Acessório

por Roberta Minhoto

Toda mulher sabe que quando ela decide sair de casa é imprescindível que esteja adornando alguns acessórios. Alguns são tão essenciais que sem eles, ela se sente nua, não apresentável e, inclusive, indefesa. Afinal, uma mulher precisa estar impecável sempre.

Um corretivo para esconder imperfeições, um batom para colorir os lábios, aquela bijuteria preferida, aquela calça coringa que combina com qualquer peça, e por último, mas não menos importante, aquela famosa “cara fechada”. Pronto. Agora ela está apta a conviver em sociedade. Sim, boa parte das mulheres quando estão na rua, não importa se elas voltarão em menos de cinco minutos para o seu lar ou se passarão o dia fora, elas estarão com cara de poucos amigos. Muitos se questionarão. Desde quando má educação pode ser comparada a um acessório?


Desde que aproximadamente 83% das mulheres não gostam de receber cantadas nas ruas. Uma pesquisa realizada pelo site Think Olga concluiu que 99,6% das mulheres já foram assediadas nas ruas. Em lugares públicos o número cai para 80%. Em transportes públicos para 64%. E no trabalho para 33%. Aproximadamente 81% das mulheres assumiram ter deixado de freqüentar algum lugar por medo de assédio. Estes números deveriam explicar por si só o mal estar que enruga os rostos femininos. Mas, infelizmente, se faz necessário escancarar aos olhos e consciências o óbvio. A feição carrancuda é o seu acessório de defesa contra pequenos ataques diários que variam desde pseudos elogios, como “princesa”, “gostosa”, “ô lá em casa”, até contatos físicos, como passadas de mão por seu corpo sem consentimento. Assim que ela sai de casa, que ela está em algum espaço público, parte dos homens entendem que seu corpo também é público.  Variando entre eles somente o modo como se apropriarão dela. Seja num olhar, numa palavra, num toque ou quiçá, numa violação completa.

Essa realidade constante em que as mulheres vivem, e que é a responsável pela necessidade de utilização cotidiana de um acessório invisível de defesa, se chama medo. O medo de suas próprias ações lhe causarem os mais diversos tipos de transtornos, inclusive abusos sexuais. Não se pode dar qualquer tipo de abertura para pessoas do sexo masculino. Se alguém vier lhe pedir informação, ignore. Não ouse sorrir para estranhos, pois nunca se sabe o que ele compreenderá dessa sua atitude. Não escolha vestir roupas que possam deixar partes atraentes à mostra, mesmo que seja em pleno verão.   Não ande distraída ou durma em transportes públicos, como muitos homens fazem, porque podem tocá-la ou tirar fotos inapropriadas suas.  Se possível, evite andar sozinha, esteja sempre em grupo e de preferência em horários adequados para não dar sorte ao azar e se deparar com um estuprador. A culpa não é dele se você escolheu estar fora de casa a essa hora.

Ou seja, o direito da mulher a cidade é limitado e elas, mesmo não assumindo ou debatendo isso entre suas colegas de gênero, sentem isso na pele como se fizesse parte de sua rotina. Sair de casa é quase um ato de empoderamento. Requer coragem para enfrentar os medos que a sociedade patriarcal impõe com suas atitudes. Audácia para usar a vestimenta que lhe apetece. Autoconfiança para não se deixar abater pelas críticas e não acreditar que os assédios são culpa sua. E, principalmente, força para enfrentar os desafios naturais da vida e ainda conviver com uma máscara de proteção para não atrair ainda mais problemas. Elas podem até não saber, mas toda vez que estão inseridas no espaço público, estão sendo de alguma forma transgressoras, revolucionárias e empoderadas.

 

Roberta Minhoto é estudante de jornalismo, pisciana e tem 22 anos loucamente vividos. Quando puder, pretende voltar a morar na praia e dedicar-se somente aquilo que realmente faz sua alma viver.
Roberta Minhoto é estudante de jornalismo, pisciana e tem 22 anos loucamente vividos. Quando puder, pretende voltar a morar na praia e dedicar-se somente aquilo que realmente faz sua alma viver.
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