Opinião: o feminismo atual é um produto?

por Helô D’Angelo

Ando muito cansada desse feminismo feito sob medida, embalado e pronto para a venda. Um feminismo que tem as cores de TODXS (mas sem de fato incluir todas), e que é cheiroso, descolado e emocionante como uma campanha da Dove, com o slogan “Pela real beleza”.

Não me entendam mal. O fato de o feminismo ter entrado em pauta é importantíssimo: precisamos falar sobre estupro, aborto, feminicídio, igualdade de salários e padrão de beleza. Isso não está em questão. 

O problema é que, com a popularização do feminismo, parece que passou a existir um limite intransponível nessa luta. Como se houvesse uma forma certa de lutar e uma forma errada. Uma forma bonita e aceitável e uma forma feia e exagerada: um feminismo cheio de “deixa disso”.

Você pode ser feminista, mas não precisa criticar a depilação como uma imposição. Também não precisa criticar a prostituição e o pornô. Nem tentar parar com a fetichização das lésbicas. Nem questionar a exploração das empregadas enquanto mulheres. Ou pensar que, epa, talvez as mulheres negras precisem ser ouvidas. Ou ser fora do padrão magro, branco, heterossexual e depilado. Ou questionar se homens deveriam ter voz ativa no movimento feminista. Ou tentar desconstruir a ideia romântica da maternidade. Ou, ainda, tentar discutir a eterna culpabilização das vítimas de estupro.

Não, isso não pode. Porque aí, somos chatas, grossas, incômodas. Exageradas. No mínimo, estamos lutando errado – ou não temos “bom senso”. Vamos ficar de boa e curtir o deboísmo.

Mas por que isso acontece?

Porque o feminismo que cabe no capitalismo e no neoliberalismo não pode incomodar. Ele tem que vender, pois se tornou um produto. Por isso, ele precisa conquistar o máximo de consumidores possível: não só mulheres, que deveriam ser as principais a usufruírem dos frutos dessa luta, mas os homens também.

Como se ser feminista fosse um rótulo como ser “roqueiro”, “patricinha” ou “hipster”. Como se ser feminista fosse só um estilo de vida, e não uma luta que tem objetivos e que busca, sim, incomodar – e não ser algo bonitinho e do rolê.

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O feminismo, principalmente nas redes sociais, tem sido posto como moda. Não conheço uma só pessoa descolada que não se diga feminista hoje em dia. E isso seria totalmente OK se toda tendência não tivesse um jeito certo e um jeito errado de usar.

E você não quer pagar mico, não é? Você quer ser vista como descolada, e não como uma radical maluca e mal comida (como eu já fui chamada em vários momentos, inclusive por mulheres feministas, por defender o aborto, a não-depilação e por promover a crítica ao feminismo acomodado). Você quer ser cool e, hoje, ser cool é ser feminista.

A sororidade só vai até onde você está por cima. Seu discurso feminista se cala na primeira piada machista dos seus amigos homens. Se aquele seu amigo abusa de uma menina, você costuma dizer que “não é bem assim”, “ele é assim mesmo”. Sua defesa pela ‘vida das mulheres’ não se estica às mulheres negras da periferia – aliás, essa sua roupa da Zara é confeccionada por mulheres em regime próximo à escravidão, sabia? E você continua chamando “as inimiga” de puta e competindo pela atenção do macho. Os machismos enraizados continuam de pé, porque é exagero lutar contra eles.

Quando o indivíduo passa a ser o centro de qualquer luta por igualdade, a coisa fica esquisita. Porque nenhum indivíduo tem seus desejos pessoais iguais aos de outra pessoa. E fica muito difícil, em nível pessoal, discernir o que é confortável do que é idealDepilar, por exemplo, é confortável do ponto de vista dos padrões de beleza, mas o ideal seria que nós não precisássemos disso para sermos consideradas bonitas. Ou para nos autoconsiderarmos bonitas.

Então, eu me pergunto: será que nós, mulheres, realmente temos a liberdade e o poder prático que os comerciais, a Emma Watson e todas as cantoras pop como a Taylor Swift nos vendem? Será que temos mesmo escolha em relação aos nossos corpos, se o outro lado é a ‘forma errada’ de usar o feminismo, se ainda somos julgadas pelo tamanho das nossas saias e pela presença dos nossos pelos? Acho que não.

Repito: não acho que toda a manifestação do feminismo que seja atrelada ao mercado seja automaticamente ruim. Pelo contrário: a propagação da ideologia feminista em grande escala é uma coisa boa, como eu já disse, porque populariza uma série de questões importantes. Mas essa luta acrítica, cômoda, está à serviço do mercado – e não o contrário. Talvez, este seja um primeiro passo, mas não podemos deixar nossa luta se tornar um “estilo de vida” confortável, hipócrita e na moda.

Este texto não é uma crítica pessoal. Não é uma cartilha do que é certo ou errado no feminismo. É apenas um pedido por maior criticidade; por menos conforto e por mais incômodo – senão, não seria uma luta.

Mulheres, não vamos engolir qualquer balela. Essa é a nossa luta, por nós, e não por dinheiro ou por fama. ❤

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.
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