Pole Dance: um esporte invisível

por Letícia Sabbag

Eu sempre assistia a vídeos no Youtube e admirava aquelas mulheres de ponta cabeça, com pernas esticadas, com corpos flexíveis na ponta de pé. Mas elas não são bailarinas. Elas não precisam de uma coluna ereta, ou um rosto fino, um corpo magro, uma expressão delicada. Elas não tem sapatilhas ou uma linda roupa para espetáculos, não são parte da cultura clássica de dança ou ginástica. No entanto, a dor dos pés da bailarina é a mesma da sua pele contra a barra, as pernas e braços se esticam tanto quanto as de um contorcionista, os músculos queimam e enrijecem tanto quanto os de um ginasta. Apesar de todo o esforço e gotas de suor pelo esporte, ainda existe muito preconceito, elas são chamadas de “vulgares”, “biscates”, “mulheres da vida”.

Sim, Pole Dance é um esporte – a sociedade aceitando ou não – e foi em agosto de 2014 que decidi fazer uma aula teste, em uma academia perto de casa especializada em Pole Dance. Eu pensava: “Fiz jazz quase a vida inteira e estou no quinto ano de academia, se eu aguento glúteos, vou aguentar isso aqui!”. A experiência foi divertidíssima, fui com uma amiga, também muito curiosa para saber como era a aula. Em uma hora, as duas saíram com dores nas mãos, por causa da pressão do pole, e no abdômen de tanto rir. Fui apresentada a pelo menos cinco giros com nomes diferentes, era um mundo novo. Naquele dia eu tinha, finalmente, encontrado a combinação perfeita entre dança e condicionamento físico: foi amor à primeira vista.

E digo amor porque paixão pode ser passageira, mas o Pole Dance não é passageiro para mim. Passados quase onze meses, sei que encontrei meu esporte – mesmo amando o jazz, o street dance e a academia. Ele foi o maior e mais gratificante desafio de enfrentar. Em um mês eu conseguia inverter e escalar a barra. Após dois meses, aumentei de duas para quatro aulas semanais. Não existe monotonia, você não faz sempre os mesmos movimentos, as professoras (nessa academia, pelo menos) não seguem uma sequência específica, toda aula é diferente e dinâmica. E sabe a parte mais incrível? Adquirir a consciência corporal para fazer um movimento novo, sentir as respostas do corpo, além de ficar com a auto-estima lá em cima.

É claro que fazer Pole Dance não é um mar de flores: como qualquer esporte, principalmente como ginástica rítmica e olímpica, as mãos ficam cheias de calos, o peito do pé rala contra a barra, a pele arde com a pressão, os braços e pernas ficam com roxinhos. Tudo faz parte do aprendizado, e, com o tempo, os resquícios do impacto contra barra reduzem, muitas vezes desaparecem. O segredo é: para quem tem interesse em praticar, não desistir.

Entenda desistir em todos os sentidos da palavra: tanto na hora de alongar e aprender movimentos, quanto ao encarar olhares tortos, julgamentos e frases como: “Pole Dance? Então você é prostituta?” ou “Pole dance não é um esporte, muito menos coisa de mulher ‘decente’”. Decência? Oi? A verdade é que o Pole Dance como acrobacia foi há pouco tempo introduzido no Brasil, e a maioria da sociedade ainda tem inconscientemente aquela imagem de strippers em filmes hollywoodianos, dançando em volta da barra. Por sinal, uma visão antiquada e preconceituosa.

Antiquada porque há muitas pessoas que criticam ou desconsideram o esporte sem realmente assistirem a um campeonato nacional ou mundial. Pole é pura acrobacia, com pitadas de dança aqui e ali. As pole dancers lutam por um espaço nas Olímpiadas há pelo menos sete anos, e a luta por reconhecimento é constante. Outra coisa: ainda existem strippers dançando na barra? É claro que sim, é uma profissão como qualquer outra! Não faz sentido repudiar quem está ganhando seu próprio pão. Elas praticam Pole? Talvez. Eu não conheço, mas seria legal se praticassem para melhorarem as performances. Tem muito mimimi para um só planeta.

Antes, eu tinha receio de falar qual esporte praticava. Hoje em dia tenho orgulho de ser uma futura pole dancer, e de levantar a bandeira a favor das participações olímpicas. Em uma simples definição: Pole Dance é um esporte acrobrático, que valoriza a sensualidade de seus praticantes, além de favorecer o alongamento, fortalecimento e enrijecimento dos músculos e articulações. Ache vulgaridade quem quiser e por enquanto, porque um dia ele será tão famoso e bem visto quanto a ginástica olímpica. Certamente, estarei lá para acompanhar esta vitória.

Letícia Sabbag tem 20 anos, é estudante de Jornalismo e pratica pole dance há 10 meses.
Letícia Sabbag tem 20 anos, é estudante de Jornalismo e pratica pole dance há 10 meses.
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5 comentários

  1. A visão distorcida desta atividade física mais uma vez foi plantada pelos americanos, (nada contra eles). Na maioria dos filmes, principalmente os policiais, quando os personagens entram em boates, geralmente tem mulheres semi nuas fazendo movimentos eroticos nas barras de pole dance.
    Sendo assim as pessoas menos avisadas associam a pole dance a prostituição.
    Parabens Leticia, adoro ver os jovens defenderem seus atos e ideias independente do que os outros falam ou pensam.
    Se tivessemos mais jovens assim como vc com certeza mudariamos este país.

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