Existe estupro dentro do relacionamento (TW)

Eu tinha 18 anos e namorava o Francisco* há um ano meio. A gente se dava bem, o relacionamento tinha altos e baixos e, como qualquer primeiro namoro duradouro, vivíamos um pelo outro.

O fato de alguém me querer apaziguava um pouco a minha enorme insegurança. Aos poucos, fui me apagando no relacionamento. O Francisco era o típico cara legal. O cara que todas as meninas esperam namorar um dia: romântico, tocava violão, era engraçado, bonito, sarado. Ele também vivia repetindo o quanto me respeitava.

Uma noite, ele deu uma festa na casa dele e todos os convidados ficaram sabendo que eu “perderia a virgindade” naquele dia. Cada pessoa que ia embora da festa me dava uma olhada de “boa sorte” que me fazia encolher de nervoso. Quando ficamos sozinhos, eu dei para trás, disse que não estava pronta, que estava com medo. O Francisco ficou bem puto e soltou:

Já estava tudo combinado e agora você quer miar? O que a gente vai falar pra todo mundo? Sacanagem”

Na minha insegurança, entrei em pânico com medo de perdê-lo e acabei cedendo. Sem o menor tesão, eu estava zero lubrificada, além de estar morta de medo e muito nervosa, porque não sabia o que fazer. Quando ele acabou, corri para o banheiro e fiquei em posição fetal por vários minutos, chorando.

Eu acabei machucando feio a mucosa da vagina e tendo que cauterizar. Todo o processo me deu candidíase crônica – uma infecção tão forte que eu não conseguia levantar da cama de tanta dor. Mesmo assim, o Francisco ficava emburrado quando a gente passava mais de duas semanas sem transar:

A gente é namorado, e não amigo. Tem que comparecer. Se coloca no meu lugar, é chato. Homem tem mais tesão que mulher”

Aos poucos, acabei engolindo minhas aflições e me convencendo de que sexo era aquilo e pronto.

Meses depois, fui viajar com duas amigas para a Bahia. Uma noite, enchi a cara de catuaba e fiquei falando de sexo com uns caras que também estavam no hotel. Surpresa: senti tesão de verdade pela primeira vez na vida. Fiquei encantada. Mesmo assim, não rolou nada e voltei para o quarto.

No dia seguinte, porém, me senti super culpada. Chegando da Bahia, contei tudo para o Francisco – afinal, ele era meu namorado e eu achava importante dividir o que eu sentia com ele, porque confiávamos um no outro e eu estava confusa, porque realmente gostava dele. Pedi desculpas e disse que não tinha acontecido nada, mas que eu havia tido vontade.

Naquele instante, ele me soltou e parou de falar comigo. No dia seguinte, íamos viajar juntos para a Espanha, uma viagem que minha família programara há meses. O Francisco não olhou na minha cara durante todo o percurso até o aeroporto. No avião, falamos sobre o assunto, mas mesmo assim ele continuou distante. Disse que precisava pensar se me perdoaria.

Os dias que seguiram foram um terror. Ele me tratava super bem na frente da minha família e, quando íamos dormir, mal me dirigia a palavra. Eu pedia desculpas toda noite antes de dormir, mas ele só me respondia com um seco

não sei se posso confiar em você”

Uma mistura de culpa, insegurança e ódio contra mim mesma começou a me dominar. Eu não aguentava mais aquela situação. Então, uma noite, eu tive um ataque de choro e disse que ele podia fazer o que quisesse comigo, se isso fosse garantir o perdão dele. Eu disse que ele podia me xingar, me bater até me comer à força.

E foi o que ele fez.

Enquanto eu chorava compulsivamente, ele me segurava, me fodia e me dizia que eu era uma vagabunda que havia traído a confiança dele. “Puta”, “escrota”, “nojenta”, “traíra” foram algumas palavras que eu ouvi, entre tapas, enquanto esperava que tudo aquilo terminasse.

Quando tudo finalmente terminou, eu chorei e ainda tentei abraçá-lo. Mas ele se esquivou e disse:

Agora você está chorando para me fazer sentir culpa. Mas a culpa é toda sua. Você pediu isso. E você mereceu”

Por muito tempo, eu senti culpa pela situação. Afinal, eu havia literalmente pedido por aquilo. E pior: na minha cabeça, eu havia merecido por ter ousado sentir atração por outra pessoa.

Depois de muita terapia, eu percebi que não foi culpa minha. Nenhuma ação minha pode justificar a violência que eu sofri naquela noite, na Espanha – violência sexual e psicológica que ficou colada por meses na minha cabeça, amarrada à minha insegurança e à certeza de que eu havia, finalmente, fodido com o relacionamento perfeito.

O Francisco era meu namorado, mas isso não dava a ele o direito de me comer contra minha vontade. Em nenhuma situação: nem na nossa primeira vez, nem “para comparecer”, nem muito menos para me “perdoar” pela traição hipotética.

Nada dá a ninguém o direito de te machucar.

Hoje, eu percebo o quanto ele era infantil. Ele era um menino, acostumado a ter todas as vontades atendidas, a ser desejado e admirado por todos. Quando eu – tão submissa – violei a vontade suprema de filho único dele, ele ficou furioso. Não conseguiu aceitar que, talvez, eu pudesse sentir tesão por outras pessoas. Patético.

Hoje, eu sei que não fiz nada de errado. E hoje eu consigo encarar que o que ele me fez tem nome: foi um estupro.

* A autora pediu anonimato. E é claro que a gente deu. Por isso, alguns nomes de lugares e pessoas foram trocados.

 

 

 

 

 

 

 

 

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8 comentários

  1. não entendi bem o texto, não querendo dizer que foi culpa sua mas… era só falar não na primeira vez
    se ele tentasse algo mais vc tava numa festa que todo mundo conhecia ele
    você cedeu por…? insegurança?
    isso pra mim só mostra uma pessoa fraca

    e depois voce pediu pra ele te comer a força se quisesse? isso nao faz sentido nenhum pra mim

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    • Oi, anônimo.

      Você sabe o que é “empatia”? Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro e perceber que poderia ter sido você.

      Você não tem isso, pelo seu comentário.

      Não precisa fazer sentido para você.

      E mesmo querendo dizer que não foi culpa dela, você disse. E ainda chamou a menina de fraca.

      Pedimos que repense o que você disse e esperamos de corações que você nunca passe por algo assim.

      Abraços

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      • ja repensei, eu tenho empatia mas não posso deixar de analisar as coisas como elas aconteceram, se fosse comigo eu simplesmente não daria pra ele pq eu n sou obrigadx, e nunca falaria pra ele fazer alguma coisa q eu n gostaria comigo, eu simplesmente ia chutar a cara dele no chão e terminar com ele

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      • eh loucura aceitar um garoto covarde controle o que fazer com seu corpo, o primeiro vestígio disso foi a chantagem emocional pra perder a virgindade, não tem pq se aproximar de homens cusoes e covardes essa eh mina opinião

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      • pq eh mt fácil denunciar anos depois, vocês têm que serem fortes pra chegar e dizer não, pra se algum cara for um idiota com você e ele for tão próximo e conhecido q você possa simplesmente de meter o louco e falar, não sou obrigada a nada seu merda.
        enfim, desculpa se eu ofendi e sei que foram momentos horríveis e difíceis, mas essa eh minha opinião, força aí é boa sorte

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  2. Já passei por algumas situações parecidas com meu ex. As agressões foram tanto psicológicas quanto físicas, demorei mais de 8 meses para perceber que aquilo era errado…

    Curtido por 1 pessoa

    • É sempre muito difícil mesmo. Geralmente, a vítima é culpada e posta como “idiota que não soube dize não”. Mas não é assim, ninguém sabe pelo que você passou e a força que você teve que ter para seguir avida depois disso.

      Muita força! ❤

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