Sou gorda, sim… E com muito orgulho!

por Uanna Mattos

Durante toda a minha vida fui gorda. Ou melhor dizendo: durante toda a minha vida a sociedade fez questão de me lembrar que eu era gorda. Quando pequena, morria vergonha do meu corpo, olhava para as minhas amiguinhas e queria ter o corpo igual ao delas. A imposição do padrão de beleza é tão cruel, que consegue fazer uma garota de 10 anos sentir vergonha do seu próprio corpo.

Já fiz algumas loucuras para tentar emagrecer e já presenciei muitas outras loucuras de amigas para chegarem no peso ideal. Já me envergonhei ao devolver todas as roupas que levei para o provador da loja e presenciar aquele olhar acusador. Já fui chamada de gorda no meio da rua, por um desconhecido, que não tem absolutamente nada a ver com a minha vida. Já deixei de fazer muitas coisas por ser gorda. Já fui impedida de fazer muitas coisas por ser gorda.

A sociedade não está preparada para pessoas gordas. Catracas de ônibus, assentos do metrô, cadeiras de bares e de muitos outros lugares, banheiros públicos… Eu não sou bem-vinda em praticamente nenhum lugar, a não ser que eu queira me envergonhar publicamente ou sentir muitas dores nas minhas pernas, por simplesmente não caber numa cadeira. As lojas de roupas não aceitam que o meu corpo é um corpo normal. O tamanho G se transformou no novo P e o termo plus size é o novo 46 (que na verdade parece mais um 44). A sociedade não foi feita para corpos gordos e ela faz questão de me lembrar disso todos os dias.

Ser gorda é você ir ao médico com uma dor nas costas e voltar com uma hora marcada na nutricionista. Ser gorda, automaticamente, te torna uma pessoa não saudável, porque parece que todos os problemas de saúde são exclusivamente das pessoas gordas (gente, não, por favor!). Ser gorda é você ouvir “agradeça por ELE estar com você, ninguém mais te aceitaria desse jeito”, porque gorda não pode ser amada, não pode ser sexy e não pode ser desejada por um outro homem. (digo homem, porque a sociedade é heteronormativa, então para ela, a vida de uma mulher só será completa ao lado de um homem).

A sociedade me machuca diariamente e machuca outras mulheres. A imposição do padrão de beleza está presente em todos os corpos, sejam estes magros ou gordos. Mas o que nós, pessoas gordas, sofremos, vai muito além de um padrão de beleza. Vai muito além de não ser suficientemente magra para usar a roupa que está na moda. Eu sofro gordofobia, todos os dias da minha vida. Uma gordofobia estrutural, que faz com que mais da metade da cidade onde eu more não esteja preparada para o meu tipo de corpo. Uma gordofobia que te obriga a comprar dois assentos em um avião, por não caber em apenas um.

Eu sou gorda e, hoje, eu tenho muito orgulho disso. Hoje eu consegui diminuir 70% do preconceito que eu sentia pelo meu próprio corpo. Eu sou gorda e não tenho problema alguma em assumir isso, porque ser gorda não é motivo de se envergonhar. Mas, por mais que eu tente lutar contra o preconceito que decaí sobre o meu corpo, ele não acabe e nem diminui, porque a cada dia que passa o corpo gordo se torna ainda mais desprezível.

Sim, sociedade, eu sou gorda e tenho muito orgulho disso. Só espero que todas as minhas irmãs, algum dia, possam falar o mesmo. Enquanto isso a minha luta será contínua e com um único objetivo: tire seus malditos padrões do meu corpo gordo lindo!

Uanna Mattos, 21 anos. E o meu Sol em Libra me impede de decidir quais características colocar nessa bio.
Uanna Mattos, 21 anos. E o meu Sol em Libra me impede de decidir quais características colocar nessa bio.
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