6 Conselhos das minas de Star Wars

por Helô D’Angelo

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VRA, QUERIDA

Vamos começar com os dois pés no peito: os seis filmes da franquia Star Wars não são feministas*. Estão muito longe disso: estrelados, escritos e dirigidos por homens, eles têm pouquíssimas personagens femininas, além de não passarem no teste de Bechdel – uma forma de avaliar o nível de desigualdade de gênero no cinema (para um filme passar no teste, basta que duas personagens femininas tenham uma conversa entre si que não seja sobre personagens homens).

Apesar disso, as duas únicas mulheres a protagonizarem a série – a princesa Leia Organa e a rainha/senadora Padmé Amidala – são incrivelmente inspiradoras, fortes e independentes. E aqui vão algumas lições que eu aprendi com elas (spoilers à frente):

  1. Você pode ser o que quiser
    Magina uma manifestação de impeachment contra a Amidala? Poisé, não dá porque ela é maravilhosa
    “Se me atacá eu vou atacá, monamu” – rainha VRAmidala

    Leia é uma princesa. Mas, diferente das princesas da Disney e dos contos de fadas, ela é uma diplomata super inteligente e acostumada a lidar com armas, além de ter “a força” forte dentro de si por ser filha do Anakin Sywalker, assim como Luke. Leia também sabe lutar, pilotar, criar estratégias de ataque e consertar naves espaciais. Ela não deixa absolutamente nada a desejar aos seus companheiros machos de todas as espécies.
    Padmé começa o primeiro filme como a rainha Amidala, que é a corajosa líder de um planeta inteiro. Ela fica muito puta quando é obrigada a deixar seu povo para trás para ser protegida pelo mestre jedi Qui-Gon e seu aprendiz, Obi Wan, e, por isso, não se deixa intimidar: troca de lugar com uma de suas criadas, troca o vestidão de rainha por umas calças compridas e vai viver todo tipo de aventura junto dos jedis e do pequeno Anakin, tornando-se uma parte essencial da ~tchurma~ dos episódios I, II e III. Padmé, assim como Leia, sabe lutar, atirar, montar e fazer tudo o que os homens fazem.

    A lição que Leia e Padmé me ensinaram é que minhas aspirações não precisam ser guiadas pelo meu gênero. Eu posso ser uma política importante, posso aprender a lutar, posso ter grandes poderes, posso lidar com qualquer responsabilidade.

  2. Lute como uma garota

    "Vambora que eu to louca pra lavar uma louça com meu rifle na tua cara"
    “Vambora que eu to louca pra lavar uma louça com meu rifle na tua cara”

    Tanto Leia quanto Padmé lutam pra valer nos filmes. Nada de “isso não é coisa de garota”: as duas dão a cara a tapa em todos os filmes. Em várias cenas, Leia parte para o ataque ou dá cobertura para Luke e Han Solo (inclusive, é ela que salva o Han de ficar congelado para sempre na sala do Jabba); Padmé consegue escapar sozinha de várias situações, convence Anakin a salvar seu mestre, Obi Wan, e tem uma mira melhor que muito stormtrooper por aí. As duas apanham e se machucam, mas não são postas como mais fracas que seus companheiros por serem mulheres, e também não são hipervalorizadas por isso: elas não são “as minas especiais porque sabem lutar”; elas são minas que lutam e pronto, isso é normal.

    A mensagem é simples: nós, mulheres, não precisamos ficar de fora das lutas que nos rodeiam. Também não precisamos ser só um rostinho bonito nessa luta. Podemos tomar parte, ter um papel fundamental, seja ele na política ou no dia a dia.

  3. Esmague o patriarcado com as correntes que te prendem

    "Toma aqui sua opressão de volta, kirido!"
    “Toma aqui sua opressão de volta, kirido!”

    Existem duas cenas incríveis que mostram literalmente isso nas primeiras trilogias. No episódio VI, depois de ser transformada em escrava sexual de Jabba, Leia consegue se libertar enforcando-o com suas próprias correntes.
    No episódio II, Padmé consegue se salvar sozinha de uma condenação à morte: ela está presa a um poste, esperando ser devorada por uma fera alienígena, e usa as correntes para escalar o poste e, depois, como arma para dar na cara do monstro (tudo isso enquanto Obi Wan e Anakin estão tipo “eita, e agora, o que fazer?”).

    Aprendi com essas cenas que não precisamos da ajuda dos homens nem para derrota-los. Podemos usar nossa indignação por estarmos constantemente presas e oprimidas como uma forma de intensificar nossa força para lutar.

  4. Sentimentos não são fraquezas (e nem “coisa de mulherzinha”)

    Não precisa de legenda, né, mores?
    “Não sei de onde você tira suas ilusões, seu bostão”

    No episódio 2, Anakin cresce e vira um gatinho. A Padmé fica toda afim dele, mas, mesmo assim, não se torna uma idiota imprestável e sentimental que ferra todo o rolê porque tem algum tipo de ataque de ciúme. Pelo contrário: a senadora tem consciência de que tudo o que construiu a vida inteira enquanto política não pode ser jogado fora por causa de um homem (ainda que ele seja muito gatinho).
    Leia também se apaixona pelo Han Solo, mas isso em nenhum momento interfere na sua capacidade de lutar, de criar estratégias e de ser resumidamente incrível. Aliás, ela rejeita todas as primeiras investidas bestas do Han e não se deixa enganar pelas palavras de conquistador barato. Apesar disso, as duas são muito diretas em relação ao que sentem, dizendo isso em voz alta, mas sem se condenarem por isso.

    Tanto Leia quanto Padmé estão sempre batendo o pé para manter a igualdade entre elas e seus parceiros, não se deixando levar pelos sentimentos – o que é extremamente comum entre personagens femininas no cinema. Isso me ensinou que sentir amor, dor, medo ou qualquer outra coisa é humano, e não “coisa de mulherzinha”. Mas eu também aprendi que sentimentos amorosos não deveriam pautar a minha vida só porque eu sou mulher: não devemos jogar nossas vidas fora por causa de um homem (ou de uma mulher).

  5. Representatividade feminina é importante

    "Minha pussy é o poder"
    “Minha pussy é o poder”

    Leia é uma princesa diplomata; Padmé começa como uma rainha, e depois se torna uma senadora da república. O ambiente em Star Wars é bastante patriarcal, mas dá para ver que a representatividade existe, ainda que fraca: entre os mestres jedi há uma mulher; o exército rebelde conta com pilotos, soldados e estrategistas mulheres; entre os seres não-humanos, há sempre uma fêmea que não necessariamente é uma dona de casa; existem outras líderes fêmeas no senado da república; há assassinas de aluguel, aprendizes jedi e há mães incrivelmente fortes.

    Todas essas mulheres me mostraram que lideranças femininas são indispensáveis para pensar a igualdade de gênero. Elas me mostraram que eu posso me espelhar nelas, usá-las como modelos para a minha vida, e me fizeram perceber que eu posso estar em qualquer lugar que os homens estão. Meu gênero não me torna menor, menos forte ou menos capaz. Eu posso tudo!

  6. Não precisamos estar atraentes o tempo todo

    "A cor do verão? Queridinha, estamos em guerra"
    “A cor do verão? Queridinha, estamos em guerra”

    Sabe aquela coisa que sempre rola com as roupas das super-heroínas? Enquanto os homens usam armadura, botas de combate e calças, as mulheres sempre estão sempre de maiô, salto alto, cabelos arrumados soltos ao vento e maquiagem, com muita pele à mostra. Bom, isso não acontece com Leia e Padmé (pelo menos, não voluntariamente).

    "Ozomi: eles NÃO PARAM"
    “Ozomi: eles NÃO PARAM”

    Quando em combate, as duas estão sempre usando roupas confortáveis semelhantes às dos seus companheiros homens: calças, botas, casacos camuflados e capacetes, sem nada que as identifique como “meninas frágeis” ou “mulheres sexy”. Os cabelos estão sempre bem presos (às vezes em vários estilos diferentes) e não ficam lindos ao vento – e atrapalhando a luta. E isso é incrível!
    A única vez em que Leia aparece com uma roupa sexy é quando ela é obrigada a usá-la (e a seqência deve ter uns 15 minutos). Padmé, por sua vez, tem as roupas rasgadas em um dos combates de que participa e a barriguinha fica aparecendo (típico), o que não acontece com os colegas homens. Mas a personagem fica incomodada com isso, e fica claro que a roupa só está rasgada porque a senadora foi arranhada – Padmé inclusive se machuca bastante nessa hora.

    Aprendi que meu corpo não é a única coisa que importa em mim. Se eu sei lutar, consertar coisas, criar estratégias e atuar em diplomacia, por que diabos minha barriga precisa estar à mostra? Por que preciso estar com os cabelos soltos e atrapalhando, usando salto alto que machuque os pés, usando um maiô?

A entrevistadora: Helô D'Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.

 

* Estou falando especificamente dos primeiros seis filmes, não do universo expandido, que tem várias minas incríveis. E nem citei o sétimo filme porque ainda não vi 😉

** Ilustração de capa: Kaol Porfírio

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