Mina: vá de bike sem medo!

por Lidia Ganhito

Em 25 de maio de 2015, ouvi o locutor do rádio comemorando que São Paulo havia batido a marca dos 8 milhões de carros. 8 milhões – MILHÕES – de carros. Para você ter uma ideia de quanto carro é isso, existem 101 países no mundo que têm população (de pessoas) total inferior a isso. É carro pra caramba e, obviamente, trânsito para caramba. O recorde de trânsito em São Paulo foi de 293km – mais do que a distância daqui até Ubatuba. Cidades que priorizam o transporte individual sofrem com engarrafamento, poluição e stress. São Paulo logo logo vai parar.

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Ilustra: Lídia Ganhito ❤

Na capital mais dependente de transporte individual do mundo, pensar em formas alternativas de transporte é uma necessidade. Em uma cidade pensada para carros, andar de bicicleta é um ato político. Além de ser mais rápido (não acredita? Olha aqui, ó), menos estressante, não poluente e mais saudável, é mais responsável com a cidade e com o planeta.

Claro que ser ciclista em uma cidade voltada para o tráfico motorizado não é fácil. Os carros acham que você atrapalha o trânsito, os pedestres acham que você é parte do trânsito, o busão passa dando ventinho… Mas, ainda assim, cada vez mais pessoas vem acreditando que vale a pena usar a bicicleta como meio de transporte, e o número total de ciclistas tem crescido em diversas cidades do Brasil.

Contudo, em SP, as mulheres são menos de 6% do total das pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte – abaixo da (já baixíssima) média nacional, que é 7%. Ou seja: ser ciclista e mulher em São Paulo é integrar a minoria da minoria. Mas por que as mulheres não pedalam?

Acredito que existam diversos motivos, todos perpassando questões de gênero. Desde pequenas, as mulheres são ensinadas a evitar ruas escuras, a não andar sozinhas à noite, a não passear por aí sem companhia – na verdade, mais que isso: sem companhia masculina (por que um grupo de mulheres é entendido também como um grupo vulnerável).

Em cima da bicicleta, a situação não muda – talvez até piore. Se o ciclista homem já se sente vulnerável frente ao trânsito agressivo, a mulher tem que enfrentar ainda as violências específicas de gênero. Além das fechadas propositais, o assédio verbal, empurrões e xingamentos fazem parte do repertório da ciclista que se aventura pelas ruas e ciclovias da cidade. Se no imaginário do machista “dirigir não é coisa de mulher”, pedalar é pedalar é dar carta branca para a misoginia.

Mas não devemos ceder! Quanto mais mulheres pedalarem, mais a sociedade machista vai ter que entender que lugar de mulher é, sim, onde ela quiser – inclusive em cima da bicicleta. Pensando nisso, redigi esse manualzinho de sobrevivência da ciclista, baseado na minha experiência em SP – mas que pode servir para qualquer cidade. São dicas bem básicas que podem dar uma esclarecida sobre o cotidiano de uma mulher ciclista em um ambiente urbano, e dar aquele empurrãozinho em quem tem vontade de começar a pedalar:

COM A CARA E COM A CORAGEM
A primeira dica é bem simples: VAI. Devido ao cenário que descrevi acima, muitas mulheres têm receio de se aventurar pela cidade em cima de uma bicicleta. Mas existe um dado básico sobre urbanismo e segurança pública que muitas vezes é esquecido: quanto mais pessoas na rua, mais segura esta rua se torna. Ou seja: quanto mais mulheres enfrentarem os medos e os tabus e subirem numa bicicleta, mais mulheres vão se sentir seguras a fazerem o mesmo. Então, vamos às ruas!

SE PROTEJA
Sim, nós temos que juntar coragem e sair de bicicleta por aí – preferencialmente na ciclovia, e na ausência desta, ocupando a faixa de rolamento (e não, nunca, a calçada – mais pra frente eu explico por quê). Mas não se esqueça que ainda morre mais gente no trânsito do que por homicídio em SP. A cultura da bicicleta ainda está sendo construída no Brasil e, neste período de transição, muitos motoristas acreditam que as pessoas em cima da bicicleta são as responsáveis pelo trânsito caótico (de carros) que está atrasando a sua vida. Isso pode ser traduzido em acelerações desnecessárias perto de você, uma ultrapassagem apertada só para parar no farol ali na frente ou mesmo uma fechada “para essa ciclista aprender aonde é o lugar dela”. Mesmo que o carro em questão não te atinja fisicamente, o desconforto por se sentir em situação de perigo pode te desconcentrar e pode causar uma queda. Ou seja: use sempre – SEMPRE – capacete.

Pessoalmente, acho mais confortável o tipo casco de tartaruga, muitas vezes vendido como capacete de skate. Mas isso vai de gosto. Ajuste todas as paradas direitinho e tenha certeza que ele está bem fixo em sua cabeça. É sério. Se você perder o controle e cair no chão, ele pode salvar tua vida.

Além disso, invista alguma grana para pimpar sua segurança na bicicleta: sinetinha, luzinhas na frente, atrás e no capacete (as mais baratinhas custam cerca de 20 reais, tem capinha de silicone e funcionam com bateria tipo de relógio). Se possível, use um colete reflexivo. Luvinhas são boas para dias de chuva, por que evitam que sua mão escorregue no guidão.

Outra coisa importante: mantenha-se atenta. Pedalar ouvindo música é uma delícia, mas lembre-se que é extremamente importante manter a atenção no trânsito. Ouvindo música, a chance de você não ouvir um caminhão buzinando enquanto se prepara para te ultrapassar loucamente aumenta. Lembre-se que você é o elo mais frágil do trânsito sobre rodas. Se cuida.

ESCOLHA SUA BIKE COM AMOR
Escolher uma bike não é fácil. Existem milhões de modelos, faixas de preço, cores, acessórios, etc. Para não ficar muito louca e não se arrepender, é importante fazer uma boa pesquisa antes de comprar a tua companheira de pedal.

Nessa pesquisa, você vai descobrir que existem “bikes” e “bikes femininas” – que é simplesmente um nome idiota para bicicletas com o cano central mais baixo. O cano mais baixo é ótimo por que facilita subir e descer da bicicleta – coisa que você vai precisar fazer e muito se estiver pedalando numa cidade que não tem estrutura viária decente, te obrigando a descer para cruzar semáforos, subir na calçada e empurrar a bicicleta quando a rua ficar treta demais, entre outros milhões de obstáculos.

Para iniciantes pedalando em cidades com muitos desníveis – como SP – eu recomendo uma bicicleta de 27 marchas. As marchas vão te ajudar e muito a vencer subidas. Ame suas marchas.

É importante regular bem a altura do banco. Para descobrir a altura boa para você, fique de pé do lado da sua bicicleta: o banco deve estar encostando na sua cintura, bem ali no famoso pneuzinho. Por muito tempo, usei o banco super baixo, mas me ensinaram que era isso que causava as dores no joelho e na lombar. Se você nunca pedalou na vida, tente se acostumar desde o começo com o banco alto. Se você já se acostumou com ele baixo, vá subindo aos pouquinhos até chegar na altura correta.

CONHEÇA LEIS DE TRÂNSITO
Em que faixa você tem que ficar? De quem é a preferência? Como sinalizar uma virada? Para garantir sua segurança e a dos outros, é fundamental que você saiba qual deve ser a sua conduta no trânsito. O Vá de Bike fez um texto ótimo explicando como é que você deve se comportar.

Recomendo a todas que leiam, releiam e leiam de novo esse artigo. Conhecendo bem seus direitos, você está muito mais segura e preparada para enfrentar eventuais conflitos com motoristas.

TENTE O DIALOGO. SE NÃO DER, RECLAME
Este ano eu comecei o longo processo de tirar uma carta de motorista (ainda não rolou nem começar as aulas práticas, mas um dia chego lá!). Durante todas as 20 aulas teóricas, em NENHUM momento o instrutor mencionou normas de conduta de e para ciclistas. Quando fui perguntar, ele disse que simplesmente não havia tempo hábil para abordar o assunto.

Na prática, isso significa que 100% dos motoristas NÃO TIVERAM nenhuma formação sobre como lidar com ciclistas na rua. Sendo assim, tenha paciência. Infelizmente, é sua função conhecer o código de trânsito e, quando necessário, tentar ensinar e dialogar com as pessoas que cometem infrações.

Por exemplo: você está atrasada para o trabalho, descendo uma ciclovia em uma ladeira de mão única que sobe. Bem perto de uma curva, você dá de cara com um moço na sua 4×4 estacionado na ciclovia sem o pisca alerta ligado, falando no celular.

O que fazer? Respire fundo, desça da bicicleta e vá falar com o cidadão. Explique calmamente que ao parar ali “por um minutinho só”, ele te força e sair da ciclovia e entrar em alta velocidade na contramão, colocando sua vida e a dos outros em risco. Se ele for uma pessoa razoável, vai pedir desculpas e sair de fininho, envergonhado de sua má conduta.

Contudo, sabemos que a maioria dos habitantes dessa maravilhosa cidade chamada São Paulo não são razoáveis. A situação descrita acima é baseada em fatos reais acontecidos com a minha pessoa: após abordar o cara calmamente e  sorrindo, recebi a seguinte resposta: “SUA PUTA MAL EDUCADA NÃO TÁ VENDO QUE EU ESTOU NO CELULAR? VAI INCOMODAR OUTRA PESSOA”. Ou seja: o cara está cometendo não uma, não duas, mas três infrações de trânsito e a “mal educada” é você – e o machista ainda te qualifica como “puta”, simplesmente por estar enfrentando ele.

Nesta situação, eu coloquei o meu melhor sorriso sarcástico na cara e disse “não se preocupe, ~senhor~, eu vou incomodar a agente da CET então, tá?”. Em seguida, me coloquei na frente do carro e comecei a tirar fotos da placa, de vários ângulos.

Ao fotografar o carro e o motorista, você a) está criando provas da infração e b) está expondo o motorista. Com as fotos em mãos, ligue 1188 – um canal da CET para emergências no trânsito (interferências na via, semáforos quebrados, rotas alternativas, veículos estacionados irregularmente) e faça a denúncia. Se possível, faça na frente do motorista (sempre tomando cuidado com a sua própria segurança. Não esqueça que vivemos numa cidade louca em tempos loucos). Mesmo que ele continue te xingando, ao te ver fazendo a denúncia, ele provavelmente será obrigado a ceder.

 

CICLOSOLIDARIEDADE
Uma das coisas mais legais de ser ciclista é que as outras pessoas em cima de bicicletas são maravilhosamente simpáticas com você. Por se saberem minoria na cidade, as ciclistas tendem a reconhecer e se solidarizar. Não sei exatamente de onde surgiu isso, mas existe uma cultura de dar bom-dia para quem cruza com você na ciclovia – e tem coisa mais bacana do que começar o dia com um bom dia sincero de alguém que você não conhece?

Então, aceite ajuda e ajude as outras (e os outros também). Ciclistas mais experientes conseguem reconhecer ciclistas iniciantes e estão super disponíveis para dar dicas que possam te proteger e te ajudar a chegar sem perrengue aonde você precisa. Ao contrário dos motoristas, que pensam nos outros motoristas como trânsito, ciclistas se reconhecem como parceria de luta. Aceite os toques e agradeça, por que a pessoa a) provavelmente já passou por isso antes e  b) está realmente muito feliz de dividir o espaço com você.

Essa solidariedade ciclística é tão grande e bem organizada que existe até um site para isso: o Bike Anjo. Bike anjo é alguém que vai te acompanhar nas primeiras pedaladas pela cidade. Enfrentar a cidade sozinha pode parecer aterrorizante das primeiras vezes, e ter alguém experiente do seu lado pode te ajudar a segurar a onda até conseguir criar uma intimidade com sua bicicleta e com os seus trajetos.

PEDESTRES SÃO AMIGOS, NÃO COMIDA
Na faixa de rolamento, você vai sentir na pele como é ser a base da cadeia alimentar. Mas não esqueça que existem pessoas mais frágeis que você: pedestres. Muitas vezes você ficará tentada a dar uma pedaladinha na calçada por conta do MonsterTruck que está ocupando a faixa da direita, mas seja educada e faça direitinho: se a rua ficar assustadora demais, desça da bike e retorne à posição de pedestre. Muitos pedestres reclamam que ciclistas “não levam multa então não respeitam nada”, e se sentem irritados de ter que dividir o já exíguo espaço das calçadas. Pense assim: como você se sente quando um carro invade a ciclovia? É a mesma coisa. Então, respeite a calçada como um espaço para pessoas a pé.

PODE SAIA, SIM
Uma das mentiras mais disseminadas no mundo é: você não pode andar de bicicleta de saia. Existem inúmeras soluções para este problema. O mais simples de todos é: ande com um shorts ou uma legging na mochila. Vista ela antes de sair de casa e tire quando chegar no lugar. Pronto.

Caso você tenha preguiça de ficar carregando uma muda de roupa o dia todo, existe um truque ótimo com uma MOEDA e um ELÁSTICO DE CABELO para facilitar tua vida em duas rodas (em inglês, mas dá para entender pelas imagens).

No começo, eu me preocupava bastante com a minha roupa, preocupada com possíveis assédios. Com o tempo fui começando a me sentir mais segura em cima da bicicleta e hoje em dia pedalo com a roupa que estou, calça, short, saia ou o que for. A bicicleta se tornou para mim um meio de transporte como qualquer outro, onde eu uso roupas que usaria em qualquer outro. O corpo é meu, as pernas são minhas, e eu pedalo de saia se eu quiser. Ponto.

BANHO DE GATO
Se você pretende usar a bicicleta como meio de transporte, vai suar. É fato. Mas com o tempo você vai perceber que isso não é tão dramático assim. Leve uma muda de roupa na mochila, faça paradas, beba água e assuma que sim, você é ciclista!

Aqui um videozinho (de novo, em inglês, desculpa!) explicando alguns truques para se manter apresentável depois de uma pedalada (mas, basicamente: tenha uma troca de camiseta – use lencinhos umedecidos – coloque uma bandana – se troque em um café)

A ARTE DA GAMBIARRA: CARREGANDO COISAS
Um problema comum da ciclista: onde carrego todas as minhas tralhas????? Eu sou uma estudante de artes que está sempre, sempre e sempre carregando todo o tipo de tralha para cima e para baixo. Por um tempo, considerava impossível usar a bicicleta como meio de transporte por causa da quantidade de objetos que eu tenho que carregar no meu dia a dia.

Contudo, um dia, resolvi tentar e vi que para cada problema técnico existem milhões de gambiarras. Na minha bicicleta, eu tenho uma cestinha e um bagageiro, além de uma bolsinha de guidão para colocar o celular. Me incomoda um pouco pedalar com a mochila nas costas, então comprei um alforje – uma bolsa de um ou dois bolsos que você pendura no bagageiro, deixando as costas livres. A Alforjaria faz umas lindas ❤

Para além disso, use sua criatividade: veja o que você tem ao seu redor e pense como aquilo pode ser usado para amarrar e carregar coisas. Cordas, barbantes, correntes, carrinhos de feira, caixa de feira, ganchos, gavetas…

Para se inspirar, você pode dar uma olhada no site Bike Hack (em inglês), ou no video “What Defines Duth Cycling”, que traz vários exemplos de pessoas pedalando com objetos grandes e enormes (só, por favor, IGNORE a parte em que eles não usam capacete. Você deve usar um capacete. Sempre. Use. Capacete.).

IMPORTANTE: Sempre respeite o seu limite e se cuide. Lembre-se que Amsterdan é a capital da bicicleta, e em São Paulo pessoas jogam tachinhas nas ciclovias só por que sim. Ou seja, tenha bom senso. Também é importante fazer pequenos trajetos para testar a funcionalidade da sua gambiarra antes de encarar uma avenidona movimentada.

Espero que estas dicas esclareçam alguns pontos e dêem um empurrãozinho para as minas que estão querendo se aventurar pelo pedal. Como mulheres, temos que lutar diariamente para termos nossos direitos respeitados, e em cima da bicicleta não é diferente.

No início, eu sentia muito medo do assédio dos motoristas, chegando até a desistir de usar a bicicleta como meio de transporte em alguns trajetos (por ser escuro, por eu estar de saia, por não estar com disposição para ouvir agressões verbais caso cruzasse com um motorista desrespeitoso…).

Com o tempo, fui me apropriando da rua e, quando rola um perrengue, tento me focar naquilo que disse lá em cima: mais gente na rua significa uma rua mais segura. Mais mulheres na rua, significa uma rua mais segura para as mulheres. Ou seja: vamos pedalar de saia por ai!  A participação das mulheres no cicloativismo ainda é pequena, mas, juntas, podemos mudar este quadro.

Caso queira saber mais sobre o assunto, a ONG Ciclocidade montou um Grupo de Trabalho chamado GT Gênero, que se reúne ao segundo sábado de cada mês na para levantar mais dados sobre o assunto. E tem também o livro The Common Sense of Bicycling (também em inglês).

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Lidia Ganhito, 23 anos, é paulistana. Estudou Artes Visuais no Instituto de Artes da UNESP, aonde desenvolve a Oficina Colaborativa de Modelo Vivo. É uma das organizadoras do Mercado da Minhoca e integrante fundadora do Coletivo Cinebunda. Trabalha como designer na Plateau Produções e também faz a curadoria de ilustração no site Antessala das Letras.
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