Passei por um aborto e ficou tudo bem

“Vai ficar tudo bem”. Eu já namorava o Rafa* há quase um ano quando ele me disse isso. Estávamos sentados na cama dele, encarando os dois riscos vermelhos em um exame de farmácia. Não havia outra interpretação possível: eu estava grávida.

Ilustração de Helô D'Angelo
Ilustração de Helô D’Angelo

Naquele instante, senti meu mundo estremecer. Perdi o chão. A voz imaginária da minha mãe berrava no meu ouvido: “que decepção”. Na minha cabeça, eu lembrava como todos os filmes, livros e músicas da minha vida diziam que engravidar tão nova era horrível, pecado ou uma sentença de morte. É fácil listar: em Juno, a personagem principal resolve que não vai abortar porque o feto já tem unhas; em O despertar da primavera, uma das personagens engravida e morre em um aborto malfeito; em Glee, uma das protagonistas engravida, resolve não abortar e tem que lidar com os olhares chocados na escola.

Como feminista, eu me sentia idiota. Como mulher, senti muita culpa e vergonha. Afinal, entre as minhas amigas, eu sempre me considerei a que mais conhecia o próprio corpo. Tirava sarro das meninas que não se masturbavam e me julgava sexualmente superior. Eu era uma verdadeira babaca egocêntrica. Fiquei tão desesperada que pensei em me matar – a única coisa que me segurou foi o Rafa, me dizendo que ia ficar tudo bem.

Ligamos para a Cata*, uma grande amiga nossa, e pegamos o contato do Dr. Carlos*, um obstetra que também faz o procedimento, e que já havia tratado uma amiga dela. Marcamos uma consulta no dia seguinte. Depois, liguei para minha melhor amiga, a Ju*, e ela chegou minutos depois com mais um teste de gravidez e a namorada, Fê*. Refizemos o teste e, de novo, deu positivo (aliás, eu descobriria mais tarde que o teste de farmácia só pode dar um falso positivo, mas nunca um falso negativo). Eu já havia feito um exame de sangue no laboratório, sob o olhar julgador das enfermeiras (cheguei a ouvir um “boa sorte” sarcástico de uma delas). Não havia dúvidas.

Na tarde seguinte, eu e o Rafa fomos ver o Dr. Carlos. Fiquei surpresa: o consultório era uma sala comum, limpa, como em qualquer hospital. Acho que eu esperava algum tipo de açougue escuro e sombrio, no qual a gente tivesse que ter uma senha para entrar, sei lá. Em vez disso, fotos das netas do doutor enfeitavam as paredes. Sorridente, ele entrou, nos cumprimentou e ouviu nossa história sem nenhum sinal de reprovação.

Dr. Carlos foi muito cuidadoso. Depois de me examinar e confirmar a gravidez, ele me olhou nos olhos e explicou que o procedimento levaria apenas cinco minutos e que não haveria nenhum tipo de corte ou raspagem. Por isso, não havia nenhum risco de hemorragia ou infecção. O aborto, ele me disse, é feito por meio da sucção do endométrio, que é a “base” criada pelo corpo da mulher todo mês para o feto. O endométrio é o que sai quando a gente menstrua, então seria como provocar um aborto natural. Ele me contou que já havia feito o procedimento na própria filha, quando ela tinha 17 anos, e que aos 30 ela havia dado à luz uma menina muito saudável.

Também não há nenhuma contraindicação para o aborto e, inclusive, todos os médicos aprendem a realizá-lo na faculdade. O procedimento seria feito naquele mesmo consultório e eu só precisava ficar 12 horas em jejum e checar meu fator RH e o do Rafa, para evitar endometriose. Só isso. Depois do aborto, eu poderia fazer qualquer coisa. Nada de repouso. Eu poderia ir para a academia ou para a balada, se quisesse. Saí chocada do consultório. Chocada com o tabu que a sociedade coloca sobre a questão. Chocada com a visão terrível que mesmo algumas feministas têm. Chocada em ver como eu mesma, horas antes, estava paralisada de medo.

Marcamos o aborto para a mesma semana. Os dias que seguiram foram uma sucessão de enjôos matinais, ansiedade, medo que alguém descobrisse e raiva por ter medo. Foi muito difícil não contar para a minha mãe, mas eu sabia que ela nunca aceitaria numa boa. Conversei muito com a Cata, a Ju e a Fê, e elas me fizeram entender que me culpabilizar e me colocar como irresponsável, burra ou ignorante não ajudava em nada. Aos poucos, parei de ter vergonha. Comecei a dizer “aborto” em vez de “procedimento”. Fiquei menos sensível em relação ao tema. Comecei a ler mais e percebi que eu não era menos mulher por estar passando por aquilo.

No dia marcado, a Cata me mandou uma lista de dicas para o meu aborto. Ela me explicou que eu ficaria muito tempo sem comer durante o dia, então seria bom levar alguma coisa para beliscar após a “cirurgia”. Ela me advertiu que eu poderia enjoar depois do procedimento, mas que isso era normal, e também me disse para levar um absorvente noturno e talvez até outra calça, porque o sangramento poderia ser intenso.

Eu, Rafa, Ju e Fê chegamos no consultório juntos. Tudo aconteceu muito rápido: fui levada para a sala onde Dr. Carlos realiza os abortos, coloquei uma camisola daquelas de hospital e deitei na maca esterilizada. Fui sedada pela enfermeira e acordei cinco minutos depois, meio grogue e não-grávida. Fui levada para uma outra sala, com uma caminha e um cobertor descartável. A enfermeira me fez deitar, me cobriu, me deu água e chamou meus amigos.

Quando eles chegaram, chorei.

Chorei, mas não por mim. Chorei pelas milhares de mulheres que morrem todos os anos abortando em casa. Chorei porque o procedimento é muito simples e, ao mesmo tempo, inacessível para a maioria da população. Chorei pelo preconceito que eu mesma tinha contra o aborto. Chorei pelas minhas irmãs mulheres, obrigadas a morrer ou a deformar os próprios corpos por causa de um tabu idiota. Chorei pelo argumento estúpido de que, caso legalizado, o aborto será usado como método contraceptivo. Não foi fácil passar por isso. Eu definitivamente não quero passar de novo. Eu fui abraçada, cuidada, alimentada depois do meu aborto. As outras meninas do Brasil, não.

Jurei lutar até o fim dos meus dias para que o aborto seja legalizado. E vou continuar lutando para que, como eu, todas as mulheres do mundo possam ser livres para fazer o que quiserem com os próprios corpos, sem culpa nem riscos. Quero que todas possam olhar para si e perceber que uma gravidez indesejada não é o fim do mundo. Que pode ficar tudo bem, assim como o Rafa me disse.

E, para mim, ficou. Ficou tudo bem.

*Por razões óbvias, a autora pediu anonimato. Todos os nomes também foram trocados.

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11 comentários

  1. Achei o relato tão lindo, e tão sincero que acaba me entristecendo por concordar, o processo (físico) é tão simples, e poderia ser feito de uma forma legalizada evitando tantas mortes, ou tantos nascimentos não queridos…
    Todas devemos ter direito sobre nosso corpo, e não devemos abandonar a nossa luta!
    No que penso sobre aborto é simplesmente, por acidente acabar com uma vida próspera, para gerar uma infeliz…

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Igor! Nós prezamos pela não-agressão de nossas autoras. O que você disse foi bastante ofensivo, principalmente porque você é um homem que jamais terá que passar pelo que ela passou. Pensa nisso e pesquise melhor antes de sair por aí distribuindo ódio, ok?

      Curtido por 1 pessoa

  2. É realmente uma lástima ler um testemunho de um assassinato e achar lindo! Então vocês acham que um ser humano só vira gente depois que nasce? E se ela não tivesse abortado? e se ela tivesse dado a este pequeno ser a chance de viver, assim como a mãe dela lhe deu a chance de viver? quanto anos esta criança teria hoje? com quem ela se pareceria? Sua mãe, dona autora, não te abortou, porque sabia que você, como um ser humano, tem o direito à vida! Essa criança, que teve o direito à vida negado, poeria ter te trazido tantas alegrias! você só entende a benção que é ser mãe, quando se torna mãe. E você vai viver sua vida toda com o tormento de ter matado seu filho!

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