Historiadora comenta a Marcha das Vadias

Dentro da reportagem Marcha das Vadias: um debate, entrevistamos a professora Ana Maria Colling, historiadora  especialista na história da mulher, professora da UFGD e autora do livro Tempos diferentes, discursos iguais — a construção histórica do corpo feminino. Confira:

A capa do livro da historiadora
A capa do livro da historiadora

Eu, Tu, Elas: Qual é sua opinião, como historiadora, sobre a Marcha das Vadias? Qual é a importância histórica desse movimento?
Ana Maria Coling: A Marcha das Vadias, em minha opinião, como historiadora e feminista, é um novo movimento feminista. Se nas décadas de 60 e 70 saíamos às ruas pedindo igualdade, dizendo que o privado era político e  “nosso corpo nos pertence”, após a invenção da pílula anticoncepcional, para poder fazer sexo sem o perigo da gravidez, o movimento hoje continua com o mesmo slogan: “meu corpo me pertence”. E apesar de  quase meio século após o  movimento que balançou o mundo, temos agora que reivindicar o fim da violência, o fim dos estupros. Críticas ao patriarcado e ao machismo continuam como palavras de ordem.

Sobre a utilização do termo “vadia”: querer ser chamada de vadia não pode significar “jogar o jogo” do patriarcado? 
Assim como o movimento feminista, este também acarreta protestos de homens e mulheres, especialmente pela linguagem. Sempre a força da linguagem, das palavras. Vadias, esta pequena palavra, faz com que esse movimento tente ser descaracterizado por muita gente. Como se todas que lá estão, estivessem oferecendo seu corpo aos homens. Jogar o jogo do patriarcado, da dominação masculina? Me parece completamente o contrário, é uma denúncia ao sistema patriarcal, que pesar das leis igualitárias, continua firme e forte  e o machismo continua matando.

Você aproximaria a Marcha de algum outro movimento de protesto feminista? 
Assim como movimento feminista da década de 70 começou na Europa e nos grandes centros irradiadores de manifestações, este da mesma maneira. Iniciou no Canadá em 2011 por um acontecimento específico que foi o abuso sexual na Universidade. Ao denunciarem a agressão,  o policial recomenda às alunas que para evitar abusos deveriam evitar de se vestir como vadias. O interessante é que de 2011 para cá diversos países realizam a marcha batizada em Toronto de Slut Walk. Acredito que os demais países  não são papagaios imitadores da primeira marcha canadense, mas sim, que  os problemas porque passam as mulheres é o mesmo. Veja o caso da violência contra as mulheres nas universidades brasileiras.O nome Marcha das Vadias dá unidade a este movimento agora internacional.

Algumas feministas discordam politicamente da Marcha, pautadas em críticas sobre o seu posicionamento liberal e pela falta do recorte de classe e de raça dentro do coletivo e na própria passeata, que é majoritariamente branca e de classe média. O que você pensa sobre tais críticas? 
As críticas são pertinentes, afinal este movimento tem um caráter de liberdade (as marchas são convocadas especialmente pelas redes sociais). Cada estado, ao realizar suas marchas, tem reivindicações especificas. Entendo que a questão da classe e da raça está sempre presente nos movimentos, pois sabemos que mulheres pobres e negras sofrem duplamente o preconceitos e as agressões. O passado escravista brasileiro, ainda muito presente em nossa história, onde o senhor levava as escravas para a cama, ainda autoriza estas mesmas atitudes. Empregadas domésticas são assediadas pelos patrões, funcionárias pelos chefes, etc.

Se concordo com algumas críticas à Marcha, também entendo que algo deve ser feito, que ações variadas  necessitam ser publicizadas, pois não é mais possível conviver com a violência contra as mulheres e homossexuais, os estupros sendo considerados como atitudes normais, de uns sobre outras. A questão da nudez, que provoca desconforto em muitas pessoas, tenta chamar a  atenção do mundo para ela mesma, demonstrando que a nudez não provoca violência, que o mundo público deve ser um espaço de liberdade para todos e todas. Temos que usar todas as formas para denunciar  violência e acabar com a culpabilização das mulheres pelos estupros cometidos. A Marcha das Vadias é uma destas formas.

Qual a sua opinião sobre a participação de homens na Marcha das Vadias? E no feminismo em geral?
Posso falar do caso de Porto Alegre, onde moro. Muitos jovens participam. Não tenho visto homens de mais idade na Marcha, mas muitos rapazes sim. Historicamente, e há uma explicação histórica para isso, muitas mulheres foram e são contra o movimento feminista e muitos homens defenderam a libertação feminina. Temos os casos paradigmáticos de Stuart Mill e Condorcet; este ao propor  a educação e a cidadania feminina na França do século XIX desabafou: “elas preferem ser a rainha do lar de Rousseau”.  Pierre Bourdieu tem um pequeno texto no livro “Mulheres e História” onde ele diz que é impossível uma história das mulheres porque elas se pensam como outros a pensaram. É preciso descolonizar o feminino, diz ele. E este pensamento de Bourdieu é mais atual do que nunca. Não podemos ser contra esta Marcha e nenhum outro movimento que denuncie a situação das mulheres e dos homossexuais e nem reivindicar exclusividade feminina ao movimento.

Algumas pessoas também se preocupam com o fato de muitas meninas menores de idade participarem da Marcha, sem que haja algum tipo de “proteção” a elas. O que você acha disso?
A rua deveria ser um espaço de liberdade. Tu perguntas, proteção na marcha? Ou proteção na vida? Na escola, no trabalho, no shopping, na rua, no ônibus, etc? Talvez como consequência da Marcha – “juntas a gente pode” iniciou um movimento aqui em Porto Alegre, imagino que em outros lugares também, de as mulheres  se organizarem para saírem juntas do trabalho, das universidades, pois sozinhas são alvos de violência.

Historicamente, a mídia sempre explorou o corpo da mulher, inclusive ao noticiar protestos. Sabemos que, na Marcha das Vadias, o uso da nudez é a forma como a maioria das mulheres que participam da Marcha, entendem que é o melhor jeito de reivindicar o “direito de ser vadia”. Como você vê essa contradição entre reclamar do foco que a mídia dá para esse tipo de pauta e, justamente, ficar nua/semi-nua no espaço de rua?
Em minha opinião,  ficar nua ou semi-nua faz parte da característica deste movimento: “O corpo é meu, a cidade é nossa”. Mas cada estado, pelo que tenho visto, utiliza  a marcha à sua maneira. Em Curitiba, por exemplo, a Marcha das Vadias, segundo as participantes, é um espaço de luta, de arte, música e poesia. Em outros a legalização do aborto é a grande reivindicação, com críticas ao conservadorismo do Congresso Nacional. Vi um cartaz ótimo aqui em Porto Alegre “Aborto é crime, homofobia não”. Mas em todos, o fim da violência, do estupro e a crítica ao machismo e ao patriarcado são a tônica principal. A liberdade é o grande mote das Marchas. Em todos os países lemos “Se ser vadia é ser livre, somos todas vadias”.

Quero encerrar dizendo que o corpo continua sendo a grande questão. Corpo usado, torturado, violentado e agora,  corpo sendo usado como forma de protesto a estas agressões. Mas é sempre o corpo como alvo do poder. As  Marias e as Evas continuam a fazer parte do imaginário de todos e todas – as santas e as pecadoras. E Vadias (palavra maldita) coloca todas no campo das pecadoras, infelizmente!

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