Reguladores de humor: às vezes, precisamos de ajuda

por Bia Morra

Vinte gotas transparentes. Só isso. Não chega nem a encher uma colher, mas é o suficiente para causar desconforto e vergonha.  Por que é tão difícil assumir que, às vezes, precisamos de uma ajuda externa pra ficarmos bem? Por que precisamos estar espontaneamente felizes e sorridentes o tempo inteiro?

Faz um ano que comecei a tomar remédio controlado para regular o humor. Mas não faz nem um mês que meu próprio pai sabe disso. Muitos amigos – próximos, até – nem desconfiam. Eu mesma me negava tanto que preferia não tomar, mesmo sabendo que seria pior para mim.

O preconceito é, na maioria das vezes, muito mais interno do que externo.
“Eu não quero depender de remédios para ser feliz e estar bem”, era o que eu dizia – entre lágrimas – para a minha mãe e para a minha namorada. As duas me incentivavam a tomar o medicamento, mas só eu poderia me obrigar a contar essas vinte gotas todas as manhãs.

Até que, finalmente, meu orgulho cedeu. Comecei a tomar todos os dias, certinho, e com o tempo fui melhorando. É gradual, mas perceptível. De repente, eu tinha ânimo e disposição pra acordar mais cedo todos os dias e ir para a academia. Cumprir as (tão simples e tão impossíveis, ao mesmo tempo) tarefas diárias, deixou de ser um desafio.

Obviamente que eu ainda fico triste. Ainda me chateio. Ainda tenho meus momentos de maior sensibilidade e choro à toa. Mas são menos frequentes. Menos infundados.

Não é vergonha nenhuma passar por um momento de dificuldade emocional. Não é por que temos uma vida privilegiada que não temos conflitos internos. Que não podemos ficar mal. Não há nada de errado e ninguém vai nos amar menos por isso.

Superada a vergonha, aprendi, acima de tudo, a pedir ajuda. Ninguém tem obrigação de estar sempre bem, mas é muito mais fácil melhorar com o apoio dos que se importam. Com o incentivo deles à tomar pequenas-grandes atitudes que vão nos fazer bem, mas que nosso orgulho nos impede de começar sozinhos.

A autora
Bia Morra tem 21 anos e é (quase!) formada em Multimeios pela PUC-SP. Ela é fotógrafa amante de palavras, de Nutella e de bichos de estimação com nomes de comida (oubebida).

Observação:
O texto da Bia é especificamente sobre não ter vergonha pedir ajuda quando se tem problemas emocionais. Mas nós, do Eu, tu, elas, lembramos que tomar remédios como reguladores de humor ou antidepressivos sem o acompanhamento de um psiquiatra e de um psicólogo NÃO funciona a longo prazo.

A automedicação pode até parecer uma boa ideia no começo, mas  não resolve a raiz do problema.

Procure ajuda médica para que você consiga ficar emocionalmente melhor o mais rápido possível. Se precisar de indicações de modos baratos de fazer terapia, entre em contato com a gente ❤

 

 

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4 comentários

  1. Acho que nunca cheguei a temer o que os outros pensam, mas assumo que a maior dificuldade realmente é pensar que talvez tenha que ser pro resto da vida. O pior é a periodicidade com que alguns remédios começam a perder efeito e temos que mudar tudo… É foda. Mas vamos na luta.

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  2. Concordo que não devamos ter vergonha de passar por problemas emocionais. Aliás, a sociedade sempre me fez me sentir mais fraca porque sou sensível, e faz muito pouco tempo que eu passei a enxergar isso como parte da minha força. No entanto, não sou a favor dos remédios para controlar o humor. Não sou especialista a ponto de dizer que em nenhum caso eles sejam realmente necessários, mas em geral os processos depressivos e/ou de ansiedade e alteração anormal do humor (processo depressivo não é depressão em si) são causados por insatisfações com o nosso mundo interno e externo, e são processos importantes para identificar quando precisamos mudar algo em nossas vidas. Os remédios tendem a mascarar essas necessidades que pedem que nós olhemos para dentro e descubramos como é nossa dinâmica psicológica e como podemos negociar melhor com ela e com a nossa realidade. Na minha família muitas mulheres acabam usando aquele “remedinho” emergencial pra sempre porque quando tentam parar de tomar a “bad” volta e muitas vezes ainda pior. Isso acontece porque o remédio faz nosso organismo se “sentir bem” e acabamos não buscando resolver as questões profundas acerca do que sentimos. Tenho preconceito sim com muitos psiquiatras e neurologistas que sempre indicam apenas o tratamento com remédios, e não indicam uma análise ou terapia. O autoconhecimento é a forma mais poderosa de lidarmos com as nossas questões mais complexas e profundas e creio que se realmente você “precise” tomar remédio ainda assim a terapia não deveria ser descartada pois o remédio não soluciona suas questões, e elas continuam ali. Digo tudo isso pelo que vejo de pessoas próximas que eu amo e também por experiência própria.

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