Sobre ser a namorada do guitarrista

por Letícia Souto

Quando decidi ter uma banda com meu companheiro, as pessoas passaram a confundir minha função na banda com nosso relacionamento. É assim: você chega no estúdio pra ensaiar e o cara do som te mede como se você fosse a mina que só serve para pegar cerveja pros músicos; o dono do bar quer marcar um show e vem conversar com você te pedindo para “ver com o seu namorado se ele está a fim e pode em tal data”.

Você não tem nome, identidade ou talento. É simplesmente a namorada do guitarrista. É a mulher que está ali pra passar recados. Pode ser a Courtney Love, a Beyoncé, a Joelma. Em primeiro lugar você é a mulher do guitarrista, namorada do vocalista, a ex do baixista. Em segundo você faz parte da banda.

Praticamente todas as bandas que toquei – das de garagem às que levaram o trabalho a sério – eram compostas só por homens. E todas as vezes que terminava uma apresentação aparecia alguém me perguntando: “Você é namorada de algum deles?”, ou menos diretamente: “Nossa, parabéns pela apresentação! Você namora o rapaz com quem divide os vocais?”. E a reação espantosa das pessoas ao ouvirem meu NÃO chegava a ser caricata. Elas nem sabiam o que dizer, ou tentavam disfarçar com algum remendo horrível que acabava pior do que o rasgo.

Comecei a me questionar se essa associação acontecia só comigo. Comecei a questionar meu talento: parecia que eu só estava na banda porque era namorada do fulano. É esse tipo de coisa que passa pela sua cabeça quando você é mulher e tem uma banda com homens.

Não importa o quão talentosa você seja, sempre será nivelada por baixo. A começar pela ideia de que você só mereceria estar na banda se seu namorado te convidasse. Afinal a banda é dele, não sua. Mas depois de muito observar e vivenciar, acabei percebendo que essa realidade (feliz ou infelizmente) está distante de ser só minha.

Lembrei de quando comecei a me interessar por música, especialmente Rock N’ Roll, com uns 11 anos. Lia e pesquisava muito sobre as bandas que me interessavam (em sua maioria, formada só por homens). As partes relacionadas a mulheres estavam sempre nos trechos falando de excesso de bebidas, loucuras e degradação. Pode ver: Courtney Love afundou Kurt Cobain; Marianne Faithfull era só um rostinho bonito que enlouqueceu Mick Jagger; Nico só estava no Velvet Underground porque chamava atenção por sua beleza; Angela Bowie era só a mulher que engravidou de David.

E eu só fui me interessar pela vida dessas mulheres anos mais tarde, ao me dar conta de que elas também existiam, trilharam carreiras incríveis e não são coadjuvantes na história de seus parceiros, mas sim, protagonistas de suas próprias histórias.

É essa a visão que precisa ser desconstruída acerca das mulheres na música. Podemos, sim, ter bandas com nossos companheiros, mas isso jamais quer dizer que estamos lá apenas por isso. Temos nome, sobrenome, influências, talento e dedicação.

Parem de subestimar nosso conhecimento e nosso amor pelo que fazemos. Não subimos no palco porque algum homem permitiu. Subimos porque queremos e, acima de tudo, porque podemos fazer isso da forma mais única possível.

(originalmente publicado aqui)

leticia
Letícia Souto tem 19 anos de ócio criativo. Graduada em preguiça e pós-graduada em procrastinação pela Universidade da Vida. Gata em um mundo cão.
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