Metal é coisa de menina (e mosh pits também!)

por Bárbara Gomes Cossé

Acho que a primeira música de rock paulera – como meus pais costumavam falar – que ouvi foi Killing In The Name, do Rage Against The Machine. A música tem a minha idade, e eu tinha metade das nossas primaveras quando aquele baixo (me) tocou pela primeira vez. Eu entendo nada de música, tecnicamente falando, e hoje em dia mal ouço RATM, mas foi Killing In The Name que me fez perceber que, por mais que eu tentasse, eu não seria uma menina que curte música pop.

Cresci com o que a MTV me proporcionava. Um pouco de Iron Maiden aqui, um muito de Linkin Park e System of a Down ali… Por um tempo, não fui muito além disso, até porque na escola, o legal era curtir música eletrônica e pagode. Fui para o lado eletrônico, era mais fácil. Eu traí o movimento para não ser mais julgada. Alguns anos depois, formei e me reaproximei muito de uma grande amiga, a Rosana.

Em janeiro, antes de irmos para a faculdade, fizemos uma viagem para Itanhaém (SP). Lá, conheci Manowar e Korpiklaani. Foi o primeiro dia do resto da minha vida. Não só pela música, mas também pelo que ela me trouxe: interessei-me muito pela mitologia nórdica (mas isso é uma outra história).

De volta a São Paulo, Rosana me levou ao Manifesto, um rock bar no Itaim. Fomos assistir a um cover de Manowar (Kings of Steel) e acho que a outra banda era um cover de Judas Priest. “Só tem homem aqui, maravilha”, pensei. [“Maravilha nada”, penso hoje.] Sei que achei ótimo porque queria dar uma paquerada, conhecer caras com gosto musical parecido e ainda poderia escolher. Depois de um tempo, fui perceber que sempre tinha bem mais homens que mulheres nos shows e nos bares, mas não conseguia entender o motivo.

“Nossa, você é mais macho que eu” é o que mais ouço nesse meio desde 2009. Com essa frase, eles esboçam um sorriso de quem elogia e, com esse mesmo sorriso maroto (hehe), eles questionam sutilmente a veracidade do que dizemos, montando um quiz, como se nenhuma garota percebesse que a cada ponto de interrogação eles buscam nos separar entre groupies/marias shampoo e true metalheads.

No começo, eu ficava super nervosa com isso, tentei baixar a discografia completa do Iron Maiden e Black Sabbath para ter o que falar sobre “aquele álbum de 87… qual era mesmo?” – pegadinha, o Iron Maiden nem lançou álbum em 1987. Pois é. Hoje, eu sei que gosto de, sei lá, três ou quatro músicas do Iron Maiden e tudo bem.

Com o pessoal do folk e viking metal eu tenho bem menos essa sensação de estar sendo testada. As mulheres vikings também eram guerreiras e acho que essa noção inibe um pouco o machismo. Um pouco.

Esses dias, li uma matéria da VICE sobre porque as meninas ainda têm medo de entrar nos mosh pits de show de metal. Eu tenho medo porque das duas uma: ou vai ter um cara pra passar a mão ou vai ter um cara pra pesar a mão, afinal ali não é lugar pra mulher.

“Nossa, Bárbara, mas você está exagerando”. Não estou, não. Quer ver? O show de 2013 do Eluveitie atrasou algumas horas e, como eu estava sozinha e não tinha o que fazer, resolvi beber algumas cervejas. Aí o show começou, todo mundo feliz, empolgado, cantando, até que Chrigel, o vocalista, incitou um bate cabeça. Fui logo mais pra trás porque, né, estava meio bêbada e gosto de viver. Não adiantou muito. Fui puxada para dentro e de cara levei uma cotovelada na boca. No fundo, tenho certeza que ouvi um “vaza, vadia”. No mesmo segundo, um cara enorme me carregou como um porquinho e me tirou de lá. Eu estava sangrando, ele me avisou e depois de certificar-se de que eu estava bem, tentou me fazer compreender que eu não devia estar ali tão perto porque bate cabeça não é lugar de menina. E esse é só um exemplo meu. Imagine quantos outros não existem.

Por um tempo, deixei de ir a alguns shows porque não queria mais ir sozinha. Tinha medo, faltava disposição para lidar com certos tipos de situações. É uma merda você ir a um show pra aproveitar, sair sem voz e com o pescoço dolorido, extravasar mesmo, e ter que ficar no canto pra não ser assediada de todas as formas possíveis. Hoje, o que me falta é dinheiro. Ainda tenho um pouco de medo, mas aprendi muito com minhas amigas e minha irmã; aprendi que não devo deixar de fazer algo porque não querem, mesmo que inconscientemente, que eu não faça.

Bárbara Gomes Cossé é estudante de Jornalismo. Escreve umas barbaridades por aí. Ama o bom jogo, a boa comida, a boa música e a boa internet.
Bárbara Gomes Cossé é estudante de Jornalismo. Escreve umas barbaridades por aí. Ama o bom jogo, a boa comida, a boa música e a boa internet.

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