Sou bi: sobre o preconceito velado

É muito fácil dizer que não se tem preconceito quando você não convive com um membro da comunidade LGBT. Ou talvez seja um pouco mais fácil pra você que vive com um gay não-afeminado ou uma lésbica não-masculinizada, por exemplo. É, vamos admitir: é bem mais fácil quando a pessoa “fica na dela”, não é?

Ilustração: Helô D'Angelo (clique para conhecer o trabalho dela!)
Ilustração: Helô D’Angelo (clique para conhecer o trabalho dela!)

Quando a sua filha não apresenta a você a namorada nova. Quando o seu filho não conversa com você sobre o preconceito que sofre diariamente. É bem mais fácil quando o seu filho começa a falar sobre a luta LGBT e você olha pra ele e diz: “Eu não quero ouvir sobre isso. Isso NÃO é importante. Você não deveria se importar com isso. EU não me importo”. Então ele se cala. Sai de cena. E você volta pro seu mundinho fechado.

Se você é esse tipo de pessoa, eu quero que você olhe pro seu filho ou pra sua filha. Quero que você olhe pra sua irmã/seu irmão. Seu sobrinho/sua sobrinha. Olhe pra esse ser humano pedindo poder de voz. Olhe pra todos os que estão sendo mortos diariamente por pura intolerância. Olhe pro casal de lésbicas fetichizadas por homens machistas que dizem que elas devem ser estupradas pra aprenderem a gostar de “macho”. Olhe pra garota trans que precisa passar por várias consultas com psicólogos e psiquiatras pra poder finalmente fazer sua cirurgia de readequação sexual. Olhe pro gay sendo espancado porque descobriram que ele está apaixonado por outro menino. Olhe. Por favor, olhe. Olhe pra essas pessoas. Elas não escolheram. Lamento se você pensa o contrário e pode ser difícil pra você aceitar a verdade… mas ninguém quer sofrer preconceito. Ninguém quer ser impedido de doar sangue por causa de sua orientação sexual. Ninguém quer ser chamado de aberração, ninguém quer ouvir que está apenas confuso ou passando por uma fase. Ninguém quer ser espancado.

Eu sou bi. E quando me assumi para os meus pais, a primeira coisa que me disseram foi “o que eu fiz pra merecer isso?”. Como se eu fosse um castigo. A filha com boas notas, a filha dedicada a tantos tipos de arte (dança, piano, desenho, etc)… essa filha pareceu não ser NADA perto da filha bissexual. O “castigo” da filha bissexual de repente anulara todo o restante do meu ser. Então comecei a me engajar na luta LGBT e feminista. E ouvi exatamente o que relatei aqui. Daí pra pior. Muito, muito pior. “Essas causas são coisa de vadia”.”Você acha que vai mudar algo? Você não é ninguém!”, “Vai se foder, garota! Vai se foder! Você fica empurrando essas coisas gays pra cima de mim! Vai se foder! Lutar por direitos? Quem mata LGBT são só esses malucos aí, os tais skinheads!”

Quando perguntam a eles sobre a causa LGBT, eles dizem que não têm preconceito algum. É claro, nunca contaram pra ninguém da filha bi e até hoje esperam que eu não conte a mais ninguém da família sobre minha orientação sexual. “Não tem necessidade de se expor dessa maneira”. E eu? Eu conto os dias pra poder sumir da vida deles. Seja solteira, com um homem, com uma mulher. Eu não quero ser desgosto pra ninguém. Aliás… ver o preconceito encoberto deles é que me enche de vergonha até o pescoço. A única coisa que a gente escolhe é ter ou não ter preconceito. E aí? O que VOCÊ vai escolher?

*A autora deste texto pediu anonimato e a gente respeitou

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