Pílula do quando eu quiser

por Luiza Leite

Quando eu era pequena, pílula anticoncepcional para mim era sinônimo de mulher grande. Coisa de mãe, talvez?  Na pré-adolescência, ela parecia ser algo distante. Distante porque sexo era um tabu e por isso mal cogitava em contracepção.

Com 15 anos, tive meu primeiro namorado. Aos poucos, o sexo, que parecia ser tão distante, moldou-se à minha realidade. “Mãe, quero tomar pílula” – eu disse depois de alguns meses de namoro. “Porque, menina? Você tem pele boa”. E então eu disse: porque quero me proteger.

anticoncepcional

Tudo isso foi encarado de uma forma muito ruim por ela, que não estava acostumada com o fato de que sua filha poderia, sim, querer transar antes dos 21 anos (idade que ela perdeu a virgindade) e com um namoradinho de adolescência, não com seu noivo.

Depois de muita relutância, consegui minha primeira cartela de pílula. Meu organismo já estava meio estragado pelas pílulas do dia seguinte que tinha tomado por uma mistura de falta de informação sexual e por uma camisinha estourada. Eu realmente estava animada para ficar protegida sempre e de quebra ainda ganhar uma pele melhor ainda.

Por um lado, vejo o quão problemático é o fato de que toda a carga da contracepção é concentrada em cima de mulheres. Que nós é que devemos nos encher de hormônios e prejudicar nossos corpos. E que a ciência aparentemente não está nem aí para encontrar um tratamento contraceptivo para homens. Porém, começar um tratamento contraceptivo, apesar dos pesares, era o que parecia ser a melhor escolha para mim.

Foram muitas brigas, esporros e sermões até que minha mãe digerisse a realidade de que sim, eu transava. Naquele momento, tudo parecia finalmente estar se encaminhando.

Mas só parecia: depois de terminar minha primeira cartela (muito feliz pelo efeito contraceptivo tão aguardado por mim e pelo meu namorado), eu não esperava que ele fosse me deixar. Justamente quando eu tinha chegado no último comprimido. Justamente quando eu estava tão feliz e animada.

“Mãe, vou parar de tomar pílula”. “Porque, garota? Me fez te levar no ginecologista e gastar dinheiro com essa droga para agora parar sem mais nem menos?”. Eu respondi: “Eu e o fulano terminamos”.

Não só escutei que tinha me ferrado, como também tive que ouvir tinha me entupido de hormônios para nada. E de fato, ela estava certa – sobre os hormônios, pelo menos. Já tem algum tempo que a ciência mostra pra gente que pílulas anticoncepcionais não fazem bem para a saúde da mulher: elas podem prejudicar nosso ciclo hormonal natural, causar trombose e uma série de outros problemas, como candidíase. No entanto, o que eu menos queria naquele momento era escutar que eu era uma otária. Porque isso era o que eu sentia depois de ter sido chutada pelo meu namorado.

Larguei o anticoncepcional e decidi seguir minha vida. Até que, depois de dois meses do termino, conheci outro garoto. O fogo veio, e a necessidade de transar pareceu se tornar cada vez mais inevitável. Tentei por algum tempo ficar sem pílulas, mas chegou um momento em que decidi que seria melhor tomá-las novamente. “Mãe, quero voltar a tomar anticoncepcional”. “Por quê? Vai me dizer que já vai dar pra outro? Você vai parecer uma puta”.

Novamente, passei por cima dos julgamentos e decidi que valia mais a pena estar protegida do que correr riscos e fazer média familiar. Porém, eu tinha medo. Medo de que o mesmo drama acontecesse. Que meu relacionamento durasse uma cartela de pílula. E que eu fosse largada novamente.

Pareceria história barata americana se eu dissesse que o mesmo aconteceu com esse relacionamento. Mas sim, aconteceu. 24º comprimido acompanhado de um toco fenomenal. Só pude chorar. Só pude achar que eu estava pré-destinada a sofrer. Só pude relacionar isso com uma sina desgraçada.

Tudo começaria de novo. Largaria a pílula, escutaria da minha mãe o quanto sou mal amada e idiota – tudo isso para depois de alguns meses, outro cara surgir e essa mesma ladainha se perpetuar na minha vida.
Estava no fundo do poço, até que uma luz surgiu em mim.

Por que parar de me prevenir? Eu mereço estar protegida apenas quando tenho um “relacionamento”? Quando tenho um homem que aparentemente tem posse sobre a minha sexualidade? E se eu quiser dar para caras aleatórios? (Adendo: não estou anulando o uso da camisinha, mas ter o combo pílula + preservativo é uma das chaves possíveis para o sucesso e para a proteção).

Foi depois dessa reflexão que decidi que não pararia de tomar pílula. Que não seriam tocos que determinariam a minha proteção, e sim a minha vontade. Eu pararia de tomar pílula quando EU quisesse, quando EU estivesse afim. Independente de estar ou não com alguém.

Hoje, eu pretendo parar de tomar anticoncepcional porque eu não vejo mais benefícios em continuar com isso. Não por causa de um termino ou por um sermão de mãe. Por mim. Porque eu decidi. E porque a minha decisão é o que importa.

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Luiza Leite, 16 anos (1 mês para os 17 hehe), estudante do ensino médio.
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2 comentários

  1. Tenho 14 anos, namoro há 1 ano e 3 meses e minha mãe me obriga a tomar anticoncepcional, eu quero parar mas ela não deixa o que posso fazer ? eu não tenho voz,ela não respeita a minha opinião, o que posso fazer?

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