Denúncia: sou perseguida na minha própria rua

por Roberta Minhoto

Não sei nem por onde começar. Não é a primeira, nem a segunda e, infelizmente, tampouco será a última vez que eu sinto o medo e a raiva que senti ontem (7/11) por volta das 15h. Foram inúmeras as vezes que homens mexeram comigo. Alguns com comentários, “elogios”, e outros já chegaram perto demais de mim. Mas ontem, aquele idoso de descendência oriental se superou.

Há aproximadamente dois anos, ele me parou na minha rua para fazer algumas perguntas. Eu nunca imaginei que um senhor daquela idade fosse “dar em cima” de mim e respondi educadamente em que rua ele estava. Acredito que ele deva ter ao menos setenta anos de idade. Ele me perguntou se estava solteira e se tinha interesse nele, pois ele tinha e sabia onde eu morava. Nem me dei ao trabalho de responder e simplesmente segui o meu caminho. Desde então, esse senhor mexe comigo TODAS as vezes que me vê, exceto se eu estiver acompanhada de algum homem. Aí, ele só para e espera a gente passar por ele. Se eu estiver com alguma amiga ou até mesmo com a minha mãe, não há respeito.

Porém, o motivo pelo qual quero fazer este relato e deixar aqui documentado é que ontem foi a primeira vez que ele tentou encostar em mim.

Estava eu subindo a minha rua, em direção à avenida Pires da Mota, quando ele me vê e abre os braços. Vem correndo em minha direção. O sinal está fechado. Resolvi atravessar a rua. Afinal, não ia pagar pra ver se ele teria tamanha audácia. Ele atravessou na mesma direção que eu, de braços abertos e correndo. Dessa vez o sinal abriu. Como não tinha opção, resolvi atravessar com os carros em movimento. Muitos buzinaram sem entender o que estava acontecendo. Quase fui atropelada. Xinguei em voz alta e muito aquele ser humano. Os carros enfim pararam de buzinar. Ele simplesmente riu e foi embora.

Gostaria de deixar claro que, se algo acontecer comigo, já estava aqui uma denúncia contra um idoso, de descendência asiática, contador. Seu nome é José, usa óculos de grau, veste sempre (independente de clima) moletom, e mora na rua Bueno de Andrade, no bairro da Aclimação, São Paulo – SP. Já conversei com alguns comerciantes e eles confirmaram a rua onde ele mora, seu nome e sua profissão. Estes comerciantes nunca o viram fazer algo semelhante com outras gurias, mas por vir das dúvidas, prefiro deixar aqui documentado.

Sei que muitos não levarão meu relato a sério. Muitos sequer lerão. Alguns podem vir até colocar a culpa em mim. Mas só eu sei o medo e a raiva que sinto todos os dias que coloco os pés pra fora de casa. E eu não tenho a opção de me trancar em casa, sabe por quê? Porque eu trabalho e estudo. Ou seja, saio cedo e volto tarde.

Devido aos acontecimentos ao longo desses anos, meu namorado é obrigado a me buscar durante a semana no ponto de ônibus. Faça chuva ou faça sol. Isso é justo? Me questiono quantas mulheres passam por isso, por este medo específico de ser violada. Se for olhar as estatísticas, você se desespera. E o que eu peço todos os dias é para não me tornar somente mais um número.

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Roberta Minhoto é estudante de jornalismo, pisciana e tem 22 anos loucamente vividos. Quando puder, pretende voltar a morar na praia e dedicar-se somente aquilo que realmente faz sua alma viver.
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