Eu, tu, elas entrevistam: Coletivo Manas Chicas

Como parte da nossa reportagem multimídia, Marcha das Vadias: Um Debate, entrevistamos o Coletivo de Feminista Radical Manas Chicas. Dê uma conferida!

(Por questão de privacidade a mulher que nos concedeu a entrevista não quis se identificar. Ela fala em nome do Coletivo como um todo).

Você já frequentou a Marcha das Vadias? 

Não, nunca. O que eu conheço são algumas colegas minhas que foram. E na primeira Marcha que teve aqui no Brasil, eu passei perto no dia. Mas eu nunca fui na marcha para militar.

Por que que você nunca frequentou a Marcha? E quais são as impressões do Coletivo sobre a Marcha?

Ah, eu nunca frequentei a Marcha primeiro porque a primeira vez que teve aqui no Brasil eu ainda era muito nova. Foi uma questão individual. A minha mãe não me deixava sair de casa pra ir. Era um pouco complicado. Não era por nenhum motivo político, porque nessa época eu achava a Marcha interessante. O feminismo estava começando a ter mais impacto no Brasil e o Facebook estava começando a crescer nessa época, 20011, 2012, mais ou menos. E eu achava legal. Em 2013 eu não fui porque estava estudando no cursinho. Apenas em 2014, quando eu me alinhei com o Feminismo Radical, que eu não fui por motivos políticos mesmo.

Você pode explicar essas críticas e os motivos pelos quais o seu coletivo não se alinha politicamente com a Marcha?

Então, a gente enxerga a Marcha com qualidades e com defeitos. A gente vê o ponto positivo da Marcha que é, na verdade, uma faca de dois gumes. Ela tem uma visibilidade da mídia significativa e ela pode servir como porta de entrada pra muitas meninas adolescentes conhecerem o feminismo. E ela traz uma questão muito importante que é a crítica à culpabilização da vítima. Até porque esse nome veio do caso que aconteceu no Canadá, de mulheres que eram estupradas em uma universidade e o policial disse que elas se vestiam como vadias, e a Marcha vem falando “NÃO! Então somos todas vadias.” A questão central que a gente concorda é que as mulheres não são estupradas e abusadas sexualmente por conta de sua conduta, de sua roupa. Mas sim porque são mulheres e mulheres são odiadas na sociedade. Isso é um ponto importante que nós concordamos.

Agora, nós não concordamos com a ressignificação do termo vadia. E nós não concordamos que a nudez feminina, no caso de protesto, seja eficaz. A gente não está culpabilizando a organização do evento por acreditar nisso, mas nós não acreditamos que esse método seja eficiente.

Sobre o tema desse ano, que foi a descriminalização do aborto, o que o Coletivo pensa à respeito?  

Eu achei um tema importante. É uma pauta urgente no feminismo, a descriminalização do aborto. Mulheres morrem por causa de aborto, aqui na América Latina, no mundo inteiro, né? Mas fazendo um recorte, aqui na América Latina a gente tem um problema grave. Tem um país, que eu esqueci o nome, não sei se é Guiana Francesa, em que uma mulher foi presa porque ela teve um aborto espontâneo. É absurdo! A gente não tem controle dos nossos corpos e tem que ceder à maternidade compulsória. Muitas mulheres ficam gravidas de abusos, de estupros não óbvios – não aqueles em que o cara te leva pro beco, mas estupros maritais mesmo – e as mulheres tem que prosseguir com a gravidez. Não pode interromper porque é uma vida que está ali, e que se dane a saúde psicológica da mulher. Isso é um tema importante e que precisa discutir.

Queria saber a posição do coletivo sobre a participação de homens dentro da Marcha. Inclusive, nesse ano que foi uma pauta tão delicada quanto o aborto.  

Bom, nisso existe um consenso absoluto de que nós somos contra a presença de homens na Marcha, porque nós somos contra a presença de homens nos nossos espaços de militância. A gente acredita que isso é uma medida liberal e ineficaz, uma medida que não tem nem explicação. É um espaço que deveria ser nosso, pra gente discutir uma violência que acontece com a gente, especificamente, e ter que ter homens no meio? Eu não sei nem o que dizer. Isso é um absurdo.

Teve algum ponto que você discutiu com as meninas do Coletivo e que queira colocar?

A nossa principal crítica à Marcha são as ideias liberais. É o fato de não problematizarem a nudez. Porque quando a Marcha começou, estava rolando aquela coisa do Femen. Não que esteja explicitamente associado, mas o Movimento Feminista no Brasil estava começando a tomar proporções mais pela internet e aí a mídia ficou em cima. É notável a responsabilidade da mídia na cobertura da Marcha, porque eles dão destaque para as mulheres nuas, notícias deturpadas e essa informação acaba chegando bem deficitária pras mulheres que vão ver isso. Porque assim, o impacto da Marcha, o impacto que as notícias da Marcha tem nas mulheres na sociedade é diversa, porque as mulheres não são todas iguais. Então, por exemplo, se eu for mostrar isso pra uma tia minha, que é mais velha, ela vai achar que o feminismo é aquilo, ela vais sentir repulsa. Ou então uma menina que enxerga a libertação sexual como uma pauta feminista, – coisa que nós não consideramos – vai achar isso legal. E as duas estão equivocadas, porque aquilo é uma forma de manifestação feminista? É. Mas que tem que ser criticada, assim como qualquer outra? Sim. Eu acredito que a gente tem que problematizar algumas coisas.

Vocês não acreditam então que o feminismo tenha que chocar? Por exemplo, a cobertura midiática da Marcha…

Sim, não acreditamos. A cobertura é quase sensacionalista.

Vocês não acham isso positivo, digo, o choque que possa vir a causar?

Nós não achamos isso positivo, mas a gente está culpabilizando a mídia e não a organização. A gente acha que o feminismo é, antes de mais nada, político. Então ele não pode ser pessoal, ele não pode ser emocional, ele não é autopromoção, ele não é “batalha de divas”, ele é política.

Vocês acham que a cobertura midiática foca nessas mulheres nuas de uma maneira pejorativa?

Sim, sim. Muito!

No sentido de culpar pelo fato de que elas estarem lá ou no sentido de planificar o feminismo como uma coisa de senso comum como “é mulher que quer ficar nua na rua”?

Os dois. A mídia vai se aproveitar desse feminismo liberal, que é um tipo de feminismo muito presente na Marcha, porque ela [a mídia] vai adaptar isso para os interesses dela. A mídia está ligada ao patriarcado. Então ela vai transformar o feminismo num desfile de mulheres nuas. Essas mulheres que estão ali não querem isso. Ou algumas querem mas acredito que a maioria não. Mas acaba sendo isso porque é isso que a mídia vai fazer.

Entendi. A má fé da mídia, de pegar uma mensagem que muitas estão querendo passar e transfigurar pra uma outra…

Que vai cair na sexualização do corpo da mulher. É claro que se tiver uma mulher fora dos padrões, lá na frente, eles não vão tirar foto dela. Eles vão tirar uma foto de uma mulher nos padrões. Porque vai ter mais views no site. É assim que funciona.

Vocês não acreditam que a Marcha tem que acabar, então? Voces acham que ela é importante, em certa medida, mas que ela demanda críticas e ela precisa ser problematizada?

Sim. É isso. Essa é a opinião do Coletivo.

Assim, muitas pessoas tem uma visão negativa do feminismo radical. Acreditam que nós somos autoritárias, que a gente se acha melhor que os outros. E não é isso. A critica que a gente faz, é uma critica política. É uma critica ao liberalismo dentro do feminismo, é uma critica a falta de concepção da realidade material e eu acredito que, infelizmente, a Marcha peca em aprofundar as questões das pautas feministas, como permitir a presença de homens em um espaço que é da nossa militância. A gente tem que ter noção do espaço político que a gente ocupa. E o nosso espaço político enquanto mulher é esse. As mulheres não são todas uma classe homogênea, longe disso. Mas, o fato da gente poder se auto-organizar num Movimento exclusivo, já é alguma coisa! E isso é muito importante para o Movimento porque a gente avança nesse sentido.

É aquilo que eu estava conversando com as meninas… A divulgação massiva da mídia é uma faca de dois gumes, ela tem esse lado positivo porque a mensagem vai chegar pra mais pessoas do que, por exemplo, um Festival de Feminismo Radical que fizemos o ano passado. E assim, tinham algumas mulheres lá, foi bem legal mas não temos o mesmo alcance que a Marcha tem. Nem tem como comparar. A Marcha sai no G1, UOL e em outros veículos de comunicação. Isso é positivo porque, a internet facilita, às vezes, uma mulher que não conhece, nunca ouviu nem ouviu falar de Simone de Beauvoir. Uma mulher vai ver aquilo e vai pensar “nossa, o que que é isso? Vou ver o que é!”. Pode ser positivo nesse sentido.

Agora, quando a Marcha é a única referência que existe, aí fica um pouco complicado porque é uma visão unilateral de um Movimento que não é uno – não que o Movimento Feminista não seja auto-organizado, mas algumas coisas não são consenso.

O que o Coletivo acha sobre as críticas que dizem que a Marcha das Vadias acaba recaindo em racismo e classismo, no sentido de só atingir mulheres brancas, de classe média, dentro dos padrões? O Coletivo tem alguma opinião sobre isso?

O Coletivo acredita que o Movimento Feminista como um todo peca nesse sentido, e que ele muitas vezes se apresenta como racista e classista, sim. Até porque as mulheres brancas, de classe média – que é o meu caso – tem mais acesso a esse tipo de coisa. Tem mais acesso a esse Movimento. Então, da nossa parte de mulheres com privilégios, o que a gente tem que fazer é reconhecer que a gente ocupa um espaço político perante outras mulheres, negras, lésbicas e pobres, e dar mais voz a essas mulheres. Não no sentido individual mas no sentido de organização mesmo. São essas outras mulheres que precisam ser mais ouvidas do que a gente, porque elas têm mais pautas, com mais urgência, a serem discutidas. Então, não é só a Marcha que peca nesse sentido, é o Movimento Feminista como um todo e a gente precisa discutir isso urgentemente.

Obrigada! Foi uma entrevista muito importante pro nosso trabalho. Se você puder falar um pouco agora sobre o feminismo radical, sobre essa visão deturpada que as pessoas têm e sobre preconceitos, perseguições e exposição de mulheres “rad”, seria bacana, visto que vocês são um Coletivo Radical.

Bom, o feminismo radical é um feminismo ligado à produção da segunda onda feminista, mais ou menos nos anos 60/70. A Simone de Beauvoir deu um start no feminismo radical com a publicação do “O Segundo Sexo” que é um livro importante pra gente mas não é o livro do feminismo radical por conta do período, porque ela publicou, se eu não me engano, em 1946. Ainda a teoria radical ia acontecer só mais tarde. Mas ela influenciou bastante a gente.

Muitas mulheres discordam do feminismo radical, acreditam que ele seja anacrônico porque nós não estamos mais nessa época. Eu acredito que algumas coisas a gente tem que adaptar, não só por questão de tempo mas por questão de lugar. Então, por exemplo, uma mulher feminista dos Estados Unidos não vai entender exatamente o que é ser uma mulher latino-americana. Então a gente tem que trazer algumas coisas para o nosso contexto. Mas eu acho que a produção feminista radical ainda é a mais materialista no que diz respeito à exploração e opressão que as mulheres sofrem.

O que a gente acredita, que destoa um pouco do feminismo liberal, é que nós somos contra a regulamentação da prostituição. Isso é um consenso no feminismo radical. Algumas coisas são consenso e outras não. Mas a gente é contra a existência da pornografia, também. Sobre o lesbianismo político, não tem consenso, então eu nem vou entrar muito nessa questão. A gente entende – o que é a principal polêmica – o gênero como uma imposição de signos a um indivíduo a partir do momento em que ele nasce. Então, não é ser biologizante, é ser materialista. Essa construção que o gênero se dá em uma pessoa, quando não é uma escolha. A gente acredita que são fatores bio-psico-sociais que fazem o gênero na pessoa. E essa exploração que as mulheres sofrem vem disso, dessa imposição. Logo, não é uma identidade, não é uma escolha, o gênero não é a forma como você se expressa, é o que fizeram de você.

Sobre o Coletivo Manas Chicas

É um Coletivo autônomo – não é ligado a nenhuma instituição de ensino – de feministas radicais de São Paulo. Criado em 2012, traz, todo mês, uma roda de conversa e debate aberta à mulheres sobre autoras feministas, tais como a Firestone e Audre Lorde. Para arrecadar dinheiro as meninas têm vendido bolos veganos.

(Não editamos nenhuma resposta)

Ana Júlia, 24 anos, dei um rolê em Direito por alguns anos pra vir me encontrar no Jornalismo e na Educação. Capricorniana porém regida por muito ar, feminista, cinéfila, apaixonada por música brasileira e por cantar o meu ser.

Ana Júlia, 24 anos, dei um rolê em Direito por alguns anos pra vir me encontrar no Jornalismo e na Educação. Capricorniana porém regida por muito ar, feminista, cinéfila, apaixonada por música brasileira e por cantar o meu ser.
Obs: mando áudios longos por whatsapp.

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