Não me depilo

por Helô D’Angelo

Não me depilo. Parei há alguns meses, quando minha pele ficou em carne viva depois de depilar as axilas com cera. Mesmo tendo me machucado, percebi que gastei, no total, quase R$250 para tirar os pelos das pernas, axilas, da virilha, do buço e das sobrancelhas.

Comecei a estudar sobre o assunto, para ver onde estava me metendo. E descobri que existem alguns mitos sobre a depilação:

  1. A depilação não é anti-higiênica: ao contrário, os pelos estão lá por um motivo, que é a proteção. Pelos pubianos, por exemplo, evitam a entrada de bactérias na vagina. Além disso, pelos na axila na verdade combatem o cecê e ajudam a diminuir o suor.
  2. O padrão de beleza depilado não é super antigo: na verdade, as mulheres não eram coagidas à depilação até o final do século XIX e início do século XX, quando começou a nossa entrada no mercado de trabalho, e quando apareceram os primeiros vestidos sem manga. No âmbito do trabalho, éramos obrigadas a tirar nossos pelos para que os colegas homens não ficassem excitados (como se isso fosse mudar alguma coisa); no âmbito da moda, os anúncios dos vestidos já vinham  com as modelos depiladas. E daí foi um salto: quando as saias começaram a subir, os pelos começaram a sumir. Então não: não é natural.
  3. pelos têm muitas terminações nervosas. Por isso dói na hora de arrancá-los… e por isso eles aumentam o tesão na hora do sexo 😉 #ficaadica

Por que não se depilar? Que é caro e dói, todo mundo sabe. Mas já parou para pensar que não tirar os pelinhos é um ato político?

Eu sei como é: você se incomoda com seus pelos, acha que eles são feios e masculinos. Não é machismo, é você que não se sente à vontade, e você deveria ter liberdade de escolher, né?

Uma amiga minha uma vez disse que só é escolha se as duas opções forem viáveis, equilibradas e possíveis. Se nem passa pela sua cabeça cultivar seus pelos porque você se sente mal e feia com isso, será que realmente é uma escolha? Ou será que é um padrão de beleza construído e imposto? Fica aí a reflexão.

A depilação e a cultura pedófila Já viu criança com pelos? E adulto naturalmente sem?

Nós, mulheres, somos constantemente infantilizadas. Essa infantilização é, na nossa cultura machista, sexy: quantas vezes você já foi chamada no diminutivo (gatinha, putinha, novinha)? Quantas vezes já foi subjugada por um homem que “sabia mais” que você ou que era “mais forte” que você? Quantas vezes já viu mulheres mais velhas se enchendo de botox para “diminuir uns anos”? Quantas vezes já ouviu que “homem só gosta de pepeca depilada”?

Gente, acorda: pepeca depiladinha é pepeca de criança! Mulher tem pelo. Mulher menstrua. Mulher sua, tem cheiros, secreções. Se você, homem, não gosta disso, talvez seja melhor admitir que não gosta de mulher, gosta de outra coisa. Aceita que dói menos.

Esse tesão pelo impúbere é doentio. Mas faz sentido: mulheres sem pelos lembram crianças, e crianças são facilmente domináveis. E essa sensação submissão está a serviço da insegurança dos homens – e consequentemente do machismo.

Acha que eu estou exagerando? Então me fala: quantos homens que você conhece se depilam?

Minha experiência com os pelos Parar de me depilar não foi uma decisão fácil. E, até hoje, é muito difícil.

No começo, as pessoas ignoram. Resolvem que você não teve tempo de se depilar, que esqueceu, então tudo bem. Você mesma fica acanhada de usar regatinhas, com medo de ~ofender~ as pessoas. Você fraqueja várias vezes e raspa os sovacos. No ônibus, você faz de tudo para não pegar na barra de cima e ser obrigada a levantar o braço. Você evita saias e shorts, porque sente que as suas pernas parecem pernas de homem.

Tudo porque você ainda não aceitou que é dona do próprio corpo e que a opinião dos outros não importa.

Minha dica é: fique firme! Não se acanhe e se acostume com olhares furtivos. Tá tudo bem, pensa que você está se amando, lutando e sambando na cara da sociedade ao mesmo tempo em que combate microorganismos malignos e o machismo enraizado ❤

O que muda? A primeira regata com pelinhos é libertadora. Você percebe que as pessoas não ligam tanto assim e que é divertido mostrar seus brotinhos para as pessoas que efetivamente ligam – simplesmente porque o corpo é seu e porque elas não mandam em absolutamente nada nele. Ser livre na prática é gostoso!

Você percebe, com o tempo, o quanto sua pele fica macia, sequinha e sem pelos encravados. A candidíase diminui consideravelmente, assim como o cecê, e um dos seus vícios passa a ser acariciar os pelinhos macios das pernas. ❤

E a família? Os amigos? O namorado? A namorada? Miga, vamos combinar: você tem que estar nessa por si, e não por ninguém mais. Seu corpo, suas regras. Respondido? 😉

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Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer quando terminar a faculdade de jornalismo.

* ilustração: Helô D’Angelo

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11 comentários

  1. Amei, muito bom post!
    Concordo que temos que fazer o que queremos é não o que as outras pessoas pensam que vamos ou não fazer.

    Curtir

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