Quem é especial? Uma visão feminista sobre o capacitismo e os estereótipos da mulher com deficiência

por Julia Mello

Estávamos em um restaurante qualquer. Entre conversas, um homem se aproximou e disse: “Meus parabéns! Sou de uma instituição para pessoas com deficiência. É muito legal que vocês tragam ela aqui”. Em seguida, ele estendeu o braço para cumprimentar meu pai, ignorando as outras três mulheres da mesa, inclusive a que estava na cadeira de rodas, sobre quem ele falava.

capacitismo, machismo
Ilustra: Helô D’Angelo

Esse tipo de situação já aconteceu milhares de vezes. Por que todos insistem que a presença de pessoas com deficiência em lugares comuns é inusitada? Aliás, você já parou para observar as expectativas sobre uma adolescente em uma cadeira de rodas, por exemplo?

Existem vários tipos de deficiência – cada uma com sua especificidade – mas as mulheres com deficiência são, na maioria das vezes, destinadas ao ambiente domiciliar. Além da dificuldade de acesso à cidade, bem, tem o fato de serem mulheres.

Se o patriarcado já ensina crianças e meninas que elas não tem poder, vontade própria ou inteligência, imagine o peso dessas estruturas para aquelas vistas desde o nascimento como “incapacitadas”.

O capacitismo é a noção de que pessoas com deficiência são inferiores, seja por razões biológicas, psicológicas ou sociais. Através de insultos, agressões ou muuita pena, o mundo acaba levando todos – inclusive elas – a acreditar que é melhor que fiquem em casa.

Pra que sair se vai sofrer bullying, ou se vai sentir que as pessoas ao redor estão lhes fazendo um favor? Vida sexual? Como, se o namorado é sempre confundido com o irmão? Melhor nem começarmos a falar sobre os padrões de beleza… Espera: precisamos falar disso tudo, e com urgência! E, de preferência, vamos deixar de lado o tão datado viés da superação.

Obviamente, existem problemas que não podem ser ignorados: 40% dessas mulheres já sofreram violência doméstica. A eugenia, em forma de esterilização compulsiva, ainda é uma prática. A invisibilidade é gigantesca, até mesmo no feminismo. Aliás, revistas femininas que aderiram ao movimento tentam falar sobre diversidade, aceitação e emponderamento – mas não representaram nenhuma mulher com deficiência, e muito provavelmente não as selecionariam para uma vaga em suas redações, mesmo que elas tivessem o mesmo conhecimento e técnica de qualquer outra candidata. Apesar disso, a vida de uma pessoa com deficiência não é resumida ao sofrimento – e nem a noção de ser “especial”.

Em uma conferência do TED, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre o perigo da narrativa única. É comum que a gente reproduza estereótipos em todos os âmbitos da nossa vida. É claro que os momentos sofridos e tristes existem – mas eles estão na vida de todas as pessoas, de forma mais ou menos expressiva.

Se quem não tem deficiência tem histórias tão múltiplas, porque as milhares de mulheres com diversas deficiências formam um imaginário tão homogêneo?

Precisamos expandir nossos horizontes e nossas demandas. Você já se interessou sobre a história de uma pessoa com deficiência? Comece conversando com ela. 😉

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Julia Mello, 22 anos, jornalista e absolutamente incapaz de deixar de problematizar a vida e o universo
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