O machismo é institucionalizado

por Nayani Real

Não é redundante falar sobre assédio. O maior problema de sermos mulheres nessa sociedade é o machismo. O machismo, violência expressa pela condição de pré estabelecer o gênero masculino enquanto superior ao feminino, manifesta-se na imagem, presença e atitudes do homem.

É a estrutura patriarcal que, desde pequenas, nos submete a inúmeras imposições e abusos psicológicos e físicos. Em situação alguma estamos isentas de constrangimento e tristeza. Se aos 8 anos nos sentimos ridicularizadas, inferiorizadas e já postas em caixinhas de “feia” e “bonita”, sendo sexualizadas, é porque desde muito antes convivemos com lições comportamentais e paira sobre nós a sensação de não possuirmos espaço.

Enquanto crescemos (e por crescer, podemos dizer ter 12, 20, 40 ou 50 anos), acentua-se a sexualização dos nossos corpos e consequentemente, a objetificação do que somos: explicita-se a necessidade de os escondermos ou trabalharmos duro para que ele seja cada vez mais desejável pelos tão necessários homens – uma vez que, na nossa sociedade patriarcal, isso é tudo o que temos a oferecer.

Passamos todo o tempo entre as incertezas sobre “estar exagerando” ( – disseram eles) e os argumentos sobre nos sentirmos constrangidas, coagidas e desrespeitadas sendo constantemente desvalidadas. Não existe apoio. Não no núcleo familiar, entre os amigos ou na representatividade feminina absolutamente quebrada (que, no topo de meus privilégios em ser branca,  hétero e ter tido ajuda de alguns para estar no Ensino Superior, contemplo).

Na universidade, o apoio também não se faz presente. Adentrar o espaço acadêmico representa estar frequentemente exposta a invasões cometidas pela reafirmação hierárquica: num esquema em que ser um professor é posto um patamar acima de ser professora, a que esse diploma não reduz as alunas?

O discurso machista samba nas salas de aula, esconde-se atrás de “ele só está brincando” e promove os mesmos estereótipos, constrangimento e desmotivação às mulheres num ambiente em que se superestima a liberdade.

Liberdade de quem?

Entre tantos problemas hierárquicos socioeconômicos, políticos e educacionais que a universidade carrega em si, esse é só mais um dos pequenos-grandes distúrbios de uma instituição que, em teoria, clama a sabedoria e a formação, majoritariamente, humanitária dos indivíduos que a frequentam. Que formação baseada em equidade e sensibilidade para com o próximo se espera quando quem ocupa a posição de ensinar promove preconceitos e atitudes que inferiorizam outras pessoas?

Por essas (e tantas) o lambe “Professor, sua piada machista não faz de você engraçado. Faz de você apenas mais um babaca graduado” deve ser lembrado, enaltecido e vociferado! A hierarquia que, não obstante em ser, por si só “2. fig. classificação, de graduação crescente ou decrescente, segundo uma escala de valor, de grandeza ou de importância.”, como diz o dicionário e, portanto, um sistema de submissão, representa nesse tipo de situação um instrumento necessariamente opressivo, aliado ao sistema educacional.

"Professors, sua piada machista não faz de você engraçado, só mais um babaca graduado"
“Professors, sua piada machista não faz de você engraçado, só mais um babaca graduado”

Não é educativo, entretanto, quando, numa aula sobre fotografia, o professor utiliza- se de um cenário supostamente profissional para fazer perguntas sobre as roupas íntimas das alunas, comentários sobre a condição física destas, alusão a sexo oral, além de “esbarrar” em seus seios.

Não é educativo, também, quando outro professor se propõe a minimizar uma aluna questionando-lhe sobre seus namorados e a vida sexual que leva (usa camisinha? Toma anticoncepcional?) – afinal, quaisquer questionamentos acerca de seus métodos só podem demonstrar quão necessitada de um homem ela está, além de frequentemente referir-se à mulheres que conhece com termos misóginos.

Está longe de ser normal que homens com o dobro da idade de suas alunas insistam em insinuar-se e prolongar o contato com estas que poderiam, e provavelmente são, da idade de suas filhas, demonstrando qual o uso dado para a posição que ocupam.

Dessas e tantas outras formas menos ou mais sutis, a ética, supostamente aprendida, não se sustenta para levar abaixo a formação falocêntrica desses que deveriam utilizar-se de suas experiências para ensinar, e tudo o que fazem é reduzir a participação feminina nos espaços acadêmicos à visão arcaica de serem sexuais, frágeis e estarem fora de seus lugares, silenciando-as quando este ambiente deveria alçar-lhes as vozes.

Será possível dizer que há uma educação, de fato, enquanto houver o abraço institucionalizado a tantas atitudes descabidas, deixando passar ilesos os tantos homens que se colocam atrás de mesas e tomam frente à semestres letivos sobre matérias necessárias para obter um diploma quando eles próprios nada fazem a respeito de coisas realmente importantes?

Não é normal. Não é aceitável.

Há séculos, as mulheres lutam para conquistar os mínimos direitos legítimos, que nos são veementemente negados. Ainda assim, quantas vezes nos calamos diante dos mais diversos abusos e coações? Em quantos momentos sentimos medo por sermos… mulheres?

Se todas as angústias e desconfortos causados à mulher por essa sociedade têm base no machismo e nos seus desdobramentos simbolizados e reforçados essencialmente pelo masculino, nós devemos falar. Nós devemos estar unidas para batucar o mais alto possível contra qualquer suspiro que nos oprima. Inseparáveis, unas! Por menos, muito menos, machistas institucionalizados.

Nayani Real, 21 anos, vegetariana e estudante de Jornalismo da PUC-SP. Apaixonada por poesia e ciente que a vida, poesia a cada esquina, não é sempre tão bonita - quase nunca.
Nayani Real, 21 anos, vegetariana e estudante de Jornalismo da PUC-SP. Apaixonada por poesia e ciente que a vida, poesia a cada esquina, não é sempre tão bonita – quase nunca.
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