Frequentadora da Marcha das Vadias conta suas histórias

Camila na Marcha das Vadias de 2015.
Camila Motta de Alencar tem 19 anos e é carioca, mas mora em São Paulo desde 2009. É feminista, bissexual e estuda psicologia na PUC SP.

Eu, Tu, Elas: Com que frequência você costuma frequentar a Marcha?
Camila: Eu fui esse ano e há dois anos, ambas em São Paulo.

Você sentiu que houve alguma variação no número de participantes desde a sua primeira marcha?
Achei a última bem menor. Não sei se foi só impressão, mas eu senti ao mesmo tempo mais divulgação, com festa e arrecadação, e menos gente na rua. Mas talvez eu tenha só prestado mais atenção na divulgação por ansiedade, mesmo.

Conta pra gente o que te leva a ir à Marcha.
Eu conheci [a Marcha] através de uma amiga, que me contou a história de como começou e eu achei muito interessante, uma abordagem positiva de uma coisa que deveria ser problematizada, que é a culpabilização da vítima em casos de abuso, assédio e estupro. E isso leva a várias outras questões, como o aborto, a desigualdade de gênero, etc. Eu me sinto bem na marcha, eu me sinto forte, sabe? Como se as pessoas tivessem ouvindo o que eu tô ali gritando. É como se fosse um dever ir lá marchar

Algumas pessoas têm críticas à Marcha. O que você acha disso?
Eu percebi umas críticas também. De gente falando que a Marcha é elitista e branca.Então, realmente tem poucas minas negras na marcha, mas eu não entendo direito o porquê. Não sinto que tem um discurso opressor ou de ódio ao movimento feminista negro.

Em relação à organização do evento, você acha que é boa? Mudaria alguma coisa?
Não vi nenhum problema muito relevante. As minas costumam fazer uma festa de arrecadação, vendem camisetas, botons etc. Então, mais ou menos dois meses antes da marcha, as pessoas já tão sabendo da data certinha. E no dia tem oficina de bateria e de cartazes, o que é bem legal!
Eu acho que uma coisa que incomoda muito as pessoas é o termo “vadia”. Já me falaram que é bem estranho sair na rua e gritar “somos todas vadias”, então talvez soltar artigos, entrevistas, coletivas, não sei, dando enfoque ao que é a marcha e como ela surgiu, da amplitude que ela tem, ou pretende ter. Pras pessoas não acharem que é um bando de mina querendo tirar a roupa pra chamar atenção

Já presenciou algum tipo de violência contra as manifestantes?
Na primeira vez que eu fui, quando estava indo embora, ainda sem blusa e toda pintada, um motoqueiro passou por mim e falou “Hmmm delicia, adoro elas assim, irritadinhas”. Fora isso, não. A polícia foi bem de boa nas duas vezes em que eu fui, as pessoas na rua também, moradores dos prédios também.

E você tem alguma história bacana para contar?
Uma coisa que eu achei muito, muito legal foi um grupo de mulheres que têm filhos pequenos. Elas estavam com eles no colo com placas com coisas tipo “com mamãe feminista, ninguém cresce machista”. Uma amiga minha até fotografou uma das mães! Achei isso muito bonito.

Foto: Camila
Foto: Camila

Outra coisa também foi que eu fui sem sutiã e sem blusa na marcha desse ano, e muita gente se choca com isso. Em um determinado momento, eu percebi um senhor com uma câmera me olhando muito, e quando eu encarei de volta, ele disse: “oi, desculpa, eu sou fotografo (me entregou o cartão dele), e eu queria muito tirar uma foto sua!” Eu deixei. Ele: “eu achei muito legal que você seja feminista, ativista e fotógrafa (eu carregava uma câmera no pescoço)”. E foi embora. Depois, eu recuperei a foto no blog dele.

o que você diria para as pessoas que acham que feminismo não deve chocar?
Se o feminismo não fosse algo tão urgente, tão emergencial, ele não deveria mesmo chocar. Infelizmente a gente vive numa sociedade em que as questões de gênero precisam ser resolvidas pra ontem, então fazer isso de maneira sutil e suave não me parece suficiente.

O tema da marcha esse ano foi a descriminalização do aborto. O que você acha da escolha desse ponto o como centro da luta do ano?
Eu acho que a descriminalização do aborto é essencial. Não porque eu ache que devemos realizar abortos, mas porque é uma coisa que acontece e muito, e muitas mulheres morrem pelas condições precárias em que realizam esses abortos. Não vai parar de acontecer, então o que o estado pode fazer é ajudar essas pessoas que não querem e não vai ter um filho a previni-lo e, se isso não for possível, abortá-lo. É uma questão de saúde. Não dá pra prender alguém por não querer ter um filho, por ter engravidado sem planejamento, que não tem condições de assumir uma gravidez por inúmeros motivos.

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