‘Se quisesse afeminado pegava mulher’: a desvalorização do feminino

por Marina Braga

“Patriarcado, nós não nos pretendemos breves, nem meras passageiras. Resistimos, dia após dia, apesar do seu olhar de repulsa, das suas articulações de exclusão de todas as mulheres lésbicas e bissexuais…- 01 DESEJO: O JAZIDO PATRIARCAL – por Jéssica Ipólito

Se na sociedade como um todo, lésbicas e mulheres bissexuais raramente são levadas a sério, no meio LGBT a regra também se aplica. “É falta de um bom pinto”. “Estão confusas…afinal são mulheres”. Vivemos em um mundo falocêntrico, que não aceita os desejos e as vontades da mulher. Aliás, é muito fácil obter um certificado de vagabunda por aqui, basta você, mulher, dizer que não precisa de um homem para ser feliz.

Mulheres lésbicas e bissexuais tem, não só suas vozes silenciadas, como suas pautas secundarizadas. Sofrem com a homofobia de maneira mais intensa, pois, essa vem acompanhada fielmente do machismo. “Estupros corretivos” e a falta de políticas públicas para o seguimento, que tornam o dia-a-dia dessas mulheres algo inconsolável, já que, dentro do próprio movimento LGBT e, inclusive do feminismo, também não há apoio.

De todas as formas de violência que existem contra a mulher, talvez as mais duras sejam o silêncio e a invisibilidade.

Foi traçado pela humanidade um plano político que faz com que a própria humanidade seja levada a mais profunda depressão, ao maior dos maiores abismos. O nome do plano é heteronormatividade. Aquilo que, antes da homosexualidade deixar de ser uma doença patológica, era chamado de heterossexualidade compulsória. Antigamente, pessoas não-héteros eram caso de estudo, de problematização. Hoje em dia esse pessoal só é coerente se mantiverem sua sexualidade ligada ao seu gênero. Isso é, um homem pode ser homossexual mas não pode se identificar com o feminino. O mesmo vale para as mulheres: nem uma mulher lésbica pode se identificar com o masculino.

O Grindr, bom sucessor das salas de bate-papo-gay, é um grandioso exemplo de como o plano da heteronormatividade (um caminho estratégico do patriarcado, diga-se de passagem) está bem colocado. Acesse um perfil e lá estará: “você é afeminado?”.

No universo dos homens gays, ser afeminado é tido como degradante e, se você assim se definir, será logo descartado: a paquera se apressará em dizer “é que eu não sou afeminado e nem curto”. Mas, é claro, para não perder a oportunidade, gays “afeminados” passam a tentar se “travestir” de masculinizados e assumem, então, uma expressão de gênero não genuína, na ânsia de ser aceito e respeitado dentro do meio gay.

O feminino (e tudo que diz respeito a ele) parece ser visto como um grande tabu para muitos dos gays. Inclusive, é daqui que nasce a visão machista, misógina e transfóbica de que travesti nada mais é do que um homem gay vestindo roupa de mulher (sim, precisamos considerar que a palavra ‘transsexual’ já indica um nivel “superior” de feminilidade, que é mais digno de respeito).

O machismo escondido em forma de deboche está presente na fala dos homens gays que ainda consideram que uma pessoa pode ser gay mas…”pra quê desmunhecar?”. Afinal, os que mais mancham os grupos gays são aqueles que tentam imitar uma mulher.

Bem…talvez aqui caia como uma luva, um jargão que encontrei dia desses perdido no Facebook: “a homofobia é um dialeto do machismo”. E é mesmo. Pois ambos se tornam cada vez mais consolidados na estrutura do patriarcado. São as pilastras mais resistentes na construção dos pré-conceitos. É, de fato, uma situação paradoxal para quem se dá conta da posição tomada entre os gays. Na tentativa de se livrar do preconceito, praticam outro; na tentativa de se livrar da exclusão, são eles mesmos os que excluem.

Paulo Freire trata disso em ‘Pedagogia do Oprimido’, quando ele diz que o oprimido, quando possibilitado, muitas vezes transforma-se ele próprio no opressor; agora, como vingança, a fim de descolorir um pouco toda sua história de quem foi perseguido. Por isso é tão comum conhecer “gays homofóbicos” ou “mulheres machistas”.

Um grande exemplo disso é o método que homossexuais escolheram para criticar o deputado e pastor Feliciano. Novamente, o paradoxo. Muitos gays usando de homofobia para combater a homofobia do pastor. E, na tentativa de deslegitimá-lo, chamá-lo de “passivona” e bradar “saia do armário, enrustida”.

É muito importante nesse caso observar o gênero dos adjetivos usados para desmerecer o pastor: todos estão no feminino. Aliás, não só as palavras no feminino são muito usadas como xingamento, como a própria denominação da mulher, para muitos gays, se dá a partir da denominação do órgão genital que as mulheres cis e as trangenitalizadas possuem: a vagina.

Uma mulher, seja ela lésbica, trans, bi ou héterosexual, é nomeada de “a racha” (que também define aquilo que as mulheres todas, supostamente, têm entre as pernas). Mas claro, há os que vão dizer que é apenas humor e todo mundo tem que aceitar numa boa – que gente chata esses politicamente corretos, né?! E é com todo esse humor que vamos naturalizando cada vez mais preconceitos dentro de um grupo que é rechaçado a todo tempo com mais preconceito.

Aquela difícil pergunta sobre como pessoas que sofrem um preconceito desgraçado diariamente são capazes de oprimir um outro alguém, fica mais fácil de ser entendida depois da desconstrução. Pois é assim mesmo que o patriarcado funciona. Precisamos ir na contra-mão para entender seus mecanismos, que, infelizmente, não são poucos. Uma vez internalizadas as prescrições e preconceitos, nossa vida cotidiana há de ficar repleta desses discursos. Mesmo que inconscientemente. E assim vamos mantendo a ordem.

autora: Marina Braga
autora: Marina Braga
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s