Já é um lucro se você resolver trocar os de pano anualmente, o que não é necessário.

5)      Menstruar é legal.

É legal conhecer seu corpo e saber qual que é a dele nesses dias. É sério. Quando acabei com o distanciamento envolvido no “descarte” puro e simples, criei um tipo de vínculo mais forte com meu corpo. Não ter nojo de mim mesma já foi um bom começo.

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Bárbara Blum estuda tudo o que vier pela frente e tem o melhor gosto musical que a gente já ouviu
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