Amar não é suficiente

por Raquel Abe

“Não estou com você por que eu te amo.”

Foi com essa frase que, há quatro ou cinco anos atrás, você quase trincou meu coração. Por um momento, tudo o que havíamos passado pareceu tolo e leviano. E já tinhamos passado por poucas e boas, então acho que cheguei a me ofender. Hoje, depois de ter passado por mais algumas ao seu lado, entendo o que quis dizer (tá, você me explicou na hora, eu “entendi”, mas agora que compreendo de fato.). Não existe graça alguma em estar com alguém por amor. O amor é inevitável e não temos controle algum sobre esse sentimento.

Só tenho controle sobre minhas ações e minhas decisões. E tenho decidido até agora estar com você e você comigo. E é por isso que estamos juntos, e não por que nos amamos. Eu tenho decidido perceber como o seu humor melhora depois de um banho no fim do dia. E tenho decidido notar como você cantarola sozinho quando come algo que gosta (É sim, igual seu vô). Hoje sei que é uma decisão sua perceber como eu gosto de um cafuné naqueles dias mais cabisbaixos e de me acolher nos seus braços. Ou me fazer sentar no banco, na porta da cozinha, quando você faz minha janta e lava a louça naquele dia que eu cheguei depois das 23h.

Às vezes você esquece de por água naquele prato gordurento, ou de lavar a roupa que se acumula naquele cesto. Mas tudo bem, por que eu também esqueço de desdobrar as barras das minhas calças quando as ponho pra lavar, e fico com uma preguiça enorme de lavar toda aquela louça que se acumulou no fim de semana. E aí você me faz um café ou eu te faço um sanduíche e a gente vai levando, entre amores e tropeços, a vida mais feliz que eu poderia ter pensado em ter. Por que o amor, lutando sozinho, dificilmente resiste a algumas peculiaridades dessa vida ordinária onde a comida não aparece no armário e a louça não se limpa ou se guarda sozinha.

E são nesses momentos de pura normalidade, onde somos tão sem graça quanto um pano de chão, que tenho mais vontade de estar com você. Por que sabe, meu amor, é fácil se apaixonar por peculiaridades. Todos temos pelo menos uma. Difícil é encontrar razões pra amar quando estamos chatos, inseguros, doentes ou de TPM. E não vou dizer que “quando se ama fica fácil”, numa frase de amor de filme, por que não, não fica. A cada vez que você fica com febre eu tenho vontade de te esganar e eu sei que a cada vez que eu tenho uma crise de insegurança você sente a mesma coisa. Mas quando passa, sei que valeu a pena te dar aspirina e vitamina C ao invés de clorofórmio. E sei que você sente o mesmo porque você continua comigo (e eu não me lembro de desmaiar no meio de uma crise). E considero isso uma maneira de crescermos.

E a cada dia você me surpreende mais. À medida que mudamos juntos ainda percebo em você a doçura que me atraiu na primeira conversa que tive contigo. E não canso de te admirar e de te descobrir e amo a maneira que você me faz querer (e) ser uma pessoa melhor. E amo a maneira na qual, juntos, somos tão pouco convencionais e ao mesmo tempo, tão piegas e cheio de normalidades. Uma mistura louca de “Lizzy & Mr. Darcy” do Orgulho e Preconceito com “Mickey & Mallory” do Natural Born Killers, sem assassinatos, mas numa vida dirigida pelo Wes Anderson em parceria com o Mario Monicelli e o Woody Allen. Acho que você entende o que eu quis dizer…
Mas é que, seis anos depois de te conhecer naquela festa, só posso esperar por mais seis anos te descobrindo, me descobrindo e inventando moda juntos. E depois desses, se pudermos ter mais seis, e depois mais seis… seria tão maravilhoso!

Mas se não pudermos, tudo bem, por que não estou contigo por que te amo.

 

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Raquel Abe está num relacionamento complicado consigo mesma há 28 anos, curte hackear receitas e quando da na telha escreve umas besteiras pra tentar se encontrar.
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