Eu, Tu, Elas cobrem: Fórum #FaleSemMedo

por Marina Braga

O Brasil possui hoje sete milhões de estudantes nas universidades, população essa que se renova a cada ano com a formatura dos que completam a graduação e a entrada daqueles que passam no vestibular . Entre faculdades públicas e particulares os trotes, as festas, os eventos esportivos, as torcidas organizadas, compõem o ambiente universitário, onde é possível notar um tipo de comportamento padrão por parte de alunos, professores e diretores que implicam em um estilo de vida obrigatório para mulheres que também fazem parte dele.

Percebendo e comprovando isso, o Instituto Avon, em parceria com o Data Popular, realizou uma pesquisa com 1823 universitários (60% mulheres e 40% homens) de todo o país. O resultado entristece, porém não espanta aquelas que fazem parte desse ambiente: 67% das universitárias já sofreram algum tipo de violência.

Entre os dados, os que chamam mais atenção são aqueles obtidos a partir das entrevistas com os garotos: muitos admitem que há violência no meio, porém não reconhecem que os próprios atos fazem parte do problema.

#FaleSemMedo
O resultado dessa importante pesquisa foi lançado no 3º Fórum Fale Sem Medo, organizado pela Avon. O evento reuniu membros de coletivos universitários, professoras, especialistas, juristas, pesquisadores e, entre tantas, ainda contou com a ilustre presença de Maria da Penha, que comemora 10 anos de aprovação da Lei que carrega seu nome.  Durante a programação falas e considerações relevantes foram feitas a fim de expôr as causas e consequências dessa trágica realidade.

A antropóloga e pesquisadora Débora Diniz iniciou o Painel “Falando sem medo” com a temática da construção da cultura machista. Em uma fala de aproximadamente 15 minutos, ela enfatizou justamente a necessidade de questionarmos as raízes, isso é, de onde o problema vem. Segundo Débora, inspirada na teoria célebre de Simone de Beauvoir, nós nascemos matéria e é com a construção dos gêneros que se dá o regime de poder.

Ela também ressaltou que a universidade é o “templo civilizatório”. O homem, que antes era aprendiz, ali passa a ser um reprodutor da masculinidade. Assediam, forçam, agridem fisicamente, estupram, desqualificam intelectualmente, ofendem, xingam, humilham. Enquanto isso, o medo se transforma na linguagem do gênero feminino, que faz o uso dela para sobreviver aos ataques, que naquele ambiente se intensificam. A pesquisa mostrou que 36% das mulheres já deixaram de fazer alguma atividade na universidade por medo de sofrer violência.

O perfil do agressor e irresponsabilidade das reitorias
A ponte com essa fala foi feita pela Promotora de Justiça Silvia Chakian, que explicou que o perfil do homem que violenta também é um complicador nesse processo: ele é o bom moço, que está dentro da universidade, que é bem informado. Está longe de ser o “mito do estuprador”, o homem desconhecido dos becos escuros. Então, como pode esse jovem rapaz ser um caso de punição?

Silvia destacou com veemência o papel das próprias universidades no combate a perpetuação da violência de gênero. As reitorias e diretorias agem com terrível irresponsabilidade e seu papel é também um grande reforço à cultura, pois, as poucas denúncias corajosas que recebem das alunas são tratadas com desprezo.

O pior é que a solução preferida é a de achar um modo de culpabilizar a vítima e abafar o caso da melhor maneira possível, para que, assim, a “boa reputação” da instituição seja mantida.

A Promotora considera criminosa tal atitude, por ser conveniente ao crime. Ainda defende que o raciocínio está completamente invertido, mas alerta para o fato de ninguém liga para isso, afinal, as mulheres não sabem como proceder e tem medo de continuar questionando.

Relações de poder e casos de abuso
Essa realidade, contudo, pode ser encarada como um reflexo da sociedade patriarcal e conservadora na qual vivemos. Afinal, os próprios cargos de poder dentro das universidades são dos homens e o regimento de várias delas são do tempo da ditadura militar, isso é, passam longe de ser representativos.

Em um nível menor, mas ainda assim poderosíssimo, a figura do professor é considerada altamente intimidadora por muitas alunas, que, em sua maioria, já sofreram com chantagens sexuais em troca de notas ou aprovações nas matérias lecionadas.

Ninguém é punido: o abuso vira piadinha
A USP apareceu em peso no Painel: uma professora e uma aluna da Faculdade de Medicina também tiveram tempo de fala no evento. A primeira, Ana Flávia d’Oliveira, pautou a importância da assistência e do acolhimento por parte da reitoria.
Atuante da Rede Não Cala, a professora também ressaltou que a universidade é um ambiente homogêneo que forma excelentes profissionais sem ética alguma.

A partir de sua experiência, contou que mesmo depois da acusação, “nada acontece, ninguém é punido e piadinhas são feitas, porque todo mundo fica sabendo o que aconteceu”.

Ela ressaltou que, depois disso, há um processo de “revitimização da vítima”, que vira alvo de desqualificação intelectual. O humor, a mais sinistra forma de destratar a violência, faz com que as mulheres sintam-se ainda mais culpadas e percam pouco a pouco a força que conseguiram juntar.

“Era só uma brincadeira”, “você precisa encarar a vida com menos seriedade”, dizem eles. Mas 71% das entrevistadas dizem conhecer casos de agressão moral ou psicológica no ambiente universitário. Ana Luíza Cunha, aluna de medicina e integrante do Coletivo Geni, falou da bravura das estudantes uspianas de baterem de frente com as opressões “mais óbvias, assim como com as naturalizadas e veladas”, disse ela.

“Não suje o nome da faculdade”
É comum que nas faculdades haja um apego a certas tradições e, consequentemente, ao próprio nome da universidade. As tradições se somam ao argumento da diversão para justificar a violência que os colegas de sala cometem. Os gritos das torcidas organizadas são um exemplo claro disso e também foram incluídas na pesquisa. Contudo, após questionados se já cantaram junto à torcida músicas de incentivo ao estupro, por exemplo, apenas 8% dos homens responderam positivamente.

Ana fez ainda importantes recortes em sua fala: “O feminismo universitário é uma realidade de poucas, principalmente porque a maioria das feministas daquele ambiente são brancas e de classe média”.

Pegando o gancho do Fórum, ela acrescentou: “Falar sem medo requer um espaço seguro para que a mulher, de fato, sinta-se segura e é o que esses coletivos que vem ganhando força nas faculdades representam”. É possível notar que as frentes feministas empoderam e criam certa conscientização dos próprios privilégios das universitárias, que devem pensar na militância dentro daquele ambiente de maneira fazer intersecções com outras violências institucionais como o racismo.

Violência contra a mulher: um panorama
Ao final do evento, uma atração internacional: o educador e ativista Jackson Katz, também palestrante do TED, fez críticas essenciais aos próprios homens. O estadunidense iniciou sua apresentação revelando o incômodo que sente ao pensar no termo “violência contra a mulher”:

“É a violência que metade da população sofre, mas ninguém diz quem a pratica. Seria uma consequência da chuva? Seria uma consequência do tempo bom? Não: é uma questão dos homens, pois são eles que praticam isso.”

Jackson defendeu, entre outros, o argumento de que a mídia é responsável por isso quando noticia, por exemplo “x mulheres foram estupradas” ao invés de “y homens estupraram tais mulheres”.

É triste constatar, enfim, que um ambiente que deveria ser seguro e voltado à continuidade da educação e à inserção de jovens na sociedade e no mercado de trabalho, é, na realidade, um espaço para que os homens exerção livre e espontaneamente os mais diversos tipos de violência contra a mulher.

Os que estarão muito em breve na liderança do país tem consciência de seu poder e da impunidade para com seus atos criminosos. Com dados como esses mais debates podem ser gerados a fim de que soluções sejam estudadas, pois a transformação desse cenário é urgente.

11665530_10153530500196979_4258076646168559940_n
Marina Braga é a autora desse texto. Ela é feminista e está na universidade.
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s