Por que eu parei de usar maquiagem

por Helô D’Angelo

Até os 17 anos, minha pele era lisinha. Só comecei a ter acne de verdade quando entrei no cursinho, um dos lugares mais estressantes, machistas, competitivos e inóspitos que já frequentei. Mesmo com todas essas fontes explícitas de stress, foi só a primeira espinha brotar que uma das minhas amigas já berrou:

“AMIGA! Sua pele está horrorosa! Passa uma maquiagem”

Fiquei desesperada. Minha autoestima já não era das melhores, então comecei a usar corretivo, base e pó – um prato cheio para aumentar a oleosidade da pele. Como se não bastasse, minha mãe entrou em pânico:

“Passa protetor! Senão sua pele vai ficar horrível, toda manchada”

Duas semanas depois, a coisa piorou e se espalhou para o rosto todo. Minha autoestima caiu ainda mais, meu stress aumentou, meus gastos com a maquiagem triplicaram – mas os comentários maldosos continuavam:

“Tá naqueles dias?” – amigo do cursinho
“Tem um remedinho ótimo pra recuperar sua pele” – namorado
“Você era tão bonita, tá com algum problema?” – tia avó
“Nossa, que cara de pizza” – cara x no ônibus

Entrando na faculdade, eu me sentia um monstro. As espinhas machucavam, sangravam e incomodavam, e eu vivia de cabeça baixa, com a cara coberta de base. Envergonhada de existir perto das minhas amigas que eu considerava muito mais gatas que eu. Acho que passei metade do primeiro ano assistindo tutoriais de como cobrir minha acne e procurando fotos de famosas sem maquiagem para me sentir melhor.

Ilustra: Helô D'Angelo
Ilustra: Helô D’Angelo

Foi aí que eu conheci o feminismo.

Aos poucos, percebi que não havia nada de horrível, nojento ou antinatural em ter acne. Espinhas são uma resposta natural da pele quando há excesso (ou falta) de oleosidade. São defesas corporais. Elas estão vinculadas a um fator genético, mas também aparecem quando o nível de stress é grande – por isso, são um bom indicador da nossa saúde emocional. É humano.

Quando comecei a frequentar a frente feminista da faculdade, passei a compreender que, na sociedade patriarcal, as mulheres precisam estar sempre perfeitas, não importa o que aconteça. Essa ideia ridícula é veiculada, por exemplo, nos filmes em que as super heroínas lutam de salto alto, maiô e laquê. Ou então na publicidade, nas novelas e séries de TV, nos quadrinhos, nas descrições de personagens nos livros e até nas exigências do ambiente de trabalho e no pós-parto (ficar sem unha feita? Jamais!). Você precisa estar sorridente. Mesmo que role um apocalipse zumbi, suas sobrancelhas precisam estar nos trinques.

Fui entendendo que todas as modelos com pele perfeita nas capas de revista e nos anúncios eram fotos tratadas, editadas e montadas por cima de muita maquiagem. Aquela pele lisa, sem nenhuma mancha e sem pelos, que remete à infância, começou a me enojar.

Além de não ser real, percebi, essa “pele perfeita” perpetua um padrão de beleza pedófilo (para não dizer racista, porque as negras são sempre clareadas nas fotos). Como eu já disse em outro texto, mulheres suam, mulheres menstruam, mulheres têm secreções, mulheres têm pelos. Se algum homem não gosta disso, talvez seja melhor admitir que não gosta de mulheres.

Aliás, por falar em crianças, foi estudando o feminismo que eu entendi o quanto essa história de maquiagem passa de mãe para filha. Geralmente, a menina vê a mãe se maquiando, ouve fases como “preciso colocar meu rosto no lugar” ou então é incentivada desde cedo a colocar batom, fazer penteados, pintar as unhas e até usar saltinho. Nada de muito terrível, só a perpetuação dos estereótipos de gênero. Eu mesma lembrei que a primeira vez que passei rímel foi aos 7 anos, para ir numa festinha qualquer.

Com muita dificuldade, comecei usar esse conhecimento para ignorar minha insegurança. Parei de ficar tão autocentrada e, com isso, consegui observar algo curioso: os homens, em geral, não ligam tanto para espinhas no próprio rosto quanto nós. Aliás, eles não se preocupam em aumentar os cílios, remover olheiras, preencher os lábios, contornar as bochechas, fazer as sobrancelhas, tirar o buço, afinar o nariz, colocar um ~toque de saúde~ nas maçãs do rosto, fazer gatinho nos olhos e iluminar a ponta do nariz (digo isso porque sempre aparece alguém dando uma de “eu sou homem e me preocupo com acne”).

Eu, que era viciada em maquiagem, comecei aos poucos a abrir mão. Primeiro, parei com toda aquela base; depois, me livrei do pó. Por último, mais recentemente, larguei o corretivo e o rímel, que eram constantes (sério, eu já cheguei a ficar sem café-da-manhã, mas nunca sem rímel).

E quer saber de uma coisa? Foi exatamente quando eu parei de me importar tanto com o fato de o meu rosto não ser perfeito que minhas espinhas começaram a desaparecer. Claro, ainda tenho algumas, principalmente pouco antes de menstruar, mas nada como na época em que eu me entupia de base. É engraçado, mas parece que o stress de esconder minha acne aumentava as espinhas.

Hoje, saio praticamente todos os dias de “cara lavada” (menos quando me dá a louca e eu quero usar batom). Só assim percebi que gosto dos meus olhos, gosto da cor da minha boca e do formato do meu nariz. Gosto das minhas sobrancelhas e do jeito como minhas sardas aparecem mais sem pó para escondê-las. Gosto, principalmente, da liberdade de não ter que me preocupar se minha cara está derretendo, se estou sujando algo ou alguém, se meus olhos estão “panda”, se meus dentes estão sujos de batom.

Nem sempre é fácil sair sem o disfarce  maquiagem. Mas é libertador, e isso me fortalece.

E me pergunto: existe coisa melhor do que perceber a beleza natural do seu próprio rosto? Perceber que você não precisa se esconder atrás de camadas e camadas de produtos químicos para se sentir feminina e desejada? Entender que beleza é completamente construída?

Ou melhor: existe coisa mais gostosa do que perceber que a perfeição é inalcançável e que foda-se? ❤

Hoje a noite, antes de dormir, faça um exercício. Quero que você sente na frente do espelho e se olhe. Quero que você faça uma lista mental do que mais te agrada no seu rosto (sem pensar no quanto seus olhos ficam maiores com rímel ou coisas assim. Seja sincera). Não quero que pense nos outros, quero que pense em você. Isso faz um bem danado!

 

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos e, na foto, está usando rímel e um brilhinho básico 😉

 Observação: não estou dizendo que você não deva usar maquiagem. Eu mesma uso em festas. Mas fazer uma análise crítica da razão pela qual você usa maquiagem pode ser bacana. Tipo: você se achar horrorosa sem maquiagem é diferente de você adorar brincar com tons de sombra. E por aí vai. Vamos pensando juntas sempre com calma e tentando entender como faz para se auto amar ❤

 

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7 comentários

  1. Eu sou daquelas que ama maquiagem. Mas também sou daquelas que sai de casa quase todos os dias de cara lavada. Parece contraditório? Não é. Eu aprendi a usar meu rosto como expressão de individualidade, mas nem sempre foi assim. Só entendi, como você, Helô, que a maquiagem serve para esconder defeitos que não existiriam se não fosse pela maquiagem depois de adulta, quando refleti sobre o porquê de gastar as economias de um mês em cosméticos que ninguém mais liga (a não ser sua insegurança e a indústria por trás disso). Hoje eu compro maquiagem sim, e uso, mas não tenho medo nenhum de mostrar meu rosto nu a quem quer que seja.

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  2. que felicidade ler esse texto…sou de PE, tenho 30 anos, e passei, esse ano, a nao usar maquiagem no dia a dia. uso protetor, e só. aos poucos eu tb tenho percebido que me maquiava pelos motivos errados; principalmente pra me sentir adequada. curioso tb observar que essa adequação era mais em relação a outras mulheres (extremamente vaidosas) da minha família. infelizmente, elas nao medem as palavras e acabam me chamando para “conversar”, para falar sobre o quanto estou desleixada etc. hahaha! meu marido está adorando essa minha nova e libertadora descoberta, à propósito. aproveito para sugerir uma pauta aqui para você: que tal debatermos sobre o preconceito que sofremos entre amigAs, primAs, tiAs, sogrAs etc? acho válido na medida em que, para sermos livres, para sermos quem quisermos ser, sem nos preocupar com o que nos é externo, primeiro temos que vencer essas pessoas que nos são tão próximas, e que, por esse motivo, se sentem tão à vontade para nos impor coisas. o que acha? aguardo ansiosa. beijos!

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    • Sempre teremos parentes retógradas. Elas são pelo menos 20 anos mais velhas e foram educadas em ambientes mais hostis e absorvendo ideias mais reacionarias. Eu, que sai da adolescencia a pouco tempo (tenho 20 anos) tive amigas que não entendiam pq eu usava maquiagem de manhã na escola, que viam que eu era insegura, que tinha uma familia pelo qual não compartilhava ideais. Elas viveram uma era melhor que a minha mãe. O cenceito da familia é todo construído sob posse. Tanta que não dá para se afastar. Eles sempre estarão lá, exigindo contato mesmo do outro lado do mundo. É algo imposto e tão poderoso no controle mental e social que comumentemente é defendido por direitistas. E faz um mal danado.

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  3. Essa explosão de acne no seu rosto logo após o começo de seu ‘vício’ em maquiagem era por causa da maquiagem, mesmo. A espinha tem puz, ele é contagioso e seu pincel espalhava puz pelo rosto inteiro. O suor misturado com a maquiagem penetra nos poros, causando espinhas. Quando eu tinha 1 espinha e passava maquiagem (isso a uns 3 ou 4 anos atras) estouravam umas outras 5 no meu rosto logo depois!

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  4. Oi, tudo bem?
    Eu comecei à usar maquiagem muito, muito cedo! Tinha por volta de 11 anos e, como havia entrado em um colégio novo, queria causar uma boa impressão. Fui começando aos poucos e logo já não saía de casa sem maquiagem. Me sentia feia e estranha sem e eu sempre achava que todos iriam me achar horrível quando me vissem sem todas aquelas coisas.
    Falando assim, até parece que sou bem mais velha, mas só tenho quase 16 anos. Vai fazer um mês que parei de usar maquiagem e minha pele, que sempre teve espinhas e cravinhos, começou a melhorar. Agora só tenho quando estou prestes à menstruar.
    Esse post foi tão libertador! Me identifiquei enquanto lia e, realmente, há uma certa pressão em relação às garotas e isso é tão chato!
    Enfim, gostaria de escrever mais e mais, porém estou um pouquinho ocupada. Vou acompanhar seu blog ♡
    Até.

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  5. Ola Helô…trabalho no setor administrativo de uma empresa…onde uns 500 homens que cultuam a beleza das mulheres que se maquiam e que trabalham no escritorio…eu sempre tive vergonha de ir sem maquiagem no trabalho porque minha pele tinha umas imperfeiçoes e eu nao queria ser vista como a feia que destoa o ambiente…porem de una tempos para cá venho percebendo que minha pele esta cansada de maquiagem esta com poros abertos..gostaria de me libertar desse vicio da maquiagem e gostar de mim como sou…mas tenho vergonha de me apresentar na empresa sem maquiagem…o que faço? Como vencer essa barreira?

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