Quadrinhos são coisa de menina também!

por Helô D’Angelo

Como muita gente, cresci lendo as historinhas da turma da Mônica, as tirinhas da Mafalda e os quadrinhos do Calvin & Haroldo. E continuei, mesmo depois de grande, a ler outras HQs: em 2011, comecei a fazer aulas de desenho, e meu professor me emprestou a primeira graphic novel que li, Retalhos, de Craig Thompson. Fiquei encantada com a delicadeza dos traços dele e com a criatividade dele. Me apaixonei por aquele jeito de contar histórias.

Logo, eu comecei a devorar cada quadrinho que podia encontrar. Li Maus, do Art Spiegelman; Sandman, do Neil Gaiman; Palestina, do Joe Sacco; O fotógrafo, do Didier Lefèvre; Ao Coração da Tempestade, Avenida Dropsie Nova York – a vida na Cidade grande, de Will Eisner; Habibi, do Craig Thompson, Sin City, Frank Miller, V de vingança, de Alan Morre, e por aí vai. Eu simplesmente não conseguia parar.

Comecei a me aventurar nas HQs de super heróis aos 16 anos, mas as tramas sempre excluíam as mulheres, ou então colocavam-nas com decotes, salto, maquiagem e roupa colada, e me entediavam pra caramba. Percebi que eu não conseguia citar mais de cinco super-heroínas que não fossem a versão feminina de algum herói, ou que, em algum momento, não tivessem ficado em perigo e sido salvas por um homem, sem que o oposto acontecesse. Aos poucos, fui me cansando da Marvel e da DC e da sua falta de mulheres “de verdade” nas histórias.

Além disso, esse tipo de comics é quase totalmente dominado por homens, de roteiristas a fãs. Entrar numa gibiteria era quase como passear dentro de uma mesquita na parte masculina sem usar véu. Era muito, muito esquisito ficar sendo observada pelos vendedores enquanto eu passeava pelos corredores. Quase sempre, eu ouvia risinhos quando errava o nome de algum autor ao pedir informações, ou então recebia olhares espantados quando eu dizia que aquela HQ era para mim, sim, obrigada. Mesmo nas livrarias, a sessão de quadrinhos tinha poucas graphic novels como as que me iniciaram. Em vez disso, uma enxurrada de músculos do Super-homem ou do Capitão América dominavam as prateleiras. Hoje, essa situação mudou radicalmente, e as meninas que curtem o universo geek, em vez de excluídas, acabaram sendo fetichizadas, o que é tão ruim quanto.

Tentando sair desse circuito que não me representava, segui a dica de algumas amigas e procurei Persépolis, da Marjane Satrapi. Foi a primeira graphic novel de uma mulher que li. Fiquei absolutamente deslumbrada. A Marjane se apropriou de uma linguagem já muito conhecida no universo masculino para tratar de questões femininas na Revolução Islâmica no Irã. Querendo mais, fui atrás da Alison Bechdel, autora de Fun HomeVocê é Minha Mãe?, e a primeira mulher a vencer o prêmio Eisner, o maior do mundo dos quadrinhos. Li Azul é a cor mais quente, da Julie Maroh, Adeus, tristeza, da Belle Yang, e fiquei procurando cada vez mais quadrinistas mulheres. Em minha busca frenética, tive uma surpresa: no Facebook, estava rolando uma explosão de minas que produzem HQs de forma independente começou – a Magra de Ruim, a lovelove6, as meninas da Zine XXX, o pessoal do Batata Frita Murcha, a Lorena Kaz, o Lady’s Comics, o Mulheres nos Quadrinhos e muitas outras. Comecei a produzir meus próprios quadrinhos, me sentindo totalmente em casa, e a compartilhá-los em grupos dedicados ao assunto.

Hoje, a mulherada dominou o mundo dos comics. A Marvel já percebeu isso, e começou a recriar suas personagens femininas. A DC está tentando repensar o figurino de suas mulheres. Fico feliz de ver como as histórias em quadrinhos estão se tornando um espaço de mulheres também, tanto como consumidoras quanto como produtoras. Já muito estigmatizada com algo infantil, as HQs na verdade têm se firmado cada vez mais como uma forma de arte “séria” e respeitada. E que melhor espaço para discutir feminismo que um lugar sério e respeitado?

Então, mina, leia quadrinhos! Produza os seus! É coisa de menina também. ❤

Helô D'Angelo tem 21 anos e curte jornalismo, mas ama  de paixão jornalismo em quadrinhos sobre minas.
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que fazer quando acabar a faculdade de jornalismo. Mas ela curte HQs.
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