Hoje, eu (não) quero estar morta: minha história com a depressão

Quando se trata de algumas coisas, não há livre arbítrio. Não há a liberdade de escolher, por exemplo, possuir um transtorno mental. Há, porém, a liberdade de se tratar, ou não.

Eu tenho 20 anos e tenho depressão.

Ilustra: Helô D'Angelo
Ilustra: Helô D’Angelo

Uma das minhas memórias mais fortes que tenho do começo da minha infância é de brincar com um dinossauro de plástico nos fundos de uma casa de uma agradável senhora que me fazia muitas perguntas: “Mas por que você se bate, se soca? É por ciúme da sua irmã que acabou de nascer?” “Não…” “Então por quê?”

Eu não sabia responder, não sei até hoje.

Eu cresci e deixei de visitar a senhora boazinha, parece que ela disse para minha mãe que era apenas uma fase, ia passar.

Não passou.

Minha pré-adolescência chegou e foi o pior momento da minha vida. Até os 15 anos, eu voltava chorando todos os dias para casa. “Magrela, feia, burra, você nunca vai ser nada na vida, ninguém gosta de você”. Perdi a conta de quantas vezes fui para a diretoria porque os professores notavam tais “brincadeiras” e me viam chorando copiosamente. Havia apenas avisos e mais nada: “Não façam mais isso, meninos, não pode”. E ficava por isso mesmo, até a próxima semana onde os tais meninos inventavam apelidos cada vez mais criativos: “Pararraio de favela, puro osso, tábua de passar!” Ah, se eles direcionassem esse talento para suas redações, tenho certeza que passariam em alguma faculdade bacana.

Lembro que, aos meus 14 anos, surgiu uma rede social mais intimista, diferente da febre que era o Orkut. A rede social em questão era o Tumblr, e lá eu conheci diversas pessoas com os mesmos problemas que eu. Elas tinham soluções para eles. Mas eram soluções nada saudáveis. Aos 14 anos, eu me auto-mutilei pela primeira vez.

Não, eu não estava querendo me matar, não naquele momento, eu me cortava porque me sentia orgulhosa do que havia feito.
Eu acreditava que nunca fazia nada certo, mas ver o sangue vermelho-vivo escorrendo pelo meu ante-braço era a maior prova de coragem que eu já dera a mim mesma.

A prática continuou até a faculdade. Pensei que lá, por mudar de ares, as coisas seriam diferentes, Porém, o problema era interno. Eu continuava me cortando, chorando de repente, me trancando no quarto e meu histórico da internet já possuía páginas demais sobre suicídio. Até que eu decidi que precisava ver um médico.

Em 2013, eu pisei no consultório da minha psicóloga. Depois de um ano de tratamento, houve algumas melhoras, mas nada significativo. Ela resolveu, então, me encaminhar para uma psiquiatra, uma senhorinha muito agradável.
O paralelo entre a minha infância e início da minha vida adulta através das duas senhorinhas, me fez rir por dentro. Mas só por dentro.

“Você tem depressão e precisa tomar remédios”.

Chorei, esperneei, disse que não iria colocar nada na minha boca, que era frescura minha (pasmem, eu me culpando pela situação)

A psiquiatra disse: “Como você trataria uma ferida no joelho, por exemplo? Deixaria ela aberta e esperaria por um milagre que a fizesse sarar?”.

Eu parei de chorar, ela tinha razão.

Depressão não é frescura
A depressão é uma DOENÇA. Há uma série de evidências que mostram alterações químicas no cérebro do indivíduo deprimido, principalmente com relação aos neurotransmissores (serotonina, noradrenalina e, em menor proporção, dopamina), substâncias que transmitem impulsos nervosos entre as células.

A prevalência (número de casos numa população) da depressão é estimada em 19%, o que significa que aproximadamente uma em cada cinco pessoas no mundo apresenta o problema em algum momento da vida.

Eu fui uma delas. Por causa desse bug no cérebro, desde os meus 18 anos eu tomo remédios para uma doença que eu sei que nunca vai sarar, só permanecer controlada. Algumas vezes, um ano depois, ainda não consigo admitir para mim mesma que tenho depressão. Eu continuo achando que é frescura minha, vitimismo, necessidade de chamar a atenção. Mas não, não é.

Dedico este texto a todas as mulheres que já sofreram, sofrem e vão sofrer com essa doença. E eu prometo: tudo vai ficar bem. Tem vontade de ir a uma terapia? VÁ! Não se acanhe, não se envergonhe. Depressão é um mal que não escolhe ETNIA, RELIGIÃO, IDADE ou CLASSE SOCIAL.

O tratamento é feito com medicamentos via oral e as idas ao psiquiatra e psicólogo devem ser determinados pelos mesmos. Sim, você terá recaídas, mas, na maior parte, vai conseguir se lembrar do clichê mais real de todos: a vida vale, sim, a pena.

Para provar isso a vocês: faz duas semanas que minha psiquiatra diminuiu a dosagem do meu remédio. É um avanço, mesmo que pequeno, mas que dá um orgulho bem maior do que qualquer um que já senti, isso dá :3

(A autora pediu anonimato. A gente super entende!)

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4 comentários

  1. […] Depressão não é uma tristeza básica. Depressão é uma doença físico-emocional, causada por uma deficiência nos neurotransmissores e que pode ser desencadeada por vários motivos ou por motivo nenhum – vamos deixar isso bem claro.Existem várias formas de depressão, e os sintomas variam, mas geralmente a pessoa deprimida fica sem forças para viver, se isola e acaba deixando de cuidar de si mesma (física e emocionalmente). Quando entra em crise, meu namorado costuma me explicar que é como se ele não conseguisse sentir nada, nenhuma emoção, a não ser um tédio extremo e alguma ansiedade. Mas isso muda de pessoa para pessoa. […]

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  2. […] Depressão não é uma tristeza básica. Depressão é uma doença físico-emocional, causada por uma deficiência nos neurotransmissores e que pode ser desencadeada por vários motivos ou por motivo nenhum – vamos deixar isso bem claro.Existem várias formas de depressão, e os sintomas variam, mas geralmente a pessoa deprimida fica sem forças para viver, se isola e acaba deixando de cuidar de si mesma (física e emocionalmente). Quando entra em crise, meu namorado costuma me explicar que é como se ele não conseguisse sentir nada, nenhuma emoção, a não ser um tédio extremo e alguma ansiedade. Mas isso muda de pessoa para pessoa. […]

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