Como o coletor menstrual muda o mundo

por Érica Azzellini

Relatos sobre as maravilhas do coletor menstrual existem aos montes na internet agora – e isso é ótimo! Significa que as mulheres estão superando o tabu da menstrução ao quererem que todo mundo saiba de suas benesses. Esse tabu existe nas pequenas coisas (que não são tão pequenas assim): pedir absorvente pra amiga cochichando, recusar convites para ir à praia porque está menstruada, evitar usar calça legging com medo de que marque o absorvente – porque, claro, NINGUÉM pode saber que você está “naqueles dias”- e por aí vai.

É como uma punição, menstruar. E, consequentemente, uma punição por ser mulher. Até a linguagem que usamos fala bastante sobre o quão presente é esse tabu em nossa sociedade. É como em Harry Potter: dizemos estar “de chico” ou “naqueles dias” para nunca dizer com todas as letras que estamos “menstruada”, da mesma forma que os bruxos que têm medo do Voldemort não citam seu nome e referem-se a ele como Você-Sabe-Quem. Só que menstruação não é nenhum bruxo maligno e muito menos algo perigoso. Pelo contrário!

É lindo ver o sanguinho na privada e ter maior consciência de como meu corpo funciona. Quando observo meu sangue coletado, percebo que é a minha natureza diante de meus olhos. Não tem nada de sujo, fedorento ou impuro. O coletor menstrual acabou por me incentivar a me tocar e a conhecer melhor meu próprio corpo, minha pepeca. A cada ciclo me sinto mais mulher e mais forte. É encontrar uma nova consciência em meio a essa renovação mensal tão ancestral.

Mas mais do que ser um instrumento de uma mulher cosmopolita naturalizar o que já lhe é natural e romper com o patriarcado, é uma forma de mudar vidas. Não precisamos de dados estatísticos para saber que a maiorida das mulheres entre 12 e 45 anos menstrua em média uma vez ao mês, independemente de classe social ou nacionalidade. No mundo em que venho, o coletor é perfeito porque posso ficar com ele confortavelmente por até 12 horas seguidas, sem que afete a minha produtividade diária. Posso ir à praia, andar de bicicleta, usar calça branca e me sentir segura para fazer o que eu quiser. Também reduzo significantemente a quantidade de lixo no mundo ao deixar de usar o absorvente comum, então colaboro com a sustentabilidade do planeta e ainda acabo economizando dinheiro.

Mas em um continente cuja realidade é completamente diferente da nossa, o coletor é mais do que um conforto para as mulheres durante seu período menstrual: é uma chance de mantê-las na escola o mês inteiro e empoderá-las. Na África, um pacote de absorventes custa menos que aqui no Brasil, mas esse valor pesa bem mais para famílias que recebem menos de 3 reais ao dia. Então, como o acesso a eles não é fácil, muitas mulheres usam folhas, jornais e até mesmo barro para substituí-lo. Você consegue mensurar a quantidade de mulheres que precisa recorrer a isso!? Imagine só o desconforto e o risco para a saúde que essas alternativas de absorvente geram para elas! E as mulheres em idade escolar precisam faltar às aulas durante os dias em que estão menstruadas, já que não têm acesso a absorventes nem a vasos sanitários por perto. Com isso, perdem em média 20% de todo o período escolar, ficando em desvantagem em relação a seus colegas homens.

Soube de tudo isso assim que comecei a usar meu querido coletor e uma amiga me enviou um texto sobre a Femme International, que é uma organização voltada para educação na área de saúde feminina – principalmente menstruação – para conseguir empoderar mulheres em locais subdesenvolvidos com sustentabilidade. Para isso, dá aulas sobre higiene feminina e distribui kits com coletores menstruais. Assim, as meninas podem assistir as aulas todos os dias do mês e não precisam deixar de comprar comida ou algum outro item essencial para comprar um absorvente descartável. Eu simplesmente precisei fazer uma doação de coletor menstrual porque percebi que, se o impacto dele na vida das mulheres do meu mundo é muito grande, lá, então, é absurdamente maior.

Beleza, ajudar todo mundo quer, mas e o custo? O valor para doar um coletor foi o equivalente 30 reais só, quase um terço do valor que eu paguei no meu. Para estudantes, pode parecer muito dinheiro. Mas pensando que em um almoço (de estudante, claro), se gasta mais ou menos 15 reais, só dois dias que você almoça um sanduíche de casa ao invés de comprar o almoço você já está mudando a vida de uma outra estudante por até dez anos – que é o tempo estimado de duração do coletor menstrual. OW.

Bem, acho que sou o tipo de pessoa que nasceu querendo mudar o mundo todo de uma só vez com poderes mágicos e não estou sozinha. A gente demora a perceber que mudar o mundo está ao nosso alcance: um pouco de sororidade faz, sim, toda a diferença.

Érica Azzellini: Taurina, 20 anos, estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Indivíduo gauche por natureza.
Érica Azzellini: Taurina, 20 anos, estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Indivíduo gauche por natureza.

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