Não manda nudes – fotos íntimas não-solicitadas também são uma forma de abuso sexual

por Manuela

Nessa segunda feira, dia 10 de agosto, recebi, pela terceira vez, a foto do pinto do cara com quem tive aulas de alemão no ano passado, dessa vez acompanhada de sua expressão pervertida. 

Ele começou com áudios de “declarações de amor” pelo Whatsapp. Eu não levava a sério; tinha consciência de que era um babaca e só falava besteira. Nos víamos nas aulas, onde ele não demonstrava nada. Só o que rolavam eram as gravações, que de vez em quando rendiam algumas risadas, minhas e das minhas amigas. Não deixei de falar com ele por isso.

O tempo passou, perdemos o contato e recebi então a primeira foto. Demonstrei completo nojo e incômodo e logo questionei: “que merda é essa?!”. A resposta foi um pedido de desculpa acompanhado de uma explicação: “foi o gringo que tava comigo”. Ok, passa.

Tempos depois, veio a segunda. Me irritei e mais uma vez demonstrei minha total repulsa e descontentamento pelo que ele me enviava. Ele deu um tempo, mas não desistiu e alguns meses depois veio falar comigo pela internet mais uma vez: “tesãoooo de mulher”. Achei inacreditável, tosco e patético. Mandei um print dessa mensagem para um grupo onde temos amigos em comum, que fizeram aula com a gente, e então um deles surgiu com a ideia:

– Divertido seria se entrassem no jogo dele e, depois, mandassem as prints aqui.

Com a raiva que senti, misturada a certa ingenuidade e falta de reflexão pelo calor do momento, topei. Não devia, mas também sei que não foi isso o que causou o envio da terceira foto. Conversamos por mensagem por mais ou menos 5 minutos, mas não aguentei e parei. Percebi que não tinha nada a ver eu ficar fazendo isso. Por fim, chegamos a esta segunda feira. Recebi a foto, às sete e vinte da manhã, pra me dar um “bom dia”: “lokoo manu??”

Ai já deu, né, cara?!

Não sabia exatamente o que fazer com isso, mas eu sabia que não queria nem devia deixar de lado, mais uma vez, o fato de ele não atender meus pedidos para que parasse. Deixar ele à vontade para fazer isso com qualquer outra menina que, como eu, não quisesse receber esse tipo de assédio e que por qualquer motivo que fosse poderia se calar não era mais uma opção.

Recorri a dois grupos feministas dos quais faço parte e contei minha situação e meu desejo: expor sua foto junto de um texto, revelando tudo isso.

Vieram diferentes comentários; muitos me apoiando, outros preocupados com minha segurança e integridade e um ou dois contra essa forma de exposição. Mas, posso dizer que salvo alguma(s) “X9” conhecida(s) do cara, que também participava(m) do grupo e acharam que seria bacana mandar print do que postei para ele, nenhuma deixou de me apoiar como mana.

O moço, então, depois de receber os prints, teve a cara de pau de me dizer que ia fazer um B.O imediatamente e que eu ia “eh passar uns aninhos no xilindró”, já que eu tinha exposto a história e sua foto no grupo. O coitado tava sofrendo “Cyberbullying”!!!

Entrei em contato com a Rosana Chiavassa, da ASAS (Associação das Advogadas, estagiarias e acadêmicas de direito do Estado de São Paulo), que me ajudou bastante e esclareceu algumas dúvidas minhas. Sei que, se eu quisesse, ele poderia ser demitido, exposto a toda família, amigos e muito mais e quem sabe seria ele que passaria “uns aninhos no xilindró”. Mas não é isso o que eu quero. Não quero acabar com a vida dele; não é na cadeia que eu acredito, principalmente num caso como esse, nem no B.O, para mudar essa estrutura machista que existe na nossa sociedade e dentro de todos os homens – uns mais, outros menos – que acho que é o ponto disso tudo.

Não é do Estado que eles devem ter medo, não é pelo Estado que eles devem mudar, e sim de nós e por nós, mulheres.

Mas a exposição da forma que eu a princípio queria, e acredito ser a mais certa, é a única coisa que não posso fazer.
O quão irônico e “impotencializador” é você se deparar com a situação de um homem que se sente livre e à vontade para te mandar imagens com esse tipo de conteúdo sem você ter solicitado e você ainda não poder expô-las publicamente, seja como procura de ajuda ou de denúncia? Ou seja, ele viola a minha privacidade e eu devo proteger a dele. “Lokoo”, né…??

Por fim, e por enquanto, foi por isso que optei por relatar em público o que me aconteceu. Tenho plena e triste consciência de que grande parte da segurança que eu tenho e sinto em relação a como estou lidando com isso só existe por conta da minha classe social. Sei que se eu quisesse ou precisasse, teria a justiça e uma boa advogada ao meu lado. Quem sabe até a polícia. Sei que muitas minas têm que se calar em situações muito piores, por correrem maiores riscos e julgamentos.

Escrevo e posto isso, então, não só pelo que me aconteceu, não só pelo “”“fofo””” com quem tive que, de forma até “tranquila”, lidar. Escrevo porque não dá mais pra deixar essas coisas passarem, por menores que elas possam parecer.
A gente se acostuma com essas “brincadeiras”, mesmo quando sabemos que não gostamos, e aprendemos a absorver e relevar.

E é isso que a gente não pode nem deve mais.

Foto não solicitada da genitália É assédio, coerção e intimidação sexual. E a única pessoa responsável por isso é quem mandou. Não quem recebeu, quem abriu ou quem não bloqueou. Essa, é a vítima. 

À(s) mina(s) que mandaram print do meu post pro cara: se algum dia vocês perceberem que também são vítimas disso e recorrerem às outras minas, acreditem, apoio e amor não faltarão.

Às super manas: pelas mensagens, pelo apoio e por tudo isso que só a gente sabe o que é, minha gratidão é imensurável. Sororidade é do caralho! Tamo juntas! ❤

E finalmente, aos machos: enquanto vocês tão brincando, a gente tá se empoderando. E acreditem ou não, aqui tem muita força, poder e apoio. E a coisa se espalha, que nem fogo na palha. Mexeu com uma, mexeu com todas.

Meu nome é Manuela, tenho 19 anos e nasci e vivo em São Paulo, mas to com planos cada vez mais concretos pra sair daqui. Meu contato com o feminismo é relativamente recente; comecei a me envolver com isso há uns três anos, mas as descobertas e descontruções (ou tentativas delas) já foram e continuam sendo grandiosas.
Manuela tem 19 anos. Nasceu e vive em São Paulo, mas tem planos cada vez mais concretos de sair daqui. Seu contato com o feminismo é relativamente recente; começou a se envolver com isso “há uns três anos”, mas as descobertas e desconstruções (ou tentativas delas) já foram e continuam sendo grandiosas.
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3 comentários

  1. Ah cala a boca. Se estava tao incomodada, por que nao bloqueou o cara? Voce so esta enganando a ssi msmo. Eu sou mulher e conheco muitas q gostam de sacanagem. Ou vc é assexuaada ou lesbica, filha. O q serve a ti nao serve a todas nós.

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    • Rayana, tudo bem? Nós não toleramos nenhum tipo de violência contra nossas autoras. Ela nunca disse que não gosta de “sacanagem”, só espera ser respeitada enquanto pessoa e não ter de fazer algo contra a vontade dela. Por favor, não volte a ser maldosa com nossas autoras, ou seremos obrigadas a bloquear você. Como você mesma disse, “o que serve a ti não serve a nós todas”. Obrigada pela leitura!

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