Memórias de um ensino médio técnico e machista: “voltem pra cozinha, vão lavar roupa!”

por Fernanda Campagnucci


O machismo me expulsou do mundo da tecnologia.

A frase é simples, tem sujeito, predicado e objeto bem definidos. Mas demorei 15 anos para processar, articular e, finalmente, decidir escrever o que está por trás dela.

Tinha 14 anos quando entrei no curso técnico em Eletrônica no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. O ingresso se dava por um “vestibulinho” bastante concorrido, mas, debates sobre os males da meritocracia à parte, formavam-se turmas relativamente heterogêneas, do ponto de vista socioeconômico e geográfico da cidade.

Mas não do ponto de vista de gênero. Naquele ano, último do século XX, havia sido o “boom” de mulheres no curso: éramos 7, em uma sala de 40. Até então, era normal que houvesse uma ou duas nas turmas. O curso de Mecânica continuava com essa média, ou menos (às vezes, não havia nenhuma garota inscrita).

Desde criança, sempre fui curiosa com esse universo. O fato de ter um pai e uma mãe não-machistas certamente abriu meus horizontes. Gostava de ajudar meu pai com os consertos mecânicos ou de ver meu irmão, que havia estudado Eletrônica também, fazer seus trabalhos. Jogava futebol e gostava de rock, mas também (faz parte!) de Spice Girls.

A mim e à minha irmã, meus pais sempre ensinaram que a melhor coisa que poderia acontecer a uma mulher é… a mesma que a um homem: buscar conhecimento e ser autônoma, financeira e emocionalmente.

Aos 14 anos e autodidata, então, eu já fazia sites em HTML, consertava e montava computadores. Já ia pela vizinhança do Jaçanã trocando serviços eletrônicos por uns trocados, ou por coisas como um violão. Já tinha até ido parar em outra ponta da cidade, na zona leste, para instalar um modem ou expandir a memória do PC de alguém que alguém indicou… eu me divertia assim.

Não que eu já sonhasse ser uma engenheira. Na verdade, já havia, àquele ponto, uma queda pelo Jornalismo. A opção pelo curso médio técnico era por poder fazer algo de que gosto na escola e ter uma profissão para, eventualmente, conseguir pagar a faculdade, qualquer que fosse.

Vamos, então, aos episódios que marcaram minhas memórias naqueles três anos, de 2000 a 2002. É preciso dizer que foram diluídos em muitos outros momentos de companheirismo, risadas, descobertas. Eu gostava de meus colegas – alguns foram namorados, outros bons amigos.

Mas aí é que entra um ensinamento do feminismo: o pessoal é político. Reconhecer a discriminação de gênero que cada uma de nós passa é um processo de tomada de consciência individual, mas também coletivo. Com os óculos do feminismo, podemos identificar essas situações particulares que passamos e podemos, então, nos ver como parte de um coletivo historicamente discriminado e lutar por mudanças. E espero que meus colegas, ao longo dos últimos 15 anos, tenham tido a oportunidade de enxergar as coisas com novas lentes, também¹.

  • Uma garota levanta a mão para fazer uma pergunta durante uma aula qualquer. Imediatamente após a pergunta, qualquer que fosse, um coro de garotos começa: “vai pro tanque! Vai lavar roupa! Volta pra cozinha!”. Diante da turma agitada, o sorriso complacente do professor. Nenhum comentário repreendendo os garotos. Efeito de curto prazo: garotas nervosas ou constrangidas, achando que falaram alguma bobagem. Médio e longo prazo: garotas (ou garotos mais tímidos, ou garotos homossexuais) pensando muito antes de fazer qualquer pergunta, ou mesmo deixando de fazê-las em público.
  • Aula de laboratório de eletrônica. Exercícios práticos, com relatório para entregar no final. Às vezes fazíamos trios de mulheres, íamos muito bem. Alguns amigos, menos aplicados, copiavam as medições em suas folhas. Resultado: tiravam notas maiores.Ou éramos acusadas de copiá-los.
  • Oficina mecânica sem banheiro para mulheres (improvisa-se um).
  • Professor bonachão. Gosta de falar de mulheres. Ao ler em voz alta as notas finais ou entregar as provas, dizia que a prova das mulheres nem tinha lido: dava sempre 10, eram todas maravilhosas (curiosamente, o coro dos meninos nos mandando voltar ao tanque era sempre mais alto na aula desse sujeito).
  • Professor: “vocês estão tirando notas boas, para mulheres”. Algumas de nós tinham as melhores notas da sala.
  • Professor valentão gosta de contar vantagem na sala. Conta como sua mulher e filha têm que se trancar no quarto durante jogos do Corinthians, de tão agressivo que ele fica. Conta da vez que colocou eletrodos em uma mulher para medir seu orgasmo (curiosamente, era o mesmo professor que dava nota mais alta para os meninos que copiavam nossos exercícios de laboratório).
  • Três anos sem aulas de educação física. A professora era mulher, mas a quadra era dos homens.
  • Vendedores de componentes da Santa Ifigênia queriam cobrar mais caro pelas peças. Ou achavam que queríamos fazer bijouterias com elas.

Já ouço alguns comentários de colegas da época: “aaah, mas também fazíamos piada com outros garotos”. Ou então: “É bullying, sempre houve na escola”… Sim, com outros garotos, também havia piadas classistas ou homofóbicas. A palavra bullying é um conceito de moda que esconde o nome das coisas como deveriam ser chamadas: violência e discriminações.

Mas, dizia Michel Foucault, onde há poder, há resistência. Eu ainda não tinha as ferramentas do feminismo para ler o mundo, mas já sabia estar diante de grande injustiça. Acho que minhas colegas também.

Durante o terceiro ano, deveríamos desenvolver o projeto de final de curso. Outros grupos fizeram alarmes, sensores, projetos de sistemas de som… não me lembro bem. Nosso grupo era composto por quatro mulheres e dois homens. Objetivo: fazer uma máquina automática de bolos, que apelidamos de VOVÓMATIC. Afinal, mulher não tinha que ir para cozinha, se não quisesse: ela poderia construir a máquina que vai fazer isso por ela.

Projetamos e construímos a máquina. As piadas (do professor e dos alunos) iam diminuindo è medida que a coisa ia se tornando real. Programamos o microcontrolador com as receitas e o software que o comandava, conseguimos um trenzinho que ia abrindo os compartimentos dos ingredientes – que contavam, aliás, com ovo em pó –, cortamos os canos, adaptamos uma batedeira, calculamos as dimensões e perda de calor de um forno e, voilà, fomos à oficina mecânica para montar o forno. Uma estante velha fez as vezes de estrutura.

Era, sem falsa modéstia, o projeto mais ambicioso que havia passado por ali. Uma loucura deliciosa, uma resposta catártica para três anos de encheção de saco dos colegas.

A lendária VovóMatic, com minha querida amiga Milena (à dir.).

O vestibular chegou e, com ele, a escolha pelo Jornalismo. Não me arrependo da escolha, mas hoje tenho mais clareza de que a vivência daqueles três anos foi decisiva para me afastar do universo da tecnologia. Não que não houvesse machismo no outro caminho – como problema estrutural de nossa sociedade, ele está presente nas diferentes esferas e dimensões de nossas vidas.

E, no final das contas, o machismo tentou me expulsar da tecnologia, mas a tecnologia, substantivo feminino, sempre cruzou o meu caminho. Cá estou eu, de novo, aprendendo linguagens de programação, querendo brincar com Arduinos, pensando em como códigos e dados podem mudar para melhor a vida das pessoas.

Pergunto-me o que teria sido se essa história se passasse hoje, em 2015. As meninas têm mais ferramentas à mão: as redes sociais estão mais difundidas, os gravadores e celulares, mais baratos e potentes. Histórias de professores como as que contei não durariam um dia se viessem à tona. A internet também nos ajuda a ter mais referências sobre a questão de gênero – embora isso não seja automático.

Um episódio de machismo recente no trabalho me fez querer tirar essas histórias do baú. Desta vez, foi diferente: os óculos feministas só vão tornando a visão mais nítida, num caminho sem volta. Nos apoiamos em homens e mulheres sensíveis a essa condição, e a Fernanda de quase 30 anos, enxergando melhor que a de 15, não vai mudar o caminho para evitar essas pedras.


¹Claudia Paz Sarmiento Ramírez fala sobre isso no texto “Mirando la Discriminación con Otros Ojos”. Ela faz uma interessante metáfora da consciência individual da discriminação como óculos que dão novos detalhes, texturas e visões a um míope. Sarmiento nos lembra que, durante o processo educativo ao longo de nossas vidas, nossa percepção da realidade tende a naturalizar o entorno. “Quer dizer, o questionamento do que consideramos justo ou injusto, ou discriminatório ou não, pode não ser evidente à primera vista” (a tradução do espanhol é minha). O livro em que esse artigo foi publicado está disponível para download aqui



*Esse texto foi originalmente publicado aqui. A autora dele é a Fernanda Campagnucci e ela é jornalista, especialista em acesso à informação, transparência e educação.


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