Assédio não é elogio!

por Juliana Alcântara

Hoje eu voltei pra minha casa a pé, quando já estava escuro. Coloquei a touca da minha blusa, agarrei minha bolsa com uma mão, segurei meu guarda-chuva com a outra, e segui com passos muito rápidos e um olhar desconfiado. Tudo isso por medo.

Eu não preciso andar a pé sozinha todo dia. Eu não sinto esse medo todo dia. Mas algumas mulheres sentem.

Passei por duas ruas que há anos eu não passava. O motivo? Fui assediada nesses dois lugares, um assédio que foi além, MUITO além, do ‘fiu-fiu’. Por anos eu me recusei a passar por esses locais, mesmo que acompanhada, mesmo que durante a luz do dia. E por anos eu me calei sobre isso, até agora, ninguém sabia do meu medo. Há alguns dias decidi enfrentar esse medo e fazer novamente esse caminho, simplesmente porque é o caminho mais curto. Hoje eu enfrentei esse caminho. Tinha me esquecido de como ele é escuro e vazio durante a noite. Quando passei pelos dois lugares em que fui assediada, senti minhas mãos apertando com mais força a bolsa e o guarda-chuva. Senti meu coração disparar. A cada pessoa que eu percebia andando atrás de mim, eu acelerava ainda mais o passo, olhava com desconfiança. Pensei nas mulheres que passam por isso todo dia. TODO SANTO DIA. Nas mulheres que andam com suas chaves entre os dedos. Nas mulheres que andam com seus guarda-chuvas mesmo em dia de sol. Nas mulheres que andam até mesmo com canivete ou spray de pimenta. Tiraram de nós até o nosso direito de andarmos em paz nas ruas.

Cheguei no meu prédio. Até o portão abrir e eu estar lá dentro, em segurança, eu não me acalmei. Abri a porta de casa e quis chorar de alívio. Cheguei em casa sem ter meu corpo violado. Algumas mulheres nem chegaram em casa. Outras mulheres chegaram em suas casas, mas dentro delas, serão violentadas. Outras mulheres serão abusadas amanhã, depois de amanhã e por aí vai… e um dia pode ser eu. Um dia pode ser alguma mulher do meu convívio. Um dia pode ser uma mulher do SEU convívio. Um dia pode ser você, mulher. 

Aí eu ainda escuto algumas pessoas dizendo que feminismo é extremismo. Não! Extremista é essa ideia de que nossos corpos são propriedades públicas. Extremista é esse medo que nos fazem sentir só por andarmos na rua.

O feminismo é necessário. O feminismo é necessário pra que, um dia, todas as mulheres possam andar sem medo. O feminismo é necessário pra que nenhuma mulher se sinta culpada pelo abuso que sofre diariamente. O feminismo é necessário pra que ninguém um dia me diga: ‘ninguém mandou andar sozinha na rua durante a noite’. O feminismo é necessário pra que parem de nos dizer que nosso medo é exagero. O feminismo é necessário pra que parem de achar que assédio é elogio.

O feminismo só é necessário porque nós, mulheres, irmãs, ainda não somos livres e só nós podemos nos libertar. Eu sou feminista não só por mim, mas por todas mulheres.

Juliana Alcântara
Juliana Alcântara
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