Crônica: Vermelho

por Loli

Nunca fui, nem nunca quis ser.

Eu era nada moça; tampouco vermelha; era moleca da própria alma e da lama nas minhas pernas após a chuva. Era sapeca; não sabia o que era vermelho . As poucas vezes que havia visto o vermelho foram no sangue dos meus joelhos ralados após uma partida de futebol, no boca pintada da minha mãe, na enigmática porta do banheiro feminino. Naquela prova que eu fui muito mal.

ilustração mesntruação
Ilustração: Helô D’Angelo

Tudo isso mudou, infelizmente, no dia em que vi vermelho escorrer das minhas pernas.

A partir daí, essa cor incandescente passou a ditar absolutamente tudo na minha vida, e eu finalmente entendi a razão da porta do banheiro ser em vermelho.

Vermelho deveria ser a cor da minha blusa e do meu primeiríssimo sutiã. A cor do meu esmalte impecável e do meu vestido de debutante. Vermelho era a cor dos nossos batons quando nos encontramos com rapazes; a cor do nosso salto alto nas baladas. Desde nossa lingerie até as fitas no cabelo. As rosas que os homens nos davam deveriam ser vermelhas, também.

Nunca fui, nem nunca quis ser; mas agora eu era definitivamente vermelha, mesmo sem perceber.

Só que, lógico, havia uma regra: nada podia ser muito vermelho, senão era vulgar; coisa daquelas moças que ficam na esquina.

Conforme fui crescendo, aquele vermelho foi desbotando meu coração, que sempre havia sido meio esverdeado, como a grama onde brincava quando era mais jovem. Sentia falta do cheiro nauseabundo e do meu corpo enlameado, daquele imenso sorriso no rosto; de não ter de me preocupar com a minha aparência e de não dar tanta importância ao vermelho.

Mas eu não podia voltar atrás. Uma vez que o vermelho estivesse em minha vida, eu não poderia deixá-lo; ou seria me tirada a paz. Resolvi, portanto, manter a minha vida do jeito que estava. Eu tinha uns dezoito anos, eu acho.

Mesmo assim, eu continuava infeliz e revoltada. Pela minha cabeça, passava a vaga possibilidade de cortar o cabelo, para que ele não mais me atrapalhasse, ou de chamar umas amigas pra jogar futebol, o que não deu muito certo, porque “ia sujar as unhas” ou “estragar o cabelo”.

Foi então que, meio desolada, falaram, na faculdade, num tal de feminismo, um movimento meio roxo – não muito vermelho e nem muito azul. Ouvir aquela palavra fez meus olhos brilharem pela primeira vez. Liberdade, equidade e sororidade; parecia maravilhoso.

Acabei sentindo vontade de pesquisá-lo. E então descobri o que fazia o vermelho ser tão importante na minha vida.

Mais importante, realizei, agora do meu modo, o porquê da porta do banheiro ser vermelha.

E que eu podia cortar o cabelo se eu quisesse, jogar futebol, me encher de lama e dizer “não” se eu não quisesse ficar com alguém numa festa. Mas, principalmente, que eu podia ser uma mulher verde. Ou uma mulher roxa, ou uma mulher de amarelo. Eu também podia ser uma mulher vermelha, mas só se eu quisesse, e não por ordem da sociedade vermelha.

Com todo esse aprendizado, eu resolvi minha vida.

Eu ia ser uma mulher de marrom – cor da lama onde eu brincava quando era pequena.

loli
​Loli, 15 anos. Distraída e amante de palavras. Pretende virar escritora e música, mas por enquanto só fica 5 horas todos os dias sentada na sala de aula.
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