Crônica: Vaca profana

por Ana Beatriz Rosa

Vivian Maier é uma heroína da sublimação quando afasta a libido do objeto sexual e a transfere para as suas fotografias em um processo relativo às suas pulsões, mas não à idealização de suas imagens. A satisfação é atingida por meio de objetos de substituição e a energia libidinal é desviada de suas metas originais para ser investida em realizações culturais. As pulsões, por sua vez, estão no limiar entre o somático e o psíquico. Há um imaginário, há uma simbolização por trás delas. Na série de autorretratos apresentados por Vivian Maier, o sujeito está fora de cena para se colocar entre o reflexo e a sombra. O eu é escapável e há sempre algo de enigmático na subjetividade.

O eu feminino aqui representado por Vivian é duplamente escapável na falta de uma referencia fálica. O falo é a representação simbólica do pênis na medida em que este é o órgão da completude para Freud. É algo que ou não se tem ou se pode perder. Isso gera angústia, pois o individuo não gosta de se sentir incompleto ou faltoso. Mas o feminino sempre foi visto como algo não fálico. A fotografia de Vivian questiona o lugar do feminino em tempos de fetichização do lugar do sujeito, que é em trânsito.

O complexo edípico remete ao enigma da diferença sexual e se torna confuso na medida em que é difícil de entender o conceito de diferença. Para além da relação da criança, da mãe e do pai, Édipo remete a uma segunda camada que envolve os processos de sexuação. O feminino é colocado como o maternal, mas ele também é desejante e não há espaço para os dois. Retorna-se aos arquétipos do feminino como não sexual e como hiperdesejante. Entre a santa e a puta haverá uma mulher possível? Quais são as possíveis figuras para além dessa dualidade?

A fotografia é morte. Qualquer corpo representado na imagem é corpo morto, é o tempo que passou. Mas a fotografia é também relato e rastro do real. É presença pura. É a luz que impactou e é a prova da existência. É a presença da morte e da vida na imagem. A dubiedade da imagem é uma representação do ser. Não há uma ideia de um “eu” estável. Ele é, no mínimo, duplo. É fragmentação e é unidade. É real e é imagem. Entender esse movimento, para o individuo, mas, sobretudo, para aquele que é colocado na posição de mulher, é demorado. Vivian buscou por meio dos seus autorretratos e reflexões, mas achou que não encontrou respostas. “Eu não sei muito bem porque fiz isso”, ela disse.

Não consigo pensar a mim sem me conectar com a relação de dualidade do eu presente no conceito de falo e no da fotografia. O lugar que ocupo no mundo é incompleto e não gostaria que fosse diferente. O faltoso abre espaço para que outras coisas se encaixem ali. Quero ser quantas couberem na captura de uma selfie e o que atrai o meu desejo está sempre em deslocamento.

“Todo corpo em movimento está cheio de inferno e céu. […] A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo. Todo homem, todo lobisomem, sabe a imensidão da fome que tem de viver. Todo homem sabe que essa fome é mesmo grande, até maior que o medo de morrer. Mas a gente nunca sabe mesmo que que quer uma mulher”, cantou Caetano. Mas a gente nunca sabe mesmo o que a alma quer.

Ana Beatriz Rosa tem 21 anos, estuda jornalismo, é baiana mas já tem são Paulo no coração. Ama tudo relacionado a viagens, gastronomia, boas histórias e fotografia.
Ana Beatriz Rosa tem 21 anos, estuda jornalismo, é baiana mas já tem São Paulo no coração. Ama tudo relacionado a viagens, gastronomia, boas histórias e fotografia.
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