Tive um relacionamento abusivo à distância

Em uma terça-feira, depois de um almoço de arroz à marinheira com mariscos na cantina, escrevo sentada na biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, em Portugal. Durante o caminho da cantina até aqui, me deparei com um anúncio muito interessante na parede:

As minhas marcas são reais, apenas não consegues, apenas não consegues vê-las… Ser humilhada, ignorada, ameaçada ou insultada não faz parte de uma relação saudável. Se passaste por essa experiência numa relação amorosa, não sintas vergonha ou culpa e procure AJUDA especializada

Logo abaixo dos dizeres, havia o e-mail do departamento psicológico da Universidade, o qual oferecia este serviço totalmente gratuito aos alunos.

Então me deparei. Pensei comigo: “sim, estou sendo humilhada. Estou sendo ignorada, ameaçada e insultada”. O meu relacionamento com o meu namorado tornou-se basicamente isso.

Veja bem, estávamos em uma relação complicada: consegui uma bolsa de estudos afim de estudar durante um ano Direito em Portugal. Fazer intercâmbio sempre foi o maior sonho da minha vida, e finalmente tive a oportunidade. Tal bolsa foi concebida pelos meus méritos e minhas conquistas. Estávamos juntos a quase um ano quando dei a notícia a ele.

Ao contrário que eu esperava, meu namorado agiu com bastante maturidade: seus olhos encheram-se de lágrimas, me abraçou bem forte e me disse “Vai, meu amor, você merece tudo isso, estou muito orgulhoso de você! ”.

Eu sabia que não iria ser fácil. Namoro a distância não é fácil, mas também não é impossível. Eu havia falado que gostaria de manter a nossa relação e ele concordou. Aprendi a ter paciência, absorver as ideias e conversar muito com ele sobre isso. Choramos muitas vezes juntos, mas eu estava ao mesmo tempo feliz por realizar o meu sonho o qual, eu sempre enfatizava, iria trazer frutos para o nosso futuro. Aliás, nós tínhamos, como todo casal bobão, muitos planos para o futuro. Ele era meigo, gentil, companheiro. Eu achava que ele era o homem da minha vida, além de ele ser sempre a minha paixão de colegial.

Mas assim que coloquei meus pés em Portugal, nossa relação virou um inferno. Diariamente ele se esperneava. Desconfiava de absolutamente de tudo que eu fazia (ou não fazia). Me acusava de traição, xingava de puta e mentirosa. Ele queria me proibir de sair do quarto, que eu não poderia ter amigos, eu não poderia me depilar ou sair de casa com roupas muito curtas. Uma vez cheguei em casa um pouco mais tarde e ele me acusou de ter contraído uma DST. Ameaçava em terminar o namoro toda a hora. Além disso, me chamava de burra e tirava sarro por eu ser estudante de universidade particular no Brasil.

Nunca ninguém havia falado isso para mim. Nem ele, nem ninguém. Eu aguentei essa violência por dois meses. Eu tentava dar explicações, acalmá-lo, mas logo era oprimida. Eu não conhecia este lado sombrio dele e comecei a pensar que, se ele estivesse me vendo pessoalmente, seria capaz de ele… me bater? 

Eu o permiti, durante os longos dois meses, de me abusar psicologicamente. Era difícil eu conseguir compreender o que estava acontecendo e como sair dessa situação. Eu o deixava me dominar. “Mas eu ainda o amo”, pensava.

Mas isso é amor?

Não, não é amor. É covardia. É falta de respeito. Sou mulher, filha, irmã e amiga de alguém. Não sou perfeita, mas tenho meus méritos. Durante a minha estadia aqui no Porto ele sempre me deixava para baixo, ridicularizando minhas conquistas pessoais e acadêmicas, dando a entender que apenas ele teria sucesso profissional. Por que eu permiti isso? Resolvi dar um basta no namoro, o que obviamente ele não aceitou bem… Mas não tive outra escolha, já que ele não estava aberto a diálogos ou sequer queria acreditar em mim.

Hoje, eu consigo enxergar as coisas com mais clareza. Eu finalmente acordei, e percebi tudo isso com calma. Eu não mereço uma pessoa assim. Aliás, ninguém merece.

Relacionamento é qualquer e todos os tipos de amor. É você se permitir que o outro seja feliz, e este também o espera te ver feliz. É participar e ajudar a alcançar seus sonhos, caminhar juntos. Ter alguém sempre ao seu lado, que confie e te respeite. Me suprimir de ter amigos ou ditar a maneira de como eu visto, por exemplo, de início achei que era brincadeira. Lembro-me  de ter desabafado isso para o meu amigo e ele disse “você está sendo vítima do machismo, acorda! ”. E era isso mesmo. Antes de amar qualquer pessoa, é necessário se amar primeiro.

O que deixo de lição aqui é que principalmente nós, mulheres, não podemos deixar a nossa estrela brilhar por causa de outrem. Não podemos permitir que deixamos de fazer os nossos sonhos por causa de um homem. Todas nós temos capacidade para tudo e somos livres para conduzir o rumo da nossa vida. 

Olhe bem o que acontece ao seu redor. Não deixe de seguir a sua intuição – ela é a sua melhor amiga! Às vezes é difícil nos darmos em conta sobre tudo isso, mas se permita ser feliz. Se ele me amasse de verdade, ele iria me respeitar. E mesmo se ele não me amasse mais, de qualquer jeito ele teria de me respeitar.

Quando eu perguntava o motivo de tanto ódio, ele jogava a culpa em mim por ter ido viajar. “Se você não tivesse viajado, eu estaria te tratando bem”. Meninas, não caiam nessa. Não temos culpa de agarrar todas as oportunidades e realizar seus sonhos. Sim, eu ainda o amo, mas talvez eu ame uma pessoa imaginária ou utópica demais, e não essa figura maldosa que ele realmente é e demorou 2 meses para aparecer. Acredite: não vale a pena namorar um machista. Eu não permito a falta de respeito.

*A autora pediu anonimato. E é claro que a gente aceita ❤11046963_1573387422920495_3928880001145438914_n

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4 comentários

  1. Obrigada pelo desabafo. Vivi a mesma situação e sofri muito! Espero que isso só boa fortaleça para continuarmos voando para os os nossos sonhos. ❤

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  2. Passei por uma situação semelhante. Comecei um namoro a distância com uma pessoa que se mostrava amoroso, romântico, carinhoso.. Que chorava horrores nas despedidas, que fazia planos de casamentos, enfim tinha saído dos meus sonhos. Depois de um tempo, a distância apertou e ele começou a me tratar diferente, tão diferente que não aceitei e acreditava ser só o estresse diário do fim da faculdade. Ele me humilhava sempre, falava que não tinha mais desejo por mim, mas me chamava de amor. Tudo foi tão rápido, eu lutei e fechei meus olhos pra cada humilhação que ele me falava. Ele terminou comigo por mensagem, foi terrível e resolvi ir na cidade dele conversar e tentar entender tudo. Ele tinha outra, a quanto tempo não sei, perguntei pq me chamava de amor, de meu bem, por que fazia planos…e ele disse que “era costume..sempre chamava mulheres assim”. Me abandonou em uma cidade onde não tinha praticamente ninguém. Foi horrível, ainda tá sendo. Mas logo quando voltei pra casa procurei um profissional, comecei terapia e queria compartilhar que tem sido a melhor coisa q fiz. Tudo isso faz só um mês, ainda tenho picos de muito choro, raiva e impotencialidade…mas tenho me descoberto e principalmente, tenho aprendido a deixar de me sentir um lixo e ter mais auto estima e auto confiança. Nem sempre sabemos que estamos sendo abusadas, não queremos acreditar que aquele ser que amamos tanto e que fora tão amoroso conosco pode se tornar um carrasco.Não é nossa culpa, amar não é errado, acreditar não é errado, tentar salvar uma relação não é errado…só erramos quando esquecemos de nós mesmas, como eu esqueci.

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  3. Então, a dois anos atrás eu tive um relação abusiva, conheci um cara me parecia super legal, era engraçado, começamos a namorar no inicio achei engraçado o ciumes dele por ser algo idiota, ter ciumes é normal, mas o dele era possessivo, sempre ele no meu trabalho pra me vigiar, falava coisas baixas pra mim, me tratou como um lixo e eu ficava, caralho e eu ainda gosto dele, até que um dia eu engravidei até ai blz, ele ficou super feliz e eu nervosa,16 anos grávida? até que infelizmente ou (felizmente) na vdd nem sei, acabei perdendo, ele ficou na bad e tal, quando fui mandar mensagem pra minha mãe do wpp dele ( meu cel eu tinha perdido em uma acidente) vejo a seguinte mensagem: Caralho lek, minha mina acabo de perde o bb to pronto pra ta na pista, eu fiquei tipo oi?,fiquei mal sim fui idiota de elevar isso cai no papo dele, depois dele quis relacionamento aperto, topei comecei a sair me divertir, voltamos ao normal, só que el ecomeçou me maltratar, eu já tava pedindo um basta, foi quando ele terminou comigo, nossa eu fiquei arrasada( sim, eu era louca), quando fui pegar minhas coisas ele me humilhou, o melhor amigo dele é meu amigo hoje em dia, primeiros dias eu passava mal, foi quando ele botou relacionamento sério no fb, eu fiquei oi??? não deu nem um mês, ele nem gosto mais de vc me deixa, depois desse dia, depois de tanta humilhação, viado eu caguei e andei, comecei a sair me divertir, ir pra muito open bar, dançar muito, conheci vários caras, beijei várias bocas, até o meio do ano passado, ai ele quis voltar cmg, ai eu blz vou ve se gosto dele ainda (sim fui estupida), nossa ele me ignorava demorava a responder, me deixou passando mal na copa p ficar com os amigos, depois daquilo não sentia nada só nojo, ele me disse que amava uma amiga minha dei a benção e fui ser feliz, voltei pra minha alegria, ele sempre pedia p voltar, e eu?dançando abeça rebolando até o chão, até que conheci meu namorado atual na escola, ele é meio certinho, mas me faz tão bem, nunca me maltratou, ao contrário eu que o maltratei uma vez na tmp, só que alguns traumas de antigo relacionamentos aparecem do nada e você fica com duvidas. Amiga um conselho se livre desse bosta, eu tinha medo de não encontrar alguém melhor que ele, sofri abeça,comi na mão que o diabo amassou, agora to comendo no céu monamour hahaha, ou dando né.

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