No ano que vem, eu não quero emagrecer

por Lethícia Roldão

Ultimamente eu tenho me sentido diferente. Não me sinto mais na obrigação de agradar ninguém, além de eu mesma. A minha prioridade tem sido o meu bem-estar. Posso parecer egoísta ao dizer isso, mas é a mais pura verdade: estou me amando.

Passei (muitos) anos da minha vida odiando meu corpo, odiando a minha falta de disciplina em algumas situações, odiando minha timidez, odiando meu cabelo… Eu só me odiava. Isso me fez, na adolescência, sofrer de distúrbios alimentares e depressão.

Por muito tempo, eu não consegui ficar nua de frente ao espelho e me sentir confortável, nem mesmo para tomar banho. Um só detalhe: nunca fui socialmente taxada como gorda. O que me fazia, então, me sentir tão infeliz com meu corpo e minhas características, já que eu não era tão fora dos padrões assim?

Durante toda minha infância, vivenciei a adoração do corpo magro e esbelto de revista. A referência do que era bonito era o magro. Eu era magra, mas não magra como as moças de revista, e isso me fazia me enxergar gorda. Olha que absurdo isso, a ilusão do que era “perfeito” me fazia não me enxergar como eu era, e me fazia odiar cada parte do meu corpo que não se parecia com o corpo perfeito.

A influência que a mídia, e principalmente a opinião dos que convivem com a gente, têm sobre uma criança é assustadora. Com 10 anos, eu olhava para o meu corpo e pensava onde eu faria cirurgia plástica quando crescesse.

É surreal pensar que uma criança de 10 anos olha para o próprio corpo e pensa em cirurgia plástica. Mas eu pensava.

Cresci e, mesmo com muitos problemas com meu corpo e minha baixa autoestima, eu tinha noção de que eu estava doente e que me odiar daquele jeito não era normal. Fazia terapia com psicólogo, e melhorei um pouco a minha relação comigo mesma. No entanto, todo fim de ano na minha lista de desejos pro próximo ano, o primeiro item era “emagrecer”. Nisso, os anos foram se passando e eu saindo da adolescência.

Conheci o termo “feminismo” e me identifiquei logo com ele. O empoderamento foi surgindo aos poucos, e com as crises depressivas ele ia embora e voltava do nada. As crises depressivas me fizeram desenvolver compulsão alimentar, o que me rendeu uns 15kg a mais. Por incrível que pareça, minha cabeça começou a mudar aos poucos, e eu me sentia mais confortável com meu corpo com esses 15kg a mais do que antes, quando odiava as minhas estrias e meu corpo de quarenta e oito quilos.

Apesar do crescente empoderamento e da aceitação, eu ainda colocava na lista de desejos que a minha meta principal era “emagrecer”. Não cumpri essa meta em nenhum dos 7 anos em que eu escrevi no papel, mas cumpri várias outras. O meu engajamento com o feminismo só ia aumentando, e eu entendendo cada vez mais o que acontecia comigo e que eu precisava me libertar dessa tortura que era continuar me odiando. Percebi que emagrecer não tinha sentido algum, e que eu não era uma pessoa pior por não conseguir.

Esse ano de 2015 foi um divisor de águas pra mim. Foi um dos piores anos da minha vida, em relação às crises depressivas. Mas foi também o ano que eu mais estudei e me entendi. Entendi que eu não sou feia, não sou melhor ou pior que ninguém por não ter um corpo de revista, que não preciso ser magra pra ser realizada.

Eu só preciso me amar. Por isso, decidi que na minha lista de metas pra 2016 eu não vou colocar “emagrecer”. Porque, em 2016, eu não quero emagrecer, só quero continuar me amando!

Lethícia Roldão, 21 anos. Cabeça de humanas estudando exatas, vegetariana e apaixonada por  si mesma.
Lethícia Roldão, 21 anos. Cabeça de humanas estudando exatas, vegetariana e apaixonada por si mesma.
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