Eu, Tu, Elas entevistam: Juily Manghirmalani, diretora do documentário “Viver de mim”

por Helô D’Angelo

“Mulher. Sexo. Mulher e sexo. Sexo e mulher. Mulheres fazem sexo? Querem fazer sexo? Podem fazer sexo? Podem querer falar de sexo? “Viver de mim” é o retrato de 5 mulheres bem diferentes que moram em São Paulo e suas visões sobre ‘ser mulher’, sexo, orgasmo, relacionamentos e filhos”.

Assim é a descrição do documentário “Viver de Mim”, uma realização do Coletivo Lumika com direção de Juily Manghirmalani. Partindo das narrativas de cinco personagens bastante distintas entre si, o filme trata do maior tabu entre os tabus: a sexualidade feminina.

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Mulheres falando de sexo: um tabu quebrado em “Viver de mim”

A Juily tem 25 anos e é formada em Audiovisual pelo Centro Universitário Senac. Em entrevista, ela conta para o Eu, Tu, Elas como surgiu a ideia do documentário, quais foram as maiores dificuldades de trabalhar com mulheres tão diversas e quais os momentos mais marcantes desse trabalho. Olha só:

Eu, Tu, Elas: de onde veio a ideia de fazer o filme?
Juily: uma das ideias do Coletivo Lumika é abrir diálogos e questionar algumas regras impostas socialmente. Nossos primeiros trabalhos abordaram a temática de diversidade sexual e a relação com gênero é algo muito próximo disso.

Dentro do Coletivo, já estávamos pensando em um próximo trabalho que tivesse maior relação com essa discussão de gênero. Foi quando abriu o edital Carmen Santos em 2013. Esse edital possui como foco incentivar políticas públicas entre mulheres e cultura, viabilizando produções feitas por mulheres.

Então fechamos uma equipe que tivessem o maior número possível de cabeças de equipe mulheres, isso inclusive contava pontos no edital. Ele também exigia uma temática relacionada a esfera do “feminino”. Pensando o que seria isso, sentamos pra escolher qual discussão gostaríamos de trazer a tona em um filme.

Decidimos o “ato de falar sobre sexo” como tema quando, em conversa com algumas meninas da equipe, notamos o quão conflituoso um assunto que parece tão simples é. O quão difícil é pra algumas de nós falar em público sobre certas coisas relacionadas, com a própria família, com amigas, inclusive pensar o que esse assunto socialmente significa e nos afeta. Creio que não é possível falar sobre sexualidade feminina sem esbarrar em assuntos como machismo, por exemplo. E foi nessa linha que selecionamos o tema do “Viver de Mim”

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Elementos que compõem cada personagem têm importância na apresentação

E o nome, de onde veio?
Foi tão difícil escolher um nome, você nem imagina (risos)! Entramos no edital com outro título, mas, durante o processo, vimos que ele poderia ser compreendido de formas que não gostaríamos.

Chegamos no “Viver de mim” depois de conhecer as entrevistadas e ver como elas são  fortes. O nome passa algo de auto suficiente e força, também por isso.

Você pode falar um pouco sobre as personagens? Como foi o processo de escolha dessas mulheres?
Fizemos uma busca interna de vários perfis que achávamos importantes representar. Queriamos opiniões e visões diferentes sobre o assunto. Não fizemos casting aberto: fomos atrás de pessoas que conhecíamos e que tinham perfis bem diversificados.

Em nossa pré-produção nos encontramos com cerca de 21 mulheres até fecharmos as cinco. Algumas que queríamos não toparam participar. Para o tempo que tínhamos (o edital exigia 26 minutos), achamos que cinco seria um número bom. Mais do que isso prejudicaria um pouco o tempo de discurso, infelizmente.

Nosso roteiro tinha como prioridade achar mulheres com diferentes opiniões, cis e Trans, de idades e classes diferentes.

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As personagens escolhidas são extremamente diferentes entre si. Por isso, cada uma traz uma visão própria da sexualidade feminina.

Quais as maiores dificuldades de abordar um tema como este?
Olha, é muito difícil conseguir fundos pra falar sobre assuntos como esse. Esse edital abriu as portas, de certa forma.

Temos mulheres brilhantes no audiovisual e que enfrentam grandes dificuldades para assumir cargos maiores pelo simples fato de serem mulheres, falando ainda do apoio do edital a cabeças de equipe. Ter um número maior de mulheres na parte criativa do processo ajudou muito a chegarmos no resultado atual do filme.

Creio que, hoje em dia, temos mulheres mais empoderadas e que aceitam falar sobre assuntos que antes eram mais difíceis, e por isso também acaba por ser um filme que fala do nosso momento no país. Por isso acabou não sendo tão difícil achar as personagens.

Mas, de alguma forma, ainda estamos vivendo um processo. Escolhemos filmar nas casas delas, porque lá elas se sentiam mais seguras e confiantes de falar sobre essas questões [de seuxalidade]. Notamos nas entrevistas que lugares públicos dificultavam a interação e imersão na temática pra algumas delas.

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Tesão, feminismo e feminilidade são temas abordados de forma delicada, mas incisiva, no documentário.

Qual o momento que mais marcou neste processo?

Vários momentos foram emocionantes. Mas o que mais me tocou foi ver elas falarem de experiências pessoais e ter coragem de se expor pro filme.

Sabemos que é uma pergunta difícil, mas queremos saber: o que é ser mulher para você?
Realmente, é uma pergunta difícil de se responder.

O sistema binário de gênero é complicado, definir o que é ou o que não é ser mulher pode ser muito problemático, até de um ponto de vista pessoal e subjetivo. Eu concordo com a Melissa [uma das personagens do filme] quando ela fala que é um sentimento de coletivo. É poder se identificar com outras pessoas dentro de tantas normas sociais que nos são impostas.E dentro disso, aprender a lidar com essa diferença, com essa polarização e conseguir ser a pessoa que gostaria de ser.

Para mim, ser mulher é necessariamente precisar ser forte, mesmo quando a gente não sente ser. 

Opiniões podem mudar com o tempo, mas acho que isso foi o que mais aprendi com o documentário.

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A entrevistada: Juily Manghirmalani tem 25 anos e é formada em Audiovisual pelo Centro Universitário Senac desde 2012. No momento, ela está fazendo mestrado na UFSCar em Imagem e Som, e trabalha nas áreas de direção de arte e edição.
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A entrevistadora: Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que fazer quando terminar a faculdade de jornalismo.
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