Cavalheirismo: quem paga a conta?

por Carla Barboza

Se te perguntassem se cavalheirismo tem a ver com machismo, o que você diria?

Ilustração: Helô D'Angelo
Ilustração: Helô D’Angelo

Pare e pense: quantas vezes você foi ao restaurante com um homem e o garçom colocou a conta na frente dele? Muitas pessoas defendem que o homem deveria pagar a conta, pois este seria o “papel” dele enquanto homem bem educado. Mas se a educação é a base da cultura, e se nossa cultura é patriarcal, é nosso papel enquanto feministas questioná-la, porque é daí que vem o machismo.

Pensa bem: o cavalheirismo não é praticado apenas por homens e apenas em relação às mulheres?

Isso quer dizer que nós, mulheres, somos julgadas como frágeis e como seres que precisam de ajuda constante para realizar as funções mais simples. Significa que nós, o “sexo frágil”, não temos dinheiro o suficiente para pagar uma conta. Significa que precisamos de alguém que puxe nossa cadeira, que abra a porta do carro para nós, que nos deixe passar na frente, que nos explique tudo sobre qualquer coisa, que lute em nosso lugar, que fale por nós, que decida o que é melhor para nós – porque somos fracas, frágeis demais para agir por nós mesmas.

Precisamos ser tratadas como as flores quebradiças que somos; caso contrário, vamos morrer, quebrar, despedaçar ou simplesmente ficar magoadas (porque, claro, toda mulher se deixa dominar a tal ponto pela emoção que não consegue agir de forma racional).

Você pode dizer: “poxa, mas eu gosto de ser tratada com delicadeza”. Sim, eu também. Qualquer pessoa gosta de ser bem tratada. Mas isso não deveria ser diferenciado por gênero, não é? Porque se você começa a ser tratada de forma delicada só porque é mulher (e, portanto, fraca), acaba não podendo expressar suas ideias (porque você é fraca demais), não podendo trabalhar (porque você é fraca demais), não podendo pagar suas próprias contas (porque você é fraca demais), enfim, não podendo se empoderar (porque você é fraca demais).

Não estou dizendo que seu namorado – ou ficante, ou pai, ou marido, ou irmão, ou amigo – não possa te tratar cordialmente. De novo, simpatia é bom e todo mundo gosta. Mas reflita: se esse homem não tem o mesmo comportamento em relação a homens pelo simples fato de serem homens (e, portanto, julgada como mais fortes), ou se ele trata com extrema delicadeza uma mulher só por ela ser mulher (mais fraca), será que isso é mesmo cordialidade ou será que é só mais um machismo enraizado?

Eu não sou de vidro. Não sou uma flor. Eu posso muito bem pagar minhas contas, andar sozinha na rua, abrir minhas portas, ouvir palavrões, trabalhar, sentar sozinha na cadeira. Não se trata de acabar com toda a delicadeza do mundo: se trata de acabar com a falsa ideia de que as mulheres não podem fazer nada sozinhas.

Pense. Questione. Sem radicalismos: quem decide quem paga a conta é o casal. Quem abre a porta é você.

Carla Barboza, 20 anos, estudante de jornalismo
Carla Barboza, 20 anos, estudante de jornalismo
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