Tive anorexia

Mulheres altas, corpos esguios, colos esquálidos, braços finos, rostos pontudos e magros – essas eram características da elegância, feminilidade, beleza, perfeição, que admirei durante toda a infância e grande parte da adolescência. Aos 16 anos, quando vi que a minha mãe se ajoelhando, chorando com os olhos arregalados e veias saltadas, dizendo “Filha, vou te internar! Você está doente!” é que percebi que estava prestes a entrar em um estágio mais preocupante de anorexia. E foi assim que minha visão distorcida de beleza fez minha mente ser tornar esquálida, caquética por alguns anos.

Ilustração: Helô D'Angelo
Ilustração: Helô D’Angelo

Desde os 5 anos de idade era a típica “fofinha”, “fortinha”, “gordinha”, “balofa”, “gordófila” e até mesmo “leitoa”. Não que isso incomodasse uma criança extrovertida, espontânea, apaixonada por dança, pega-pega e chocolate. Filha única de pais corujas e saudáveis (com quem sempre me dei bem, por sinal), aprendi cedo o que era equilíbrio alimentar, pois a tendência para engordar é de família. “Filha, você não precisa comer uma barra de chocolate para matar a vontade. Pegue esse tanto e já está bom, tudo bem?” – repetiam quando a gula aparecia.

Em agosto de 2009, com 14 anos e 1,50m de altura, eu pesava 68 kg – de acordo com o IMC, eu estava “acima do peso ideal”. Ideal, que palavra contestável. Além disso, era época das paixonites e primeiros beijos, mas eu não era o que os caras definiam como “atraente”. Depois de muito exercício físico (de domingo a domingo), fechando a boca para todo tipo de doce (inclusive meu vício na época, o chocolate) e mantendo bons hábitos alimentares, cheguei aos sonhados 55 kg em janeiro de 2010.

Minha luta contra o peso estava dando resultados e me deixando confiante. Entretanto, a ambição e insistência tomaram conta de mim. Por que não perder mais alguns quilinhos além da meta? Será que consigo?

E consegui. Um ano depois, o cenário era outro: 1,57m de altura e 42kg. O segredo para perder 13 kg em um ano?

1 – faça duas refeições ao dia e 4 horas diárias intensas de exercício físico (doente ou não, faça chuva faça sol).

2- Separe alimentos no prato (deixe sobrar a metade deles).

3 – Pese-se TODOS OS DIAS, SEM EXCEÇÃO, para garantir que perdeu pelo menos 200 gramas. Se não perdeu, reduza a comida.

5 – Não coma besteirinhas que gosta nem sequer uma vez por semana. Não saia de casa para não surgir tentações.

6 – Sempre conte calorias. Chore aos prantos se passar 10 calorias da cota diária, puna-se dobrando a quantidade de exercícios.

7 – E por último e mais importante, chore e se descabele diante do espelho por estar tão gorda.

Não preciso dizer o quanto isso me fez mal.

Perdi todas as minhas roupas, além dos seios e do quadril. O ciclo menstrual havia parado há quase um ano. Eu era, finalmente, a beleza das costelas salientes e bochechas afundadas. Mas eu ainda não me sentia bem, era uma luta interna constante porque precisava emagrecer mais e isso ficava cada vez mais difícil.

Tão difícil como reconhecer e se prevenir de uma doença mental. A anorexia não possui causas ou curas exatas, ela é resultado de vários fatores: os genes, os hormônios, as atitudes sociais que promovem tipos de corpos muito magros (ênfase nesta parte), o transtorno de ansiedade quando criança, pressão do grupo social, alterações neuroquímicas cerebrais, a busca pela perfeição ou foco exagerado em regras, a autoimagem negativa, isso só para citar alguns.

Ou seja, um pensamento anoréxico não brota em dois segundos, ele se desenvolve ao longo de um determinado tempo sob influência de alguns agravantes. É como se um desejo inocente de perder “quilinhos” fugisse do controle e se transformasse numa ilusão de ter “o corpo impecável”, que jamais será alcançado, porque ele não existe no mundo humano e naturalmente imperfeito.

Os programas de televisão, as revistas femininas, a baixa autoestima (presente durante a adolescência), a vida social e até mesmo as bonecas Barbie me influenciaram a criar as imagens retorcidas de estética e beleza. Aliás, quase todos meus amigos eram magros e comiam de acordo com suas vontades, enquanto eu supria as minhas comendo escondido.

E quer saber? Irrita muito ouvir todo dia que você é “isso” ou “aquilo” porque não segue padrões de beleza, que você não pode comer o quanto quer, e mesmo se você “se controla”, vem gente com porrada e bomba invariavelmente te julgando, te xingando. A minha motivação para emagrecer foi a princípio a saúde, e deu certo. No entanto, eu lidava com tantas inseguranças, traumas, pressões sociais internamente que acabei me afogando na própria conquista.

A anorexia tende a atingir principalmente mulheres jovens, entre 13 e 30 anos, embora sua incidência esteja aumentando também em homens. E 2010, para mim, foi um ano de constante inquietação, perseguição por uma nova meta, sem refletir sobre as consequências para a saúde caso alcançasse o novo ideal. Ou seja, eu desenvolvi o estado mental anoréxico. Eu emagreci neurônios. No fim daquele ano, o único sintoma que não se manifestava era o vômito pós-refeição, já que eu tinha muito medo de vomitar. Aliás, esse é um dos motivos comuns de confusão entre a bulimia e anorexia: ambos são distúrbios psiquiátricos e resultam em emagrecimento, porém eles podem ou não se associar. A pessoa bulímica exagera na ingestão de alimentos ou tem episódios regulares em que come em excesso e sente perda de controle. Dessa forma, usa vários métodos, como vômitos ou abuso de laxantes, para impedir o ganho de peso. Bulimia pode conduzir à anorexia em muitos casos, o meu foi exceção.

Às vezes, os portadores do transtorno chegam rapidamente à caquexia, o grau extremo da desnutrição – em outras palavras, o grau pele e osso que pode conduzir à morte. Não necessariamente o anoréxico é caquético, existe uma extensa fase de emagrecimento antes de se chegar ao ápice. Isso é importante ressaltar porque não cheguei à caquexia. Mas estava à beira do penhasco.

A questão é, na verdade, se deixar levar ou não, pois um simples descuido, uma influência errada em um período tão crítico e psicologicamente vulnerável, como foi minha adolescência, pode resultar em problemas como a anorexia. E sim, eu estava vulnerável. Sim, eu perdi peso por vontade própria e me senti bem com isso no começo. Sim, infelizmente perdi o controle no meio da “luta”. Sim, eu emagreci neurônios. Sim, eu devia ter ignorado todas as pressões sociais e ter feito o que bem queria, que era perder peso sem exageros. Mas eu tive a sorte de ter uma família para me resgatar do abismo.

Diante de uma mãe desesperada e pai furioso, finalmente pude ver o estrago mental que estava estimulando. “Você não percebe que não é a menina gulosa de dois anos atrás?” A magreza que admirava, o bullying durante a infância, os cochichos de adolescência, as horas de suor na academia, tudo em um flash. É fácil ser afetado por detalhes sem fundamento. A partir daquele dia, fui supervisionada em todas as refeições e tinha meus pratos montados por meus pais. No segundo semestre de 2011, já estava com meus atuais 53 kg.

Os padrões atuais de beleza somados à gente chata (chatissima) que reproduz o discurso dessa ditatura, somados à insegurança, tudo pode incomodar e cutucar por dentro. O que fazer? Ignore. Seja quem quiser. Não se deixe levar. Não perca sua essência. Gordo ou magro, o importante é se sentir bem na sua pele. A anorexia só é mais um resultado das pressões sociais, e pode atingir qualquer um e a qualquer hora, cair no conto do vigário é algo mais provável do que você imagina. Superei dois extremos estéticos – um do qual me orgulho e o outro com o qual aprendi o significado e importância de viver. E quer saber? Fuck the system. Hoje eu sei que sou bonita, na minha forma e tamanho. ❤

(A autora preferiu o anonimato. Claro que a gente respeitou, né?)

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