Jessica Jones é uma heroína. Mas e eu?

(Aviso de gatilho: estupro, violência sexual, violência psicológica. Não contém spoilers de enredo, mas se você não gosta de saber nenhum detalhe antes de assistir, melhor deixar pra ler depois!)

No final de dezembro, a The New Yorker publicou uma análise inquietante sobre a nova série da Marvel, Jessica Jones. O artigo destaca, por exemplo, a forma madura como a série retrata a sexualidade – uma abordagem diferente de muitos outros quadrinhos mainstream. A metáfora sobre o patriarcado e suas nem sempre evidentes armas, como a violência emocional por meio de manipulação psicológica, muito praticada pelo vilão Kilgrave, também foi elogiada.

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Na série, Jessica tem uma super força e luta contra o vilão Killgrave, que controla mentes.

Além de tudo isso, o texto fala de uma conquista: uma vítima de estupro estava sendo retratada como heroína. Para começar, Jessica de fato usa a palavra estupro. A feiura dessa situação, sempre tão difícil, está em todos os episódios. Apesar disso, ela tem poderes, está no controle de quase todas as situações e não é nem um pouco vulnerável (ou faz de tudo para não ser).

Eu gostei disso e fiquei com brilho nos olhos: eu posso ser uma heroína! Ainda não deixo de concordar – e de me apaixonar pela série. Afinal, vi uma personagem que convive, todos os dias, com uma memória fantasmagórica e desconfortável, assim como eu.

Mas é difícil pensar que eu poderia ser ela. Apesar de estar envolvida com o feminismo, eu não posso dedicar minha vida a encontrar meus estupradores – e o que eu faria, já que não tenho superpoderes e, depois de tantos anos, uma denúncia não seria considerada legítima?

No final das contas, eu ainda me vejo como vulnerável e completamente sem controle sobre essa situação. Se quando alguém me diz “você é forte” já me dá um frio na espinha, imagina ser retratada como heroína?

Acho que não existe uma forma correta de passar por isso, e se você ficou um caco depois de tudo, bem-vinda ao clube. O alcoolismo da protagonista é deixado em segundo plano no enredo, mas na realidade é muito complicado tomar remédios para ansiedade e trauma. Ou ter problemas de relacionamento. Ou se sentir devastada. Enfim, se você passou por tudo isso – ou não -, está tudo bem.

Sei que posso encarar o fato de forma emponderadora, mas até hoje eu não sei dizer como essa experiência brutal me transformou. Talvez eu nunca tivesse dado atenção ao feminismo (algo que mudou minha vida), mas eu não sou uma heroína. Na minha visão, sou só uma sobrevivente – o que eu acho que já esta de bom tamanho.

* A autora pediu anonimato. Ela adora séries e se apaixonou por Jessica Jones. E pede imensas desculpas pelo link estar em inglês e não ter tradução!

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