Namore alguém que não seja companheiro

por Raquel Abe

As pessoas costumam acreditar que os “bons casais” são companheiros em tudo. Eu não acredito (mais) nisso. Hoje, sei que existe muito mais num relacionamento além de uma suposta sincronicidade. Existem compromissos, obrigações e sim, existe um companheirismo. Mas não é como nos filmes, livros e séries e vou te contar o porquê.

Não existe ninguém nesse mundo igualzinho a você. Sempre haverão interesses diferentes, e muitas vezes alguns deles são incompatíveis: você gosta muito de uma coisa que seu companheiro não liga (ou odeia) e vice e versa. E não há nada de errado com isso. Por exemplo, o Dan, meu namorado, gosta muito de Ramones, muito mesmo. E apesar de eu gostar bastante de muitas bandas punks, não consigo suportar a voz do Joey Ramone e o som desses caras. Em compensação eu gosto muito de Coldplay, e ele acha chato e sonífero, além de se irritar com os agudos do Chris Martin.

Isso não é assim apenas em relacionamentos amorosos. Minha melhor amiga gosta de coisas que eu não vejo a menor graça, e vice e versa, tenho certeza. E não há nada de errado com isso. Quando estamos num relacionamento amoroso, no entanto, essas coisas costumam ser mais complicadas que com uma amizade.

A gente vê nos filmes, nos livros e em toda historia de amor as coisas acontecendo de uma maneira, e nos convencemos que é assim que deve ser. Mas deixa eu te contar, que não, não é assim.

Quando se instala o conflito de gostos: quando você quer ir num show que seu companheiro não quer, quando ele quer ir ver um filme no cinema que você não tem a menor vontade, você pode seguir a vida de 4 maneiras:

1) tentamos nos convencer que o que o outro gosta é bacana e que nós podemos gostar também, afinal se gostamos tanto do fulano e fulano gosta tanto disso, deve ser bom. Descobri coisas ótimas tentando me convencer que eu tinha um gosto parecido com o dele, ou dos outros caras que fiquei ao longo da vida. Mas Ramones não foi um deles. Que fique explícito: não há nada de errado em estar aberta às possibilidades, mas existe uma linha entre isso e se forçar à gostar de algo. Gostar deve ser algo natural e não pode ser dirigido por uma necessidade de ser amada. À longo prazo, isso será danoso para você e sua identidade, além de abrir portas para outros problemas no relacionamento (com o outro e consigo mesma)- se você não consegue assumir que não gosta de uma banda, como dirá que não gosta daquela coisa que ele faz na cama, ou da maneira que ele te tratou na frente dos amigos dele? Sua voz importa, seu gosto importa, e tudo isso faz parte de quem você é. Comece a privar os outros de um, e em pouco tempo se perderá de si mesma. É importante lembrar que também pode fazer isso tudo à outra pessoa, quando insistimos que ela goste dos nossos gostos.

2) Tentamos nos privar do que nós gostamos/privar o outro do que gosta. Homens costumam fazer menos isso, por serem criados de uma maneira diferente da nossa. Então o mais comum é que a mulher comece a se privar das coisas e atividades que ela gosta em prol de “um bem maior”, o relacionamento – afinal, é sabido por todos que “mulher sozinha em qualquer lugar está disponível” (só que não). Muitas vezes, passa pela cabeça que se o nosso amado não gosta daquilo, não tem porque gostarmos também. E novamente você começa a perder sua identidade. Começa a confundir os gostos que são seus e o que são do outro. Você começa a se sentir desinteressante, e sua autoestima cai pro centro da terra, e você não percebe o por quê.

3) Terminamos o relacionamento, alegando incompatibilidade.
Não é você, sou eu. Procuro alguém que goste de cachorros. Procuro alguém que vá ao cinema ver os mesmos filmes que eu e saia correndo pra comprar dois ingressos pro show do Coldplay quando eles vierem para o Brasil. Lembre do que eu falei no início: ninguém é igual a você. Se nem mesmo sua irmã, criada pelo mesmo pai, mesma mãe e que comeu os mesmos almoços que você todos os dias e dividiu os mesmos brinquedos vai ser igual a você, como outra pessoa, de outra família, muitas vezes de outra cultura, será? Se um dia encontrar uma pessoa que tenha os mesmíssimos gostos e opiniões que você, desconfie. Essa pessoa deve estar mascarando (talvez involuntariamente) a própria voz por medo de se ver sozinha. Exceto por algumas coisas, que interferem massivamente numa relação, nenhuma incompatibilidade sozinha deveria ser o fim de um relacionamento.

4) Respeite e encoraje seus próprios gostos, limites e os da outra pessoa.
Novamente, voltando ao início do texto: ninguém é igual a ninguém. E, sinceramente, que graça teria se relacionar com uma pessoa idêntica a você? A graça de estar com o outro é ter sempre uma janela para uma outra visão de mundo, é ver um mundo novo todos os dias. Todo o tempo que você passar longe do seu ser amado é importante para a formação da sua própria identidade – formação esta que, ao meu ver, acontecerá por toda sua vida. É como se a cada contato com o mundo longe do casal, você aprimorasse a vista dessa janela para o mundo, para que você e o outro possam apreciar mais tarde. Quando você se respeita, será sempre uma versão melhor e mais autêntica de si. E quando respeita o outro, você o libera para que seja uma versão melhor e mais autêntica dele também.

Mas e se eventualmente vocês ficarem verdadeiramente incompatíveis? Não tem problema, porque ninguém deve ficar com outra pessoa por amor.

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Raquel Abe está num relacionamento complicado consigo mesma há 26 anos, curte hackear receitas e quando dá na telha escreve umas besteiras pra tentar se encontrar.
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