Perfil: “Será que é cenário a casa da atriz?”

Petra Costa em Nova York. (divulgação)
Petra Costa em Nova York. (divulgação)

por Ana Júlia Gennari

Suavidade. É a palavra que Petra Costa transparece em seu ser. Seu tom de voz e o modo de sua fala são leves e parecem te envolver com tal sensação. A autora de Elena, uma das mais belas obras cinematográficas feitas no Brasil, é pura essência. Mineira de Belo Horizonte, tem em Guimarães Rosa, seu conterrâneo, grande fonte de influência literária tanto em Elena como em Olhos de Ressaca, um curta de 2009 que, em suas palavras, é uma investigação arqueológica dos afetos por meio de um casal, seus avós, que está junto há 70 anos.

Vinda de uma família com maior interesse em debates políticos do que em sentimentos, ela acabou por seguir os passos artísticos da irmã mais velha e atriz, Elena, de modo a tentar encontrar um caminho para expressar suas angústias e euforias através da arte. Começou a fazer teatro aos 14 anos e cursou Artes Cênicas na USP, mas depois de dois anos abandonou o curso e foi para Nova Iorque estudar Antropologia na Barnard College, faculdade livre de artes da Universidade de Columbia. “Senti que eu precisava de outros elementos para falar da vida, assim… Pensar em construir uma obra artística. Eu sentia falta de entender melhor história, filosofia, antropologia, enfim, a sociedade e o ser humano, para poder dizer algo sobre ele”, explica, ressaltando mais adiante a crítica ao sistema superior de ensino no Brasil como justificativa de ter ido estudar nos Estados Unidos, “não acredito nesse método educacional que você escolhe um tema e só foca nele, principalmente saindo do colegial… Num mestrado já faz mais sentido. Mas saindo do colegial você ainda tem que saber muito sobre a existência para começar a focar em alguma coisa. Se você já foca direto você fica com lacunas muito grandes, eu acho”.

Petra só começou a trabalhar com cinema depois de formada, com um gosto apuradíssimo, ela cita três filmes que foram providenciais para essa tomada de rumo: La jetée de Chris Marker, Beau Travail da Claire Denis e a A Batalha de Argel de Gillo Pontecorvo. Seu primeiro trabalho foi em 2005 com Dom Quixote, um média-metragem que, em sua produção, demonstra bastante a característica antropológica da cineasta. O filme fala sobre um grupo de teatro da Pensilvânia que com o intuito de fazer uma ponte entre a comunidade latina e inglesa da cidade, que era bastante segregada, montou uma peça de Dom Quixote “quase como uma parada carnavalesca”, na visão da diretora. Petra o co-dirigiu com uma americana e seu foco foi entrevistar as pessoas locais, principalmente da comunidade latina. Ela as questionou sobre uma possível identificação com os personagens da obra de Cervantes, para “tentar entender a cidade através da metáfora de Dom Quixote”, conta.

Seu primeiro longa foi Elena, lançado em 2012 na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e foi o ponto de sucesso e reconhecimento de sua carreira, premiado nacional e internacionalmente. Contudo, muitas pessoas que assistem a Elena acabam tendo a impressão de que o processo de individuação das duas irmãs que o filme trata permeou todo a trajetória profissional da vida de Petra, mas ela nega, “a vida era bem mais variada e complexa”.

A promessa feita a si mesma de fazer um filme sobre Elena se deu há muito tempo, quando ela ainda tinha 18 anos. Depois de ter lido Hamlet, ela construiu uma cena, em sua aula de teatro, misturando seus diários aos de Elena, “foi a primeira vez que li os diários dela, foi fortíssimo[…] queria falar sobre a confusão de identidades, a tristeza de Elena e as Ofélias”. Dez anos após esse ocorrido, no dia seguinte ao cabo de seu primeiro curta, Petra teve um sonho – que é o texto que abre o documentário – e aí, então, percebeu que talvez tivesse chegado o momento de fazer aquele filme que havia se prometido. Nesse entretempo, porém, ela diz ter pensado muito pouco sobre o assunto.

Elena é um documentário no qual Petra narra a história de sua irmã mais velha, que foi estudar teatro em Nova Iorque e se suicidou aos 20 anos. É interessante como a cineasta se dirige apenas à Elena durante toda a narrativa e como as semelhanças de voz e aparências nos levam, por vezes, a questionar quem fala: Petra ou Elena. Essa foi uma jogada muito bem pensada de montagem cinematográfica que a diretora disse ter usado tendo como referência Um Corpo que Cai de Hitchcock, para demonstrar a confusão entre as duas irmãs. O trabalho de apuração de Petra para esse longa levou três anos, no quais ela fez pesquisas para rememorar Elena, já que tinha apenas 7 anos quando ela morreu. A cineasta refez os passos de sua irmã num trabalho de muita sensibilidade que nos mergulha ao fundo de uma história trágica ressignificada em arte.

Sobre as dificuldades de ser mulher dentro da indústria cinematográfica, com a desigualdade de gênero atrás e frente às câmeras, ela afirma não ter passado por preconceitos muitos graves enquanto diretora e roteirista, mas que a deixa muito incomodada a falta de filmes com enfoque na mulher. “Até quando eu falo que me prometi fazer um filme sobre Elena, foi porque, na época, eu sentia que a questão da qual eu queria tratar – que era essa crise existencial na adolescência, nessa transição da adolescência pra vida adulta – era algo que eu não tinha visto do ponto de vista feminino no Brasil. Nos Estados Unidos até tinham alguns casos, As Virgens Suicidas, Garota Interrompida e tal, mas no Brasil eu num tinha visto nenhum”, afirma. Ela reclama de ver muito papéis que são desinteressantes em seu ponto de vista com “todo um leque de possibilidades da mulher deixado de fora” e conclui, “então acho que ta aí meu engajamento”.

Seu próximo filme será lançado no segundo semestre deste ano e segue seu traço estilístico de engajamento na representatividade da mulher. Olmo e a Gaivota é livremente inspirado em Mrs. Dollaway, de Virginia Woolf – escritora preferida de Petra. O filme “é com dois atores do Teatro de Soleil, que é uma Companhia de Teatro da França que eu admiro bastante”, conta “e mostra a relação deles tanto no teatro quanto em casa”. A atriz está grávida e as gravações acompanham “essa viagem psicológica dela durante os nove meses da gravidez”. A proposta, de acordo com Petra, é que os atores encenem a própria vida para câmera e que o filme brinque com a fronteira da realidade e ficção, “então a gente fica nesse apartamento com eles, em que a estrutura é ficcional, mas todos os elementos que eles oferecem são reais”. Aguardemos ansiosos, portanto, mais uma poesia em forma de audiovisual!

Ana Júlia, 24 anos, dei um rolê em Direito por alguns anos pra vir me encontrar no Jornalismo e na Educação. Capricorniana porém regida por muito ar, feminista, cinéfila, apaixonada por música brasileira e por cantar o meu ser.
Ana Júlia, 24 anos, dei um rolê em Direito por alguns anos pra vir me encontrar no Jornalismo e na Educação. Capricorniana porém regida por muito ar, feminista, cinéfila, apaixonada por música brasileira e por cantar o meu ser. Obs: mando áudios longos por whatsapp.
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