Nós não somos loucas

por Letícia Souto

A louca do batom vermelho. A louca dos esmaltes. A louca do cabelo colorido. A louca dos livros. A louca dos gatos. Maria Louca, rainha de Portugal. Tantas loucas, mentirosas, exageradas. Esses termos estão cada vez mais comuns na Internet, é só dar uma lida nas legendas do Instagram. Algo de comum em tudo isso acima citado? Todas mulheres.

Nunca vi o louco do videogame, o louco da academia, o louco da cerveja. Se ainda não ficou explícito, existe uma banalização da figura feminina associada a loucura. Estamos proibidas de gostar de algo sem sermos loucas. A sociedade machista nos vendeu essa imagem e mordemos com unhas pintadas e bocas cheias de batom. O patriarcado aplaude cada vez que vê uma mulher se intitulando de exagerada, e, inconscientemente, gostamos.

E isso não é de hoje.

Li recentemente o livro Mate-me por favor, de Legs McNeil e Gilliam McCain, que conta a história dos primórdios do punk rock – cena musical majoritariamente masculina. As mulheres envolvidas com o punk, além de coadjuvantes (estavam ali para satisfazer os músicos e depois serem jogadas às traças) eram sempre loucas.

Os relatos no livro são absurdamente machistas: Nancy Spungen era louca, as groupies eram loucas, a namorada de um dos integrantes do New York Dolls era louca. A voz dessas mulheres nunca foi ouvida. E em nenhum momento alguém diz que a suposta loucura foi fruto de um relacionamento abusivo, de falta de atenção e carinho. Elas mal têm nome e são simplesmente “as loucas”.

E isso também não acontece só na frente dos holofotes; com babá pivô da separação de Tom Brady e Gisele.

Acontece conosco todos os dias.

Assumir-me feminista foi como sair do armário. Desde então minha vida tem sido conturbada: vejo machismo onde não queria, e às vezes isso dói. Doeu ter que assumir que estive em um relacionamento abusivo, porque a outra parte jamais assumiria. Mas doeu menos do que ter que pedir desculpas por ser louca, exagerada e estar inventando histórias. Pedir desculpas pelo que sentia. Isso dói.

E sei que não foi só comigo. Sei que há milhares (milhões, talvez?) de moças se desculpando cada vez que são levadas a acreditar que estão exagerando quando contam o que sentem para seus parceiros. Moças, não se enganem: eles nunca vão te pedir desculpas. Eles não vão mudar. Porque as loucas somos nós.

A rainha de Portugal era louca.

Rosa Luxemburgo era louca.

Leila Diniz era louca.

Dilma Rousseff é louca.

Eu sou louca.

Você é louca.

E nós acreditamos nisso, porque nos enfraquece e tira nosso poder de autonomia.

Portanto, acreditem: nós não somos loucas por amarmos gatos. Não somos loucas por termos dez prateleiras cheias de livros e uma coleção de batom. Nós não somos loucas. Nós só não temos medo do que eles irão pensar.

(publicado originalmente aqui)

leticia
Letícia Souto tem 19 anos de ócio criativo. Graduada em preguiça e pós-graduada em procrastinação pela Universidade da Vida. Gata em um mundo cão

Ilustração: Helô D’Angelo

Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s