Sinais de um relacionamento abusivo (e como sair dele)

O que é um relacionamento abusivo?
Relacionamentos sempre têm dois lados – o seu e o da pessoa com que você está se relacionando. Falando de forma geral, os relacionamentos abusivos acontecem quando um dos lados tem mais “poder” do que o outro. Em uma relação saudável de amizade, entre familiares ou em um bom relacionamento amoroso, é óbvio que não podemos ter “poder” concentrado em nenhuma das partes. Relações saudáveis funcionam quando os dois lados são parceiros e confiam um no outro. Embora relacionamentos abusivos possam acontecer em qualquer forma de relação (familiar, de amizade, profissional ou amorosa), aqui, vamos focar em relacionamentos amorosos.

Ilustra: Helô D'Angelo
Ilustra: Helô D’Angelo

Eu diria que nós entramos nesse tipo de relacionamento sem nem perceber. No meu caso, foi muita imaturidade: eu tinha apenas 15 anos quando comecei a namorar um rapaz que foi o meu primeiro namorado e o meu primeiro amor. Eu demorei muito tempo para conseguir sair dessa relação. Então, eu gostaria de dar umas dicas para que ninguém passasse por isso como eu passei, pois é uma situação muito ruim – eu quis me matar várias vezes por causa disso. Não aguentava mais aquilo, mas não conseguia sair. Então, aqui vão algumas dicas de como identificar e sair de um relacionamento abusivo:

O abusador
Pelo que percebi por experiência própria e ouvindo outras pessoas, o abusador possui algumas características: são, em geral, pessoas manipuladoras, controladoras, ciumentas, insistentes, sem confiança no outro – em outras palavras, são extremamente inseguras e, por isso, não conseguem respeitar o companheiro*.

Sinais de um relacionamento abusivo

  1. A pessoa quer mandar no seu corpo. Exemplos: pede que você deixe de usar maquiagem, que você use ou não algum tipo de roupa (saias, vestidos, decotes etc.), que use ou não algum tipo de calçado, que você passe ou não alguma cor de esmalte, que você beba ou não, que corte ou não o cabelo de certo jeito. Como eu falei, são pessoas manipuladoras, então nem sempre existe um tom de ordem. Muitas vezes, isso acontece na forma de um pedido calmo, uma sugestão, uma pressão, do tipo: “Amor, eu não gosto de você usando saia, os outros ficam te olhando”. Aí, você acaba deixando de usar, mesmo que você goste. Com o tempo, você vai seguindo o que a pessoa quer e esquecendo das próprias vontades.
  2. A pessoa quer controlar aonde você vai ou deixa de ir. A liberdade de quem sofre com esse tipo de relação é cerceada. Você é privada de ir em locais nos quais antes você gostava de ir, sejam eles quais forem – baladas, casas de amigos, bares – ou coagida a ir em lugares que seu namorado prefere – casas dos amigos dele, baladas que ele curte. Os exemplos: você se sente mal de ir em festas, você se sente culpada de sair para lugares que essa pessoa considera ‘inadequados’, você leva bronca ou sente que cria discussões quando vai na casa de uma amiga que ele não gosta. E como eu falei antes, as coisas nem sempre acontecem por meio de brigas: muitas vezes, os pedidos podem parecer doces ou até preocupados com você, tipo: “Meu bem, esse lugar as pessoas vão para se pegar, eu não gostaria que você fosse”. E mesmo que você diga que não tem nada a ver, que você só quer dançar, se divertir, a pessoa vai continuar insistindo até você ceder. Isso demonstra a falta de confiança em uma relação, e isso não deveria acontecer.
  3. Você acaba abandonando amizades e a sua família por causa da pessoa. Acho que essa é uma das piores partes de um relacionamento abusivo. É muito comum que você pare de sair com alguns amigos, simplesmente porque a pessoa quer. Ela não gosta daquela pessoa, então você para de sair com aquela pessoa – você, afinal, está querendo agradar. Mas tem aquela outra pessoa de quem ele sente ciúmes: “Esse aí quer te pegar, não é seu amigo, só quer aquilo” (mesmo que isso seja verdade, você deveria ter a liberdade de escolha, em vez de ter a sua vida traçada pelo seu namorado). E tem ainda aquela sua amiga que, na visão dele, só quer separar vocês. A lista não para nunca e, antes que você perceba, até seus pais podem entrar nela. Mais uma vez, as coisas não necessariamente são ditas de forma grosseira, mas manipuladoras.
  4. A pessoa te diminui e menospreza, acabando com a sua autoestima. Essa é outra coisa horrível: a pessoa vai te apagando. Ela vai minando sua confiança, realçando seus “defeitos”, caçoando de você e sempre apontando como ela é a única pessoa que poderia te amar – afinal, você é horrível, segundo seu namorado. Essas mentiras podem ser em relação ao seu corpo, ao seu intelecto, ao seu jeito, à sua sexualidade ou em relação a qualquer outro aspecto seu. Com o tempo, você se sente inferior, pra baixo; você se acha feio, ruim, desmerecedor de qualquer amor. E é justamente nessa hora que o abusador pode falar algo do tipo: “Você nunca vai conseguir ninguém melhor do que eu”. Na hora, isso faz sentido – você se sente tão menosprezado, tão ruim, tão inútil, que a pessoa só pode estar certa.
  5. Abuso psicológico. As formas de abuso psicológico são várias, como a diminuição da autoestima que eu descrevi acima, mas existem muitas outras. Um exemplo importante é o comportamento do seu namorado nas brigas. Brigas e discussões são parte de estar em um relacionamento, e são até saudáveis (afinal, são duas pessoas diferentes vivendo juntas). Mas o abuso psicológico acontece quando, nessas brigas, você acaba achando que SEMPRE está errada, mesmo que você tenha certeza de que estava certa. De alguma forma, o motivo da briga muda e você se torna a culpada. E o pior: se você sai do controle – o que é uma reação absolutamente humana -, você é louca, instável, incapaz etc (atitude conhecida como gaslighting). O abusador jamais vai permitir ser taxado de errado.
  6. As ‘regras’ que valem para você não valem para ele. Todas essas coisas horríveis que acontecem com você não acontecem com o abusador. Você se afasta dos seus amigos, mas ele não se afasta dos dele; você deixa de ir a festas só com os amigos, mas ele não deixa; sua confiança está destruída, mas ele parece perfeito. Seu emocional é destroçado, sua autoestima é diminuída, você se sente mal e se sente só, mas a pessoa está melhor do que nunca. Esse tipo de pessoa fagocita a outra, suga sua energia de viver. Não é que seu namorado deva sofrer como você. Pelo contrário: em um relacionamento saudável, nenhum dos dois deve passar por isso.
  7. Dependência emocional.  Afastada dos seus amigos e da família, cheia de defeitos e com uma autoconfiança próxima de zero: é assim que você se vê. Sem nenhuma base de apoio, você acredita que aquela pessoa é a única que pode te querer, mesmo que isso custe caro. Muitas vezes, você sente vergonha disso tudo, mas sente que não pode se abrir para ninguém, porque ninguém vai entender. Você não quer que ninguém te diga que seu relacionamento é ruim para você. Então, você se sente confusa e sem apoio, além de um ser humano horrível.
  8. Abuso sexual. Precisamos acabar com aquela frase ridícula: “se é seu namorado, você tem que agradar”. Você não tem obrigação de fazer NADA. Você faz se você quiser, se tiver vontade. Se você já ouviu essa frase, posicione-se contra ela. O sexo é para ser um prazer, uma coisa boa, e não uma coisa ruim, não uma coisa nojenta, e muito menos forçada. Em relacionamentos abusivos, é muito comum que você se sinta obrigada, de forma física ou psicológica, a transar. Você se sente culpada de não “comparecer” e acaba cedendo – tudo com seu namorado dizendo “se você me amasse, não negaria”.
  9. Depressão. Alguns casos de depressão surgem após uma longa relação abusiva. A depressão tem como sintomas o sentimento de solidão, o desânimo, a falta de vontade de viver, o cansaço físico e emocional, a autoestima baixa e a falta de amor próprio. Então, eu só posso dizer que isso não é bom para você, nem hoje nem nunca.

Será que eu estou em um relacionamento abusivo?

Responda sinceramente com sim ou não:

Você está em um relacionamento em que o outro te afastou de seus amigos?

Você diria que o seu parceiro é controlador/ ciumento?

Você se sente proibida de fazer algo que você gostava muito antes?

Você sente que seus sonhos foram destroçados por causa do outro?

Você sente que não pode fazer nada sem pedir autorização ao outro?

Você acha que não pode fazer algo novo porque o parceiro vai ficar com ciúmes?

Você nunca sai sem essa pessoa, e se tentar sair deve dar briga?

As brigas são bem frequentes?

Você acha que quase sempre em uma briga você é a errada?

É uma relação repleta de ciúme, insegurança?

Você sente que a pessoa diminui a sua autoestima?

A pessoa faz você sentir mal consigo mesmo?

Você se sente inferior ao outro?

Você acha que jamais poderia ser feliz sem essa pessoa do seu lado?

O sexo tornou-se algo obrigatório?

Você já pensou em se matar por causa da relação?

Se você respondeu sim a uma ou mais dessas perguntas, está na hora de rever alguns aspectos do seu relacionamento – e de repensar o que é melhor para você.

Como sair de uma relação assim?
1. Primeiro de tudo: se ame. O amor próprio é a coisa mais maravilhosa que pode acontece na sua vida. Quando você se ama, não permite que ninguém te trate mal, não admite que ninguém grite com você, não admite que ninguém te bata, que ninguém faça nada de ruim contigo. Ninguém pode dizer o que você pode e o que você não pode fazer, porque você é dona de si mesma. Faça o que te fizer feliz.

2. Tenha a sua vida e cuide dela com carinho. Amar-se é um processo e ele pode ser demorado, mas existem outras coisas que podem ser feitas enquanto isso. Procure ter uma base de apoio. Isso é, tenha amigos para conversar, saia com eles, mantenha sua família por perto, procure criar e manter vínculos que vão além do seu namorado. No começo é difícil, porque você pode se sentir culpada, como se estivesse gastando o tempo que você tem com seu namorado com outras pessoas, mas isso é pura ilusão. Você precisa ter a sua vida independente da dele – e se ele não valoriza isso, é porque não valoriza você.

3. Faça terapia. Ter alguém para conversar que não tenha laços afetivos com você pode te ajudar de várias maneiras. Aos poucos, isso vai te fortalecendo, e fazendo você perceber o seu valor. Conversar com um psicólogo é muito diferente de conversar com seus amigos ou com a sua mãe: é uma forma de cuidado. Você também pode procurar grupos de apoio como o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas). ❤

Por último, não deixe ninguém te diminuir. Isso é bem importante. Cada pessoa é única, todos nós somos feitos de qualidades e defeitos. Então, saiba que você também é assim, como todos nós, devemos abraçar nossas características. Autoconhecimento é a ferramenta mais poderosa que você pode possuir: “conheça-te a ti mesmo” e você vai saber quais são seus pontos fortes e seus pontos fracos. E no mais a vida te ensina, você aprende a lidar com as situações, você aprende que isso te faz mal, que tal pessoa te faz bem, a gente aprende. Só seja feliz.

Para saber mais e dar algumas risadas, veja o vídeo da Jout Jout sobre isso, “Não tira o batom vermelho“.

* vou usar os pronomes masculinos para facilitar na escrita. Mas entenda que o “namorado” é um termo tanto para “namorado” quanto para “namorada”. Relacionamentos abusivos não são uma exclusividade hetero. Aliás, falando de relacionamentos heterossexuais, nem sempre é o homem o abusador e a mulher a vítima, embora essa configuração seja a mais comum até pela nossa sociedade machista.

** A autora pediu anonimato. Ela também é dona do blog Não Se Deprima, visite ela por lá!

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10 comentários

  1. Nossa! esse texto falou comigo, até me emocionei, pois tenho um relacionamento bem complicada, sinto-me fraca e sem atitudes e péssima. E sou um pessoa sem amigos e meus familiares estão distante , tenho vergonha de tudo isso, por isso ninguém sabe da situação que me encontro hoje.

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  2. Me enquanto no perfil. Depois de conhecer o MADA e decidir mudar, estou conseguindo retomar a sanidade. Só por hoje!

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  3. Meu ex-namorado é claramente esse tipo de pessoa. No início quando conversávamos ele parecia ser um príncipe. É tanto que existiam muitas mulheres atrás dele. Quando começamos a namorar ele mostrou as garras, me xingava e falava coisas que eu não era. Começou com um ciúme descontrolado de tudo e todos. Me fazia sentir culpada diariamente por coisas que eu não fazia. Até que ele mesmo terminou comigo por coisas que ele inventou na cabeça como sendo traição. E até hoje fica me chamando de mentirosa. Hoje me encontro em recuperação de uma depressão. Foram os piores meses da minha vida. Ainda assim pensava em ajudá-lo de alguma forma, mas vejo que isso não é possível. Só digo a você que está desconfiando que seu companheiro seja esse tipo de pessoa. Saia disso logo!!!

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  4. Tenho 32 anos, tenho um relacionamento de 9anos em que vivo quase todos os aspectos citados acima. Já terminei, passamos quase 1 ano separados, e ele não mudou. Ele é possessivo, controlador, ciumento e por várias vezes tentou me afastar e me colocar contra amizades que conquistei no tempo que ficamos longe. Ele implica com todas as pessoas do meu serviço, principalmente os homens. Me dá pra qualquer homem, onde quer que eu esteja eu sempre estou a flertar com alguém. Isso tem me destruído, um desgaste físico, emocional e psicológico. Quando estamos juntos brigamos o tempo todo, pois parece que nada o agrada. Estou tao confusa e sem saber o que fazer.

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  5. Sou casada e tenho um filho de 6 meses, e sou casada a 1 e 3 meses. Des de que a gente foi morar juntos ele fala que mulher casada não pode sair com seus amigos,que não pode ir no cinemas com suas amigas porque mulher junta so fala de homem e mulher casada não pode. Eu tentei por semanas mudar isso nele e falar que não tem nada a ver e ele rodou a conversa toda contra mim e no final eu estava errada e precisava aceitar isso, me afastei de todos os meu amigos. Engravidei, muitas pessoas se afastaram, e isso foi mais uma desculpa para eu não ligar para aqueles onde eu mais precisei nao estava comigo. Fora que quando a gente brigar ele fica ‘louco’ fala um monte de coisa guardada dentro dele, eu sou muito sensível e no final sempre fico muito mal pela forma que ele me trata e eu sempre sou a errada da situação. Agora tenho um filho com ele, gosto dele, mas não gosto da maneira pela qual estou vivendo. Acho que ate o amor esta se esfriando por tanta coisa que eu ja tentei falar e eu sempre estava errada e a forma que ele pensa e a certa… e eu não sei o que fazer ://

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  6. Eu vivo a 04 anos neste tipo de relacionamento, cheguei a pensar em tirar minha própria vida por achar que mereço tudo que ele faz e fala contra mim , este natal assim como os outros foi um verdadeiro caos pareciai que eu estava pisando em ovos tudo ele chingava e humilhava me fez trocar de roupa e por último disse que nada adiantava que sou feia, bom hoje dia 26 disse a ele que festa vez ou ele vai embora ou eu vou , ele gritou me ameçou disse que tudo aqui é dele , pois bem eu vou nem que seja com a roupa do corpo mas vou sair deste casamento, por favor se tiver algum grupo de apoio me avisem vou precisar, me envergonho de dizer a familia e amigos eles sabem por cima e principalmente por que sou outra pessoa triste e de baixo autoestima. Por favor rezem por mim obrigada

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  7. Eu ja passei por isso ele queria controlar td o que eu fazia quando contrariado me batia e por causa disso eu sofri dois abortos ele me forçava a transar comele me batia e me humilhava durante a transa e também durante todo o dia tive muitos problemas mEEais td piorou quando engravidei pela terceira vez essa gravidez vingou e ai veio a Maria Manuela ele tinha ciúmes da bb ele começou a separar a Manu de mim mais ai eu tomei coragem e denunciei ele depois de um ano separada eu to trabalhando estudando e cuidando da Manu ela agora com1ano e meio é uma bb normal e muito feliz ja tenho um novo amor e vou ser mãe de outra  meninha a IsabelaNatali ou simplesmente IsaNati como a apelidamos gracas a Deus eu acordei e digo pra outras mulheres tomem a iniciativa antes que seja tarde

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