Seu prazer é o poder!

Uma noite, quando eu tinha uns 12 anos de idade, comecei a mexer na minha pepeca. Mexi, mexi, mexi e a coisa foi ficando cada vez melhor até que, opa, que é isso? Gozei! Foi a melhor sensação da minha vida. Fiquei viciada. Dos 12 aos 14, me masturbava quase que compulsivamente. Descobri posições, fantasias e até instrumentos cada vez melhores para me ajudar a chegar lá. Meu clítoris virou meu foco de atenção diário, e era só eu pensar em qualquer coisa mais ~excitante~ que já tinha que correr pro banheiro. Que fase. ❤

ilustra: Helô D'Angelo
ilustra: Helô D’Angelo

Um pouco mais velha, com uns 15 anos, decidi conversar com as minhas amigas sobre o assunto. Pra quê: algumas coraram, outras, irritadas, me disseram que isso era nojeira. Que tipo de menina fica fazendo ~essas coisas feias~? Na hora, me assustei, sem entender como algo tão gostoso podia ser errado. Mas, sob o olhar inquisidor das minhas amigas, resolvi desconversar e dizer que era brincadeira.

Comecei a pesquisar mais sobre o assunto e, aos poucos, vi que a masturbação e o prazer sexual eram considerados coisas “de menino”. Nos filmes pornô que eu assistia, escondida no meu quarto, a mulher não passava de um objeto, e seu prazer só não era ignorado enquanto fizesse aumentar o do homem. O tempo que uma mulher passa chupando o pau do cara, por exemplo, é pelo menos duas vezes maior do que o tempo que o cara passa fazendo um oral na mina, em geral. Então, fui procurar filmes lésbicos, achando que, lá, encontraria mais verdade, mas a coisa toda continuou hiper falsa e esquisita: as atrizes ainda eram objetos para os homens, mesmo que eles não estivessem em cena.

Cresci mais um pouco e tive minha tão esperada (e temida) primeira vez. Foi uma decepção enorme. Eu não estava com vontade, mas meu namorado da época, que também era virgem, veio com um papo de “já estamos juntos há meses”. Doeu, sangrou, fiquei em posição fetal no banheiro por alguns minutos e não cheguei nem perto de gozar. Ele, por mais assustado que estivesse, gozou rapidinho. Demorei uns seis meses para me acostumar com um pau entrando na minha buceta, e pelo menos mais um ano inteiro para começar a gostar daquilo, sempre com esse mesmo namorado. O cara até tentava, mas era um horror no sexo oral e na masturbação, e muitas vezes me machucava. Orgulhoso, ele não me deixava tocar no clítoris enquanto a gente transava, porque se sentia insuficiente. Aí, gozava, perguntava se eu tinha gostado e pronto, dormia.

Eu não me conformava. Como podia? Nos filmes, o casal sempre gozava junto e tudo parecia cem vezes melhor que se masturbar, mas eu continuava achando trepar um negócio meio chato. Mas, nessa época, aquelas minhas mesmas amigas já tinham começado a transar, e eu não podia ser diferente, então me vangloriava, contando o quanto meu namorado me satisfazia. No fundo, eu me sentia mal e vivia me perguntando se elas também não estariam mentindo.

Com esse namorado, foram três anos de depilação obrigada, coerção para que eu mantivesse um corpo magro, boquetes intermináveis, trepadas a seco e algumas tentativas bem bizarras de sexo anal. Quando terminamos, eu pude ter novas aventuras, todas meia-boca. Como eu estava acostumada àquela merreca de sexo, eu achava que era aquilo mesmo. Mas eu nunca estava satisfeita.

Finalmente, tomei coragem para falar com as minhas amigas sobre a falta de prazer que eu sentia. Pela primeira vez, elas se abriram comigo. “Às vezes dói”, “não tenho muita lubrificação, mas dou assim mesmo”, “nunca gozei”, não sei qual é o buraco da vagina”, “tento transar mesmo quando não estou com vontade para segurar o boy”, “odeio fazer sexo oral, mas faço mesmo assim, ainda que meu namorado não faça” foram algumas das frases que ouvi, chocada.

Foi aí que retomei o pensamento dos meus15 anos: por que o prazer da mulher é sempre menos importante que o do homem? Os meninos são quase sempre incentivados a bater punheta, mas por que as meninas não podem nem por a mão na pepeca? Por que as mulheres têm que trepar mesmo quando não estão com vontade? Por que falar disso é feio? Pesquisando, descobri também que cerca de 30% das mulheres jamais chegam a ter um orgasmo na vida. Trinta porcento, imagine só!

Mesmo hoje, o prazer feminino ainda está muito ligado à culpa. Como o orgasmo depende de estar à vontade, é compreensível que a mulher tenha mais dificuldade que o homem para alcançá-lo: para ela, gozar é sempre feio, errado, sujo, vergonhoso, enquanto que, para ele, é natural, viril, louvável, desejado. Afinal, foi Eva quem cometeu o Pecado Original, não é mesmo? Eu mesma tive que me colocar como autora anônima para evitar que me encham o saco, veja só.

Se eu fosse você, largava esse computador, deitava na cama e me masturbava agora mesmo. Faça isso como um ato político, como uma libertação: seu prazer é o poder, e ele é importante SIM. Exija seu gozo!

(A autora pediu anonimato, e é claro que a gente deu!)

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