Por que homens feministas não existem

por Alice Autuori Rosa

Vamos tentar ser bem didáticas aqui: homens feministos não existem; mulheres machistas também não – inclusive, enquanto escrevo, aquela barrinha vermelha que significa “palavra errada” aparece contínua no “feminstos”, mostrando que nem o termo existe.

Antes de começarem a me chamar de “misândrica feminazi” nos comentários, vamos tentar entender. A base da opressão  da mulher no sistema patriarcal que vivemos hoje é simples: os homens estão acima das mulheres em todas as esferas: na política, na mídia, no entretenimento, na educação. Em outras palavras, a sociedade é regida pelo machismo – a superioridade artificial dos homens sobre nós, mulheres.

Isso significa que os homens têm privilégios, como, por exemplo, ganhar cerca de 30% a mais de salário exercendo o mesmo trabalho que as mulheres. E esse é só um exemplo, mas as diferenças entre ser homem e ser mulher na nossa sociedade são muitas: homens não morrem abortando de forma clandestina; homens não precisam se preocupar o tempo todo se vão ser abusados verbal ou sexualmente nas ruas; homens não carregam a obrigação social (muito bem construída) de ter filhos; é compreensível que homens abandonem suas famílias e sequer paguem pensão; homens não precisam se depilar; homens não são julgados por usar roupas curtas ou por comportamentos ditos libidinosos; homens, enfim, são donos de seus corpos. Mulheres, não.

O que todos esses privilégios têm em comum? Todos são desigualdades – ou seja, só existem porque há um outro lado, que é a opressão da mulher.

Quando uma menino nasce, ele é socializado como um homem por causa do pênis, e passa a receber esses privilégios de que falei. Passa, também, e a receber a educação de como um homem deve se portar na sociedade, e isso é feito por meio de programas de televisão, de brinquedos e até pelos pais, dentro de casa. O homem é ensinado a ser valente, corajoso, mulherengo, forte, pegador e apático.

Enquanto isso, a menina aprende a ser recatada, delicada, educada, gentil pura e bonita (ou seja, dentro dos padrões cruéis de peso, alisamento dos cabelos, remoção dos pelos e vestuário). As brincadeiras de menina são todas relacionadas a cuidar de casa ou dos filhos. Muitos assuntos e ações, como a masturbação, por exemplo, nos são proibidos, e brincadeiras mais dinâmicas, como o futebol, são colocadas “coisas de menino”.

Em outras palavras, o homem aprende a ser machista e opressor; a mulher aprende a ser submissa. Esta é a raiz do problema e a resposta da nossa pergunta inicial.

O homem já nasce com os privilégios do gênero em que é socializado, e usufrui deles por uma pressão social. Se, como dissemos, esses privilégios só existem porque existem oprimidas, eles são privilégios machistas. Portanto, mesmo que o homem em questão não queira, mesmo que seja difícil e “feio” admitir, ele é sempre machista.

Mesmo que tente se desconstruir, o homem só consegue, no máximo, quebrar uma parte do seu preconceito individual (o que já é bem difícil). Mas o preconceito coletivo, esse é mais complicado. Ele se manifesta quando você vai para o seu emprego com 30% a mais de salário que sua colega de trabalho, ou quando você está voltando a noite bêbado para casa e passa por um grupo de homens e não se sente humilhado, ou quando você não é encoxado em transporte público, ou quando você pode sair sem camisa num calor de 37°C.

Esses privilégios não são uma escolha do homem como indivíduo. Eles são exercidos pela sociedade e, por isso, não dá para desconstruí-los sozinho. Quando você está concorrendo com uma mulher para um mesmo cargo, tendo um currículo igual, saiba que, mesmo assim, você tem vantagem sobre a menina, pois ainda se acredita que as mulheres obrigatoriamente terão filhos (já que nós existimos apenas para procriar), e que a empresa teria de pagar a licença maternidade (por isso que uma das pautas do feminismo é a licença paternidade, viu, você que achava que nós fossemos contra a isso).

Sabendo disso, o que você vai fazer? Deixar de procurar emprego? Não é um privilégio exercido por você, mas é dado a você sem direito a retorno. Sem contar o fato de que, por você ser homem e ter esses privilégios, você nunca vai sentir na pele o que é ser oprimido pelo machismo do jeito que nós, mulheres, somos.

Sendo assim, podemos responder nossa pergunta: não existem homens feministas, porque (1) eles nunca desconstruirão todo o seu preconceito e, consequentemente, (2) sempre serão opressores por mais que sejam desconstruídos individualmente.

Se você, homem, quer apoiar o feminismo, o termo correto seria “homem pró-feminismo”. Mas como reconhecer um “homem pró-feminismo”? Quem são? Onde vivem? Do que se alimentam? Segue uma listinha abaixo:

1. Entendem quem é o protagonista no feminismo (a mulher) e o lugar que eles, homens, têm nas lutas das minorias (não apenas na das mulheres, mas na luta negra, de classe, do movimento LGBT).;

2. Não chamam as mulheres de putas, vadias, cachorras, vacas, vagabundas ou qualquer outro termo que seja ofensivo apenas para o gênero feminino. Também evitam usar termos como “filho da puta” e tomam cuidado com piadas machistas, tentando mostrar inclusive para os “bróder” que isso não é legal, além de não brincar com temas como aborto, feminicídio e estupro;

3. Ouvem de boca calada quando uma mulher tenta apontar seu machismo, e não tentam ensinar para as minas como o feminismo funciona ou como ele deveria funcionar. Eles não silenciam mulheres em nenhuma discussão e não emitem opinião sobre aborto, culpabilização da vítima de estupro ou pornografia, pois entendem que a luta não é deles e que eles não têm como ensinar a uma mina sobre um assunto que ela sente na pele;

4. Principalmente, não se dizem “feministos”, e sim “pró-feminismo” ou “machistas em desconstrução”, pois compreendem a impossibilidade de serem feministas.

Taí a resposta para “como eu posso me desconstruir?”: ao invés de ficar tentando roubar a voz das minas (o que já é em si uma contradição), tente desconstruir seus amigos que enviam foto de menina pelada no grupo do whatsapp, ou aquele que solta um “volta pra cozinha” ou uma piada machista no grupinho, ou principalmente aqueles que vivem abusando de qualquer menina.

Se você é pró-feminismo de verdade, e não só pra para pegar mina, não fique calado entre seus amigos, com seus pais, com seu chefe, com professores. Não ignore, não diga que é exagero, não deixe pra lá porque é “bróder”: ajude.

Nós queremos maior visibilidade, nós queremos o opressor mais informado, mas também não temos que ficar de “babás feministas” para ninguém. Tentem ler textos, tentem se autocriticar e tentem, principalmente, nos ouvir.

Se você, “feministo”, leu esse texto inteiro e está me chamando de exagerada, será que não está na hora de repensar seu machismo?  😉

Existe mulher machista?
Na relação oprimido-opressor, o opressor é aquele que, ao exercer a opressão, se beneficia. No caso da nossa sociedade patriarcal, estes são os homens. Porém, quando mulheres reproduzem falas machistas, elas não se beneficiam com isso. Quando uma mulher fala que “lugar de mulher é na cozinha”, ela não está fora desse grupo “Mulher” que “deveria estar na cozinha”. Ou seja: a mulher que fala isso está se oprimindo. Talvez, ela ganhe alguns “benefícios” secundários, como ser aceita em um grupo de homens, mas esses “benefícios” são ilusões passageiras, porque na primeira oportunidade, ela será excluída do grupo – afinal, ela mesma disse que deveria estar na cozinha. Fala-se, nestes casos, que a mulher está “reproduzindo o machismo”, e não “sendo machista” .

alice
Alice Autuori Rosa, 16 anos, estuda na escola Nossa Senhora das Graças, é integrante do coletivo feminista Eu não sou uma Gracinha. Não fecha com esquerdo macho.
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135 comentários

  1. Olha, eu sou homem e eu discordo sobre a parte que não podemos opinar sobre o aborto, é claro que podemos, eu sou a favor do aborto por achará que Ngm merece ter um filho que não quer, pelas mortes nos procedimentos feitos de maneira clandestina e sem as devidas precauções, vc nem Ngm pode vir e falar que eu não posso dar minha opinião sobre o assunto, o demais eu concordo plenamente contigo.

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  2. Se ele é sempre machista…independentemente de qualquer coisa, como acabar com o machismo? Impossível? Como criar um filho não machista? Impossivel? Veja, eu sou feminista, e realmente estou querendo entender esse ponto de vista!

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  3. Alice Autuori realmente vc nao é uma gracinha vc é bem feinha e só tem 16 anos imagina quando vc tiver 30 que medo.

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  4. Sinta-se a vontade de sair na rua sem camisa. Eu sou homem e nunca fiz isso. Só quem faz é babaca que quer aparecer por seus músculos temporários para as menininhas feito vcs. MACHISTAS, FASCISTAS NÃO PASSARÃO!!! Esta,a famosa frase vomitada na cabeça de vcs para seguirem essa ideologia onde só as mulheres entre 29-14 anos adotam. Vamos refletir por favor. Cheguei aqui para saber se homens podiam ser feministas e agora sei que podem. Veja, quem é que vai dizer que uma pessoa não pode ser algo? Seria de acordo com o sexo do individuo? A internet é bastante ampla mas sempre que procuro algum texto feminista vejo os mesmos argumentos: Sair sem camisa, salário,etc. Vamos refletir, tentar fazer algo útil em vez de ficar perdendo o tempo com os mesmo argumentos. Se o homem quiser ser feminista, ele pode. Ninguém tem o direito de dizer se ele pode ou não ser. O que vai dizer se ele é ou não vão ser as ideias que ele defende e não uma menininha de 16 anos…

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  5. Discordo em muitos aspectos por exemplo:
    Quando diz que “os homens estão acima das mulheres em todas as esferas: na política, na mídia, no entretenimento, na educação.”

    * Na política: Somos um país democrático, político é eleito indiferente de credo, raça ou genero. Há mas determinado partido político não nos acolhe. Monte um ou procure um que acolha.

    * Na Mídia: Nunca em nossa história tivemos tantas mulheres nas mídias sejam sociais ou televisivas. Incluo entretenimento.

    * Na Educação: Sabia que a maioria dos professores são mulheres? Se não tem direito a educação não sei o que é isso. Porque nas faculdades e universidades a grande maioria é e mulheres. Só acho injusto a mulher dizer “Eu me formei com meu esforço” Em partes concordo mas no meu caso e de muitos amigos, cansei de levar e buscar filha em faculdade, ponto de ônibus me desdobrar para que ela se formasse ser o alicerce. Trabalho em conjunto.

    * “os homens têm privilégios, como, por exemplo, ganhar cerca de 30% a mais de salário exercendo o mesmo trabalho que as mulheres”
    Isso no privado ou público:

    Vamos por etapas:

    Privado: Sou negro, nunca tive grandes oportunidades e nem empresas. Se a empresa é de propriedade privada, em sua maioria de Homens brancos acho que é direito dele colocar para dirigir a própria empresa quem de fato ele desejar. Se ele vai se dar bem ou mal contratando um homem ou mulher depende dele. escolha dele.

    Quanto a questão salarial a CLT existe para isso, para isso servem as leis, se o cargo é o mesmo o salário é o mesmo isso é lei

    Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade, entre pessoas cuja diferença de tempo de serviço não for superior a 2 anos (art. 461 da CLT)

    Publico: os concursos são de igualdade para ambas as partes, todos tem os mesmos direitos e deveres. Basta estudar e passar.

    Público: Comissionados, indicados ou nomeados – Essa é uma questão política que no meu ver deve acabar. Indicações e facilidades só geram corrupção e desigualdades.

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  6. olha eu apoio o feminismo sou homem, mas me desculpe você falou algumas besteiras como a justificativa do feminISTO – é logico que não existe, lembre que machISTO tambem não existe pois o “ISTA” não é uma definição de genero sexual (ista é um sufixo do suf. grego. -istēs, designa o praticante de uma atividade ou o adepto de um movimento ideológico: ex oftalmologista, pianista, reformista) assim como o “ISMO”
    substantivo masculino – designa doutrina, sistema, teoria, tendência, corrente etc. sendo assim o termo feminista para homem existe pois “femin – ista” é a pessoa que é o adepto de um movimento ideológico, ideologia não depende de genero sexual, principalmente o feminismo que é um movimento de igualdade para que a mulher seja tratada de maneira equivalente ao homem, em contraponto existe o contrario de machimo que é o FEMISMO que literalmente é seu oposto e tão ruim quanto o machismo, ondem a mulher é superior ao homem, e o homem não tem e não pode opinar sobre, cuide para que você não confunda as coisas pois é oque esta acontecendo hoje em dia o feminismo esta deixando o foco da igualdade e virando FEMISMO
    outra coisa as mulheres ganham 30 % menos isso é verdade, porem isso é uma porcentagem relacionada a quantidade “carga horaria”e não a defirença de salario em um mesmo cargo, pelo fato de que as mulheres muitas vezes deixam seus empregos ou reduzem sua carga horario por opção propria para cuidar dos filhos, isso na sua maioria aqui no brasil, porem existem uma pesquisa que relaciona mulheres sem filhos e homens sem filhos onde as mulheres ganham mais que os homens pelo simples fato de que as mulheres em media são mais dedicadas e são mais consentradas do que os homens por isso acabam exercendo cargos melhores e salarios mais altos. se as mulheres ganhassem menos que homens exercendo a mesma função as empresas so contratariam mulheres pois as empresas buscam lucro apenas “afinal de contas nos vivemos no capitalismo” . eu não ando sem camisa com 37C somente dentro da minha casa sozinho, afinal eu tenho bom senso, eu sou a favor da igualdade, e sou contra esses homens escrotos e tarados que não podem ver mulher que viram macacos no cio. isso tudo oque eu disse são fatos não dependem de eu ser homem ou mulher são verdade, se não aceita a verdade é bom rever se você realmente é feminista ou FEMISTA

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