We can like it

por Helô D’Angelo 

Na era das redes sociais, um novo tipo de luta feminista toma forma 

No sobe e desce da Vila Madalena, uma pequena casa destaca-se entre as outras. O motivo: um grafite, enorme e colorido, ocupa quase todo o seu muro lateral. É o rosto estilizado de uma mulher negra, com os cabelos azuis, que encara os visitantes. A Casa de Lua, como é chamada, é um espaço criado em 2013 “para as meninas se conhecerem e conhecerem o feminismo”, explica a autora da arte na entrada da Casa, Evelyn Queiróz. Negra, cabelos curtos, tatuagens por todo o corpo. Nada de sutiã. Evelyn é, também, criadora da “Negahamburguer”, uma personagem dedicada ao questionamento do padrão de beleza atual — a mulher impecável e magérrima. A “Nega” e a Casa de Lua são apenas dois exemplos de iniciativas ligadas a um movimento antigo, mas que vem crescendo tanto no mundo real quanto no virtual: o feminismo. 10573750_10204027251594453_1382649396_o Nas redes sociais, são vários grupos de debate, eventos e páginas feministas que surgiram e vingaram nos últimos anos. A “Negahamburguer”, por exemplo, foi criada em 2013 e hoje tem quase 100 mil curtidas no total, e uma média de mil likes por ilustração. Tão conhecidas quanto Evelyn são a cearense Sirlanney Nogueira, criadora da página “Magra de Ruim” (50 mil curtidas), e a brasiliense conhecida na internet como lovelove6*, idealizadora da HQ “Garota Siririca”, que trata de masturbação feminina. A designer gráfica mineira Carol Rossetti, cuja página já ultrapassa os 160 mil likes, também entra nessa categoria. Suas ilustrações questionam o ideal de beleza feminino, incentivando as mulheres a agirem de forma empoderada em relação ao próprio corpo. Os desenhos, que se popularizaram esse ano, já tiveram as legendas traduzidas para diversas línguas, do inglês ao árabe. O ativismo transcende a rede. O “Zine XXX”, criado pela carioca Beatriz Lopes — com a participação de lovelove6, Sirlanney e várias outras artistas —, é uma revista temática e independente, viabilizada em crowdfunding pelo Catarse e feita apenas por “minas iradas”, como define o subtítulo da publicação. O Zine saiu em fevereiro e teve 489 apoiadores que, juntos, doaram cerca de 10 mil reais. A arte, entretanto, não é o único canal para o feminismo atual, apesar de ser o principal. Em abril, a jornalista brasiliense Nana Queiroz criou no Facebook a campanha “Eu não mereço ser estuprada”, da qual cerca de 50 mil mulheres participaram. Cobertas por cartazes com o título da campanha, elas fotografavam-se nuas e compartilhavam na rede, em protesto contra o dado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), segundo o qual 65,1% dos brasileiros concordariam, total ou parcialmente, que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Dias depois, o Ipea corrigiu o dado para 26%, mas todos os olhares haviam se voltado para a causa feminista. Por que agora? Como uma onda Para a Profª. Dra. Ana Maria Colling, especialista na história da mulher e autora de Tempos diferentes, discursos iguais — a construção histórica do corpo feminino, as redes sociais criam uma possibilidade de transmissão que o feminismo nunca teve antes. A professora lembra que o movimento, se comparado ao da Europa e ao dos Estados Unidos, é atrasado no Brasil, já que a Ditadura Militar interrompeu qualquer luta que não fosse contra o governo: “As mulheres apagavam a própria sexualidade para igualarem-se, politicamente, aos companheiros homens”. A história do feminismo, ao contrário da narrativa apagada das mulheres, é a história da transgressão, e é contada em ondas: “Como uma onda, o feminismo avança, se espalha e recua”, explica Lenina Vernucci, socióloga e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro. Existem divergências em relação às ondas feministas, mas uma das visões mais aceitas divide o movimento em três picos e dois recuos: a primeira onda que balançou o mundo foi o Sufragismo, mobilização pelo voto feminino iniciada no século XIX e finalizada nos anos 1920. O recuo coincidiu com as duas Guerras Mundiais, e o segundo pico só viria nos anos 1960. É a época da queima de sutiãs, da invenção da pílula anticoncepcional e do otimismo que declinaria nos anos 1980, a “Década Perdida”, que é também o recuo da segunda onda. O terceiro ápice do feminismo teria começado nos anos 1990 e seguiria até os dias de hoje, embora alguns historiadores considerem que, com a internet, o movimento tenha ganhado uma quarta onda. Ana Maria Colling frisa que o feminismo está diretamente ligado à construção histórica da mulher: “Antes de tudo, é preciso descolonizar a mente e o corpo femininos. É aí que está o trabalho das militantes feministas: na cultura”. Nas redes sociais, é justamente essa a frente de luta das ativistas: “A gente tenta criar uma cultura para ajudar as minas [sic] que estão na linha de frente do feminismo”, coloca lovelove6. A contracultura feminista atual tem aparecido, então, na forma de arte. Segundo Ana Maria Colling, isso acontece, primeiro, porque a arte é também a forma humana de expressar a angústia da opressão. Em segundo lugar, a imagem atrai a atenção de quem vê, mesmo em rede: “O desenho, às vezes, faz refletir mais do que um livro da Simone de Beauvoir, porque é muito mais simples, além de ser bonito”, justifica Evelyn. Apropriar-se do campo artístico, na visão de Carol Rossetti, já configura uma forma de transgressão, pois “as artes, principalmente os quadrinhos, sempre foram um campo machista”. Lovelove6 coloca, ainda, que a arte confere um tom impessoal à produção feminista, fazendo com que a obra possa ser usada em diferentes situações: “Se eu faço um quadrinho, o leitor não se relaciona diretamente comigo, e fica livre para absorver o que quiser”. Redes em debate Seja por meio das páginas, seja pelo Zine XXX, seja por campanhas anti-machismo, é nas redes sociais que a muitas meninas conhecem o feminismo — incluindo Evelyn e Carol. “Até pouco tempo, a gente ouvia falar de feminismo como uma coisa antiga, tipo aquelas lutas dos anos 1960 nas quais as mulheres queimavam sutiãs”, recorda a grafiteira, que começou seu trabalho sem saber que ele se encaixava na categoria “feminista”. A criação de um vínculo a partir do objetivo comum (a chamada “sororidade”) pode ser um ponto positivo das redes. Em grupos, as meninas têm a possibilidade de discutir temas como aborto, abuso sexual e estupro, com a vantagem do anonimato, caso sintam-se ameaçadas por discursos machistas. Para Sirlanney, o movimento feminista cresceu no Facebook também porque a liberdade da rede deixa a opressão contra a mulher mais visível: “Hoje, tem páginas e páginas sobre o tema. Isso incomoda, e o incômodo gera arte”. Carol Rossetti, porém, lembra que a própria administração das redes pode ser um problema. O Facebook, em tese, não aceitaria postagens com discursos de ódio. Entretanto, a moderação destes conteudos é arbitrária, e pode deixar online uma página de “revengeporn” (compartilhamento de imagens íntimas de ex-namoradas, em geral com o objetivo de vingança), enquanto exclui uma página com ilustrações feministas de mulheres nuas. “Falta consequências para essa suposta liberdade de expressão”, coloca a designer. Outro problema é a falsa sensação de atingir um público enorme. Lenina Vernucci frisa que nem todas as mulheres têm acesso à internet no Brasil e, das que têm, são poucas as que realmente acompanham as páginas feministas, como lembra lovelove6: “Às vezes, eu posto um desenho que a galera curte, mas nem comenta. Não tem retorno”. Há, ainda, a questão das cisões no movimento. Mesmo entre as meninas que acompanham o “web feminismo”, pode haver desentendimentos causados pelas múltiplas interpretações que a liberdade nas redes possibilita. Como o fluxo de informações é grande, muitas militantes acabam ficando no superficial, sem ler a fundo sobre o movimento. Uma das maiores preocupações de Evelyn é que a atual “onda” feminista não passe de uma moda: “Muitas meninas se dizem feministas, e é claro que não cabe a mim dizer se são ou não, mas só até certo ponto. Quando entorna o caldo, elas dão um passo atrás”. Para lovelove6, entretanto, é perigoso falar em “moda” feminista. Qualquer crítica pesada, segundo a criadora do “Garota Siririca”, pode ferir o movimento: “Muita gente fica o dia inteiro no Facebook cultivando ódio, mas se as meninas querem praticar um feminismo superficial e ir para o baile funk, que façam, é melhor do que nada”. Ana Maria Colling concorda, e acha que até as divergências são positivas: “Eu prefiro que os conceitos do feminismo sejam passados para alguns de forma errada do que não serem passados”. Para a historiadora, o maior problema continua sendo a violência contra a mulher, e não cisões menores dentro do feminismo: “O importante é que a luta está em pauta. Alguns temas tabus precisam começar a ser enfrentados, e as redes sociais são maravilhosas nesse sentido”. * lovelove6 preferiu não revelar seu nome.

Helô D'Angelo tem 21 anos e curte jornalismo, mas ama  de paixão jornalismo em quadrinhos sobre minas.
Helô D’Angelo tem 21 anos e curte jornalismo, mas ama de paixão jornalismo em quadrinhos sobre minas.

 

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