Mulheres Que Amam Demais Anônimas: a sororidade contra relacionamentos abusivos

“Amar demais, amar errado, se amar de menos. Ao entrar a primeira vez em uma sala do grupo MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas, a única coisa que eu conseguia enxergar era a primeira dessas definições, pois acreditava com veemência que era amor o que sentia e que a razão da minha vida e a solução de todos os meus problemas era estar ao lado do homem que me rejeitava.”

Sororidade é o sentimento de irmandade entre as mulheres. É também a base do MADA! (Ilustra: Helô D'Angelo)
Sororidade é o sentimento de irmandade entre as mulheres. É também a base do MADA! (Ilustra: Helô D’Angelo)

Quando uma mulher ainda não descobriu o amor mais importante de todos – o amor próprio –, muitas vezes ela é capaz de tudo para estar ao lado do “amor da sua vida”, aceitando um relacionamento abusivo, uma relação destrutiva e até mesmo violenta. Obviamente, não culpamos as vítimas, pois o homem violento, agressivo e abusivo é o causador e responsável por essa situação. Mas porque em muitos casos a mulher não consegue sair dessa relação, não consegue se sair desse relacionamento?

“Amar demais” muitas vezes é relacionado apenas a mulheres extremamente ciumentas ou que apanham em casa. Mas, na verdade, a obsessão amorosa é um problema mais amplo, chamado de amor-patológico (caso de estudo até no Hospital das Clínicas), que é muito mais comum do que se imagina. O amor-patológico é uma doença que mata – totalmente derivada da sociedade machista em que vivemos.  Sabemos que homens também sofrem desse mal, mas nosso grupo é focado para as mulheres oferecendo um espaço seguro de partilha e apoio.

O grupo funciona através dos 12 Passos e 12 Tradições baseados nos Alcoólicos Anônimos, com o foco em relacionamentos destrutivos. O termo amar demais foi estabelecido pela terapeuta e escritora Robin Norwood, e a partir do livro Mulheres Que Amam Demais foi fundado o Grupo MADA. O termo se aplica para relacionamentos de qualquer natureza: afetivo-sexual, familiar, de trabalho, de amizade etc.

As mulheres que participam de MADA vêm normalmente de lares destrutivos, e acabam por exercer padrões de comportamento aprendidos na infância para tentar modificar os outros, envolvendo-se sempre em relacionamentos parecidos com aqueles do passado.

O símbolo do MADA
O símbolo do MADA

Não só, mas principalmente, esses relacionamentos são no campo amoroso, causando um profundo desespero e desamparo. Por exemplo: se uma mulher teve um pai alcoólatra ou abusivo, ou uma mãe controladora, é bem provável que ela se envolva nesse mesmo tipo de relacionamento no futuro. Isso não é regra, mas vale ler o livro para entender mais.

“Passei por relações com homens extremamente machistas, alguns que me denegriam e também passei por uma agressão física. Simplesmente não conseguia me desligar deles, os enxergava como “boas pessoas” e sempre acreditava que eu era a causadora dos problemas. Tentei suicídio quando fui abandonada, para mim era inconcebível a separação, porque sempre que tentava, sentia um vazio e desespero ainda maior do que o de estar numa relação abusiva e doentia. Estar em um grupo de 12 passos salvou minha vida”

Encarar o fato de ficar sozinha e olhar para a própria vida sem ter um parceiro (ou parceira – vamos lembrar que relações homoafetivas não estão livres de abuso) é um dos maiores desafios para uma mulher em uma sociedade na qual o sinônimo de felicidade e sucesso é estar numa relação amorosa. Então, muitas vezes por vergonha ou medo, a mulher continua ao lado do seu abusador, acreditando inclusive que um dia poderá salvá-lo, mudá-lo e ter um relacionamento saudável. Esse tipo de relação é insaciável e perigosa e o risco de usá-la como vício é enorme. Em muitos casos, quanto mais dolorosas as interações, mais distração e adrenalina elas podem oferecer e sair desse ciclo vicioso se torna praticamente impossível.

“Tentei o suicídio mais de uma vez. O grupo me deu um alívio imediato, pois naquelas mulheres encontrei sororidade de verdade, com abraços e sorrisos sinceros e a promessa de nunca mais ficar sozinha (o que era meu maior medo, na realidade). Essas mulheres salvaram a minha vida literalmente. “

Cada caso é único, algumas mulheres são ameaçadas e se sentem impotentes e amedrontadas, outras dependem financeiramente do parceiro, mas muitas não conseguem se desligar porque acreditam que é melhor estar com ele do que sozinha. Não descobriram sua própria força interior e sua capacidade, principalmente pelo machismo que reina na nossa sociedade e por isso são incapazes de se enxergarem potentes e empoderadas. Afinal, não existe mulher que goste de apanhar (literal ou figurativamente): o que existe é mulher HUMILHADA demais para denunciar, MACHUCADA demais para reagir, com MEDO demais para acusar, POBRE demais para ir embora. O MADA pode ajudar a mulher a encontrar essa força interna e capacidade para mudar sua própria vida.

“Frequentar o grupo MADA salvou minha vida, me devolveu a sanidade, me fez descobrir o amor próprio e aprender a aproveitar o prazer da minha própria companhia. Hoje sei que não preciso de alguém para me validar, não preciso de uma relação para ser uma mulher completa. Foi nesse grupo que descobri o poder imenso que as mulheres têm quando se unem, somos capazes de salvar vidas, pois juntas somos muito mais fortes. Hoje sei que sou merecedora do melhor que a vida pode proporcionar, não quero mais um amor que me tire do chão, mas sim um que me coloque ainda mais em equilíbrio.

Da fraqueza veio a força. No grupo aprendemos que para viver com esses problemas é preciso encarar somente um dia de cada vez, e por isso as mulheres do grupo continuam voltando: “Me ajudo ajudando outras. A mulher que chega assustada hoje é a menina que eu fui ontem. Preciso estar lá para abraçá-la e prometer aquilo que já me foi cumprido inúmeras vezes desde que cheguei: não estamos mais sozinhas

Temos mantido as portas abertas com nossas próprias contribuições em São Paulo desde 1994, abrindo diversos grupos desde então e continuamos recebendo mulheres de todos os lugares. Temos muitos grupos por todo o Brasil. As próprias integrantes são responsáveis pelo grupo como um todo, não havendo profissionais de aconselhamento ou terapeutas. Uma integrante ajuda a outra através dos depoimentos. As relações dentro do grupo são totalmente horizontais.

“A coisa mais maravilhosa para mim é ver o brilho nos meus olhos todo dia quando olho no espelho, algo que eu não imaginava que veria um dia. É ver esse mesmo brilho aparecendo nos olhos de cada mulher que continua voltando às nossas reuniões.”

Esperamos que com este texto possamos atingir mais mulheres que buscam ajuda para conseguir se relacionar melhor consigo e com os outros, encontrando relacionamentos saudáveis e realizadores, que permitam a todas serem tudo aquilo que são capazes de ser.

Para mais informações, por favor acesse www.grupomadasp.com ou mande um e- mail para coord.madasp@gmail.com

* As autoras deste texto pediram anonimato, para preservar as próprias identidades e para manter a horizontalidade do MADA. Claro que a gente deu ❤

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3 comentários

  1. […] Mas fique atenta: o fato de o seu namorado ter depressão não significa que você precisa aguentar qualquer coisa. Depressão é uma doença, e é algo sério, mas não é desculpa para desrespeitar você. Se o seu parceiro sofre de depressão, ele precisa procurar um bom psicólogo para tratar do problema, e não descontar tudo em você. Lembre-se: você é a namorada dele, e não um saco de pancadas. Você merece ser respeitada e amada sempre. […]

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  2. EU SOU ABUSIVA, PRECISO DE AJUDA, NÃO QUERO PERDER MEU NAMORADO, ELE É TUDO PARA MIM, NÃO SEI MAIS O QUE FAZER MAS ACREDITO QUE O PRIMEIRO PASSO É BUSCAR AJUDA…

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