Feminista radical de 16 anos, Flávia Pereira critica a Marcha das Vadias

Como parte da nossa reportagem multimídia, Marcha das Vadias: um debate, entrevistamos a jovem feminista radical Flávia Pereira. Aos 16 anos, ela ajudou a criar o coletivo feminista da escola onde estuda (o Coletivo Eu Não Sou Uma Gracinha) e tem uma opinião formada sobre a Marcha das Vadias. Confira a entrevista:

Eu, Tu, Elas: Como você tomou contato com o feminismo?
Flávia: Eu comecei a ter contato com o feminismo a partir de reuniões e discussões que aconteciam fora da sala de aula, por intermédio da minha professora de história do nono ano, a Conceição Cabrini. Isso foi em 2013. A gente discutia sobre questões machistas que a gente percebia na escola e na rua, e acabou que nós, um grupo de meninas, criamos o Coletivo Eu Não Sou Uma Gracinha dentro da escola, que está presente até hoje.

Qual é a sua opinião sobre a Marcha das Vadias?
Eu acho que a Marcha é uma manifestação muito importante, até porque é um movimento de mulheres. Isso é muito conveniente para juntas essas várias mulheres em um só lugar, por uma só causa, no Brasil inteiro. Isso é muito empoderador. Mas eu tenho várias críticas à manifestação.

Eu sou a favor de um feminismo em que nenhuma mulher seja chamada de “vadia”. Acho muito desagradável você ir a uma manifestação para se empoderar, para quebrar tabus, e ainda ser chamada de “vadia” por isso.

Além disso, eu vejo a Marcha das Vadias como um feminismo muito liberal, muito aberto a “todas as minorias do mundo”. Eu acho que o feminismo não é só um movimento de acolhimento, mas principalmente de luta pela libertação das mulheres. Uma luta pela libertação dos nossos corpos. Acho muito precipitado acolher todas as minorias, como homens gays, por exemplo. Isso não faz o menor sentido, porque, independente da sexualidade do homem, ele ainda é um homem, ainda tem os privilégios por ser homem, e, portanto, ainda é um machista.

Uma manifestação que deveria lutar pela liberdade das mulheres não deveria ter homens. Homens que podem se masturbar, que podem assediar as mulheres, são um baita problema.

A Marcha das Vadias acaba sendo uma espécie de carnaval. Deixa de ser uma manifestação “séria”, porque acaba sendo conivente com as violências que nós, mulheres, passamos todos os dias. É um espaço com muita presença masculina, no qual as mulheres não conseguem se sentir totalmente confortáveis – eu digo isso por mim mesma.

Algumas meninas tomam a Marcha como porta de entrada para o feminismo. O que você acha disso?
Apesar de todas as críticas que eu tenho a esse movimento, eu acredito que a Marcha seja, sim, importante como uma porta de entrada para o feminismo. Muitas mulheres não têm acesso a textos feministas, a livros e a autoras, e eu acredito que, se não houvesse essas marchas de acolhimento, o feminismo seria ainda mais elitista e mais academicista do que já é. E eu não digo isso de todas as vertentes, claro – o feminismo negro é um exemplo contrário.

Mas a Marcha das Vadias é majoritariamente branca, e isso é um problemão. Ela é, assim como o feminismo liberal, muito superficial. Por mais que seja acolhedor, por mais que seja uma porta de entrada, por mais que seja um feminismo muito bacana, é um feminismo muito liberal, que acolhe homens, e acaba sendo mais uma reprodução do patriarcado.

Quando perguntamos sobre recortes de classe, o Coletivo da Marcha de São Paulo disse que o movimento “agrega todas as meninas, sem distinção”. Qual a sua opinião sobre isso?
Eu, como uma mulher branca e de classe média, não posso falar disso, não posso colocar minha voz acima de mulheres negras e de classes baixas. Seria melhor perguntar a uma mulher negra, a uma mulher mais pobre. Mas vamos lá: a minha opinião é que isso parece ser muito bonito, muito libertador, mas no fundo é só mais uma reprodução da opressão. Se você for pensar, as mulheres negras têm demandas específicas que as mulheres brancas não têm. Não dá para simplesmente agregar todas as meninas sem nenhuma distinção. Isso por si só já é racista e elitista.

Para terminar: o que é ser feminista para você?
O feminismo é a libertação. O primeiro passo é ensinar as mulheres a perceberem o machismo à sua volta. O feminismo liberta da cegueira que o machismo impõe sobre nós. Ele liberta e, mais para frente, ele vai libertar nossos corpos. Por enquanto, já que a situação não é utópica, não é perfeita, ele só liberta nossos olhares. Mas isso é muito importante. Para a gente começar a lutar, a gente tem que ter o poder de ver e apontar o que nos incomoda, o que nos oprime. O feminismo faz isso: nos ajuda a apontar tudo aquilo de machista que existe por aí. É muito comum ser chamada de exagerada, de “sem senso de humor”. Na verdade, não é que a gente não saiba brincar. É que brincadeira machista não tem graça.  

Além disso, ser feminista é ter o mínimo de autoestima. É conhecer o próprio corpo, é saber que não é um pecado sentir prazer, que não é um pecado menstruar, que não é um pecado ser quem você quer ser. O feminismo ajuda nesse empoderamento todo da mulher.

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7 comentários

  1. Nossa, pega uma feminista radical de verdade pra fazer essa entrevista da proxima vez, por favor. Muito complicado pegar uma mina novinha de 16 anos e jogar todas as criticas do feminismo radical tem pra fazer à mdv nas costas dela. Soa até como manipulação. Muito pouco do que ela disse tem a ver com feminismo radical. Revejam essa entrevista, por favor.

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  2. “[Feminismo] É conhecer o próprio corpo, é saber que não é um pecado sentir prazer, que não é um pecado ser quem você quer ser. O feminismo ajuda nesse empoderamento todo da mulher.”
    Onde que esse discurso é radical, gente? Mais liberal impossível. A guria tem 16 anos de idade, dificilmente tem bagagem pra dar uma entrevista como “feminista radical”. Criticar por criticar a mdv não nos serve pra nada. Temos sim muitos questionamentos acerca da marcha, mas quase nenhum deles foi levantado pela Flávia, que obviamente ainda é muito novinha para formulá-los de forma abrangente.

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    • Lua, como você mesma disse, ela tem 16 anos. E sim, libertação sexual e conhecimento do próprio corpo são dois dos principais preceitos do feminismo radical. Em nenhum momento ela citou pornografia, por exemplo. Nosso intuito ao conversar com a Flávia foi mostrar que existem meninas da idade dela que não curtem a Marcha, entendeu? Se você topa dar uma entrevista sobre o assunto, vamos adorar ouvi-la.

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  3. Pega, por exemplo, uma feminista antiporn que comece falando sobre a falácia da libertação sexual, que contextualize historicamente o sequestro que o movimento feminista vem sofrendo (desde a criação da pílula anticoncepcional), e que daí desenvolva pra marcha das vadias – como produto desse sequestro – e a cooptação das pautas da luta de emancipação feminina pelo patriarcado. Aí sim você tem uma crítica radical baseada em leitura e argumentação, não esse subproduto de feminismo de internet que é esse texto, gente, por favor.

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  4. Flavia, absolutamente nada contra você. Espero que apenas que compreenda a crítica: num contexto onde o feminismo se encontra completamente sequestrado, a frente radical é a última resistência que as mulheres realmente tem. Então é muito importante que se reinvindicar como “feminista radical”, venha junto a uma bagagem de leitura igualmente proporcional ao peso que ser uma carrega. A partir da leitura das suas falas, da pra perceber que você ainda não tem essa bagagem. Então mais cuidado ao falar em nome de um movimento que você não conhece com profundidade, por favor.

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