Sobre ser mulher e ter uma deficiência

por Viviane Alvarez

Lidar com uma deficiência nunca foi fácil. Não é fácil para quem a carrega, não é fácil para quem a vê. Existem diversas deficiências: físicas, mentais, auditivas, visuais; e não é preciso estar na nossa pele para perceber que a sociedade ainda não está preparada para nos receber. A questão da acessibilidade não se resume apenas em rampas ou elevadores; ela envolve todo tipo de mecanismo que promova a inclusão de todo e qualquer deficiente no meio social.

Tenho a doença de Charcot-Marie-Tooth, que mostrou seus sinais quando eu tinha 3 anos. É uma doença neuromuscular que atinge as extremidades do corpo (braços e pernas), fazendo com que os músculos desses membros percam força. Minha doença se estabilizou e faço fisioterapia para evitar a perda de mais algum movimento. Há 17 anos tenho convivido com dificuldades, limitações e perdas. O processo de aceitação foi bem turbulento, digamos assim. Foi frustrante perder movimentos, ser impedida de fazer certas atividades, ser classificada como “a menina mais estranha da face da terra” aos 8 anos de idade e ouvir mais um monte de coisas lamentáveis ao longo da infância. Estou consciente de que minha situação não é tão simples de ser mudada e a melhor coisa que fiz nos meus quase 20 anos foi aceitar minha condição e seguir em frente. E seguir em frente não quer dizer ignorar todos os obstáculos, abafar acontecimentos ou fingir que nada disso aconteceu; quer dizer entender, aceitar e enfrentar a situação na qual estou.

Como deficiente, conheço as limitações que me cercam nas minhas atividades diárias. Como mulher deficiente, percebo que essas dificuldades se agravam. Sei que a noção que as pessoas normalmente têm sobre qualquer deficiente é que somos incapazes, dependentes, “coitados”, inúteis. Percebo que quando se trata de uma mulher deficiente, as pessoas afirmam com veemência que “essa daí não vai conseguir fazer nada, mesmo”. Somos subestimadas o tempo inteiro pelo fato de sermos mulheres, somos consideradas fracas, incapazes e frágeis. Pegue o caso de uma mulher numa cadeira de rodas ou uma mulher deficiente visual e as pessoas normalmente vão falar “ah, coitada”, “que pena”, “que dó”. O paradigma machista de que mulheres são incapazes cai em dobro sobre nossas costas quando desejamos fazer o que quer que seja.

Como existem incontáveis tipos de deficiência, não se deve impor um padrão de compreensão sobre o assunto; cada caso é único e cada um lida com isso de um jeito. Eu sempre identifiquei, na maioria das pessoas que não estavam familiarizadas com diferenças, um sentimento de pena, e muitas vezes, de aversão. Senti que me subestimavam em relação a muitas coisas. A partir de comentários aparentemente inocentes das pessoas, se percebe o que realmente tem na mente delas, essa noção de que “não posso” porque sou mulher e deficiente, de que deficiente não pode ser bonita, não pode ser talentosa, inteligente, não pode ter uma carreira, não pode ter vida social nem sexual.

Está na hora de desmistificar as coisas. Algumas deficiências podem impedir que haja desenvolvimento intelectual; outras não. Algumas podem impedir que haja sensibilidade em certas partes do corpo; outras não. Existe um leque enorme de sintomas e características de deficiências, portanto antes de qualquer coisa, deve-se ter noção de que: ninguém além da pessoa que carrega essa patologia sabe como é; não se deve ir supondo coisas; NUNCA se deve falar “coitada”. Ninguém é digno de pena.

Sobre aparência. As pessoas normalmente pensam que deficiente é feio, não tem estilo, não escolhe roupa, não escolhe nada. Acho cabível citar algo que ouvi uma vez de um funcionário do metrô: “você é tão bonita que nem parece deficiente”. Detecta-se aí essa noção de que “deficientes são feios”. Pensamento este que prova sua idade na famosa frase “É bonita, mas é coxa” (Memórias Póstumas de Brás Cubas). E o que falar nessas horas? Nada. Eu sei que a pessoa não teve a intenção de me ofender, simplesmente é mais uma vítima dos arquétipos superficiais construídos e enraizados no imaginário social sobre o desconhecido, o alheio, o diferente. Gosto de mim mesma, gosto do meu corpo; visto e maquio-me como quero e faço isso para mim. Garotas, independente de terem uma deficiência ou não, não devem dar satisfação a ninguém, além delas mesmas. E digo ainda: existem diversas formas de beleza e toda mulher é linda, ponto.

Em relação a talentos, carreira, inteligência: acredito que nessa parte a ignorância das pessoas as leva a pensar que não somos capazes. Nós temos capacidade; o que muitas vezes não temos é visibilidade e oportunidade. Vejo poucas deficientes em universidades, em escolas, no mercado de trabalho. Nos meus 18 anos de escola eu só conheci uma garota deficiente física e via de longe uma garota deficiente visual, que se não me engano, era dois anos mais velha que eu. Sei de casos de crianças e adolescentes que passaram por todo tipo de tratamento, e infelizmente, por todo tipo de preconceito e barreiras também. Quantos casos existem de uma escola rejeitar uma aluna por ela ter alguma deficiência? Quantos casos existem de uma deficiente estar procurando emprego e não consegue porque ninguém acha que ela “é capaz”?

Vida social e sexual são também fatores que as pessoas pensam que somos privados de. Uma deficiência não pode ser tida como barreira para interação com outras pessoas. Para falar a verdade, muita gente se interessa pelo assunto e vem conversar, tentar tirar dúvidas, e isso é saudável. É importante discutir o assunto, desmistificar coisas relacionadas a isso, compartilhar experiências. É sabido que muitos não se aproximam por “medo de se contaminar” (oi, deficiência não pega) ou por aversão, e isso acontece por causa da ignorância acerca do assunto. Ignorância gera medo e insegurança.

Em relação à vida sexual, bom, toda mulher sabe como é essa pressão e esse controle que a sociedade impõe aos nossos corpos quando o assunto é sexo. Não querem que tenhamos liberdade sexual, mas querem nos ver peladas em capas de revista. Quando se tem uma deficiência, o que pensam é “ninguém vai querer transar com você”, “seu corpo é estranho, você não se mexe, não sente, etc.”. Primeiro de tudo: deficiência não te impede de ter uma vida sexual ativa. Nós sentimos, temos libido, temos desejo, temos fantasias, assim como qualquer outra pessoa. Não enxergar não te impede de gozar; não ouvir não te impede de gemer; não andar não te impede de sentir tesão; não falar não te impede de sentir atração. E sobre o corpo: nenhuma deformidade é nojenta. Nenhum corpo é nojento.

Crescer numa sociedade que trata com asco as diferenças não é fácil pra ninguém que destoa do “normal”. Sendo minoria, isso se agrava e é preocupante como o assunto “deficiência” não é explorado. Quase não se vê deficientes em produtos culturais; quando se vê, o que percebo é que, na maioria das vezes, são homens. Quando criança, eu teria tido uma relação muito menos estressante com minha condição se eu tivesse visto garotas deficientes nos desenhos, nas revistas, nos quadrinhos; se tivesse lido algo sobre elas num livro, se tivesse tido uma boneca com alguma deficiência. Se eu tivesse me sentido representada, aquela fase teria sido menos cruel. Não digo que todos devem saber sobre todas as deficiências existentes – é impossível falar com propriedade sobre todas delas –, mas é necessário que as pessoas saibam que existimos, que temos os mesmos direitos que elas e que uma deficiência não é um fator que te diminui, mas que te fortalece.

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Viviane Alvarez, 19 anos. Estudante de Rádio e TV. Respiro música, amo escrever e fazer maquiagens.

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6 comentários

  1. Vivi, estudei com você no colegial por 2 anos e eu sei o quanto é esforçada, dedicada, inteligente, madura e linda. É um exemplo de mulher. A vida não é fácil, mas não é por causa disso que vamos desistir, e você é o maior exemplo disso.
    Viva e vida do jeito que ela precisa ser: feliz! E você já encontrou seu caminho! Tenha muito orgulho de você, e tenho certeza que todos aos seu redor pensam da mesma maneira. Parabéns pela mulher que você é.

    Giovana

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  2. Ótimo texto! 🙂
    Ao longo de todos esse anos de amizade, presenciei de perto o quanto você teve que batalhar com a indiferença, a hostilidade ou mesmo a ignorância de inúmeras pessoas…Ainda assim, fico muito feliz por dizer que você superou todos esses obstáculos! Tenho muito orgulho de ser sua melhor amiga, e acho que você sempre foi e será uma grande inspiração pra mim 😀
    Foi uma ótima iniciativa essa conscientização de uma questão que, infelizmente, a sociedade prefere fingir que não existe… Espero que um dia haja uma maior representação na mídia, isso certamente ajudaria a quebrar alguns preconceitos sobre a deficiência (ainda que seja bem absurdo ter que passar na novela pra ser “””aceitável”””, mas bem….esse também já é outro problema….) Quem sabe assim certos pais iriam melhor orientar seus filhos, e assim evitar que a escola seja um ambiente tão complicado para uma criança deficiente, que não só ainda está no processo de se aceitar, como também é constantemente julgada pelas outras crianças.
    Aliás, depois de ver esse texto tão bem escrito, fico até com vergonha desse meu comentário tão mal redigido ;-; Espero que não tenha ficado muito confuso 😛

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  3. Olá Viviane, o meu caso é um pouquinho diferente. Eu namoro há 2 anos e o meu namorado tem uma deficiência, mas o corpo dele é normal, exceto pelo probleminha dele que o aflige muito: ele nasceu com uma deformação no órgão genital,não permitindo q ele tenha ereção, e o escroto está em fase de atrofiamento.
    Ele ultimamente está muito triste, e diz que quando nos casarmos como ele poderia me satisfazer sexualmente? Mas eu disse para ele que o amo muito e iremos nos casar e ser felizes juntos. E acredito que o amor suporta todas as barreiras, e amei a sua publicação Viviane. Você teria em mente o que podemos fazer no nosso caso (ter relação sexual de alguma outra maneira) ?

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