As músicas pop mais problemáticas dos anos 2000

por Helô D’Angelo

Outro dia, resolvi ouvir uma playlist do Buzzfeed com algumas das ‘canções de amor’ mais famosas dos anos 2000 (todas nós usamos frases de “crazy in love” e “love the way you lie” nos nossos ‘nicks’ do MSN, é ou não é?). Depois da nostalgia, me veio um choque: as letras, que eu raramente parava para analisar, são quase todas muito problemáticas.

Romantização de relacionamentos abusivos, sexualização, lesbofobia, falta de sororidade: eu cresci ouvindo que esse tipo de coisa era normal – ou mais que normal: era legal. E questionar aquilo era ser estranha. Então, vem comigo e vamos ver alguns exemplos:

“Crazy in love” – Beyoncé e Jay-Z


Trecho problematico: “When I talk to my friends so quietly/  Who he think he is? Look at what you did to me/ tennis shoes, don’t even need to buy a new dress/  If you ain’t there ain’t nobody else to impress” [Quando eu falo com mihas amigas, tão baixinho/ Quem ele pensa que é? Olha o que você fez comigo/ De tênis, nem preciso comprar um novo vestido/ Se você não está, não tem ninguém para impressionar]

O problema: que tipo de relacionamento maluco é esse em que você fica tão maluca pelo cara que não quer impressionar mais ninguém, nem a si mesma? Você precisa falar baixinho com as suas amigas (para ele não ouvir?), e até percebe o quanto o cara te faz mal, mas está tão ~maluca de amor~ que releva tudo. No auge dos meus 12 anos, a Beyoncé me fazia acreditar que tudo bem viver apenas para o meu namorado, sem ouvir minhas amigas, sem ser “eu mesma”. Não, né?

“Love the way you lie” – Rihanna e Eminem


Trecho problemático: “Just gonna stand there and watch me burn?/ That’s alright because I like the way it hurts/ Just gonna stand there and hear me cry?/ That’s alright because I love the way you lie” [Só vai ficar aí e me ver queimar?/ Tudo bem porque eu gosto de como dói/ Só vai ficar aí e me ouvir chorar?/ Tudo bem porque eu gosto do jeito que você mente]

O problema: uma música que faz você acreditar que tudo bem seu namorado mentir para você não pode ser muito legal. E olha que, enquanto a Rihanna canta que “eu amo o jeito que você mente”, o Eminem já vai mais fundo e diz que chega uma hora que o casal fica tão de saco cheio que pode começar a se bater, morder e puxar cabelos. E, no clipe, o casal fica constantemente se batendo (tipo com socos mesmo) e um dos dois coloca FOGO na casa. Não vou me estender porque a lista dessa múca é infinita, mas já deu para perceber que essa canção não fala de amor.

“Hate that I love you” – Rihanna e Ne-yo


Trecho problemático: “But I hate it/ You know exactly what to do/ So that I can’t stay mad at you/ For too long, that’s wrong/ But, I hate it/ You know exactly how to touch/ So that I don’t wanna fuss and fight no more/ So I despise that I adore you” [Mas eu odeio isso/ Você sabe exatamente o que fazer/ Para que eu não fique brava com você/ Por muito tempo, isso é errado/ Mas eu odeio isso/ Você sabe exatamente onde tocar/ Para que eu não queira brigar mais/ Então eu odeio te adorar]

O problema: “Hate that I love you” representa uma relação na qual uma das partes não consegue ficar brava com a outra – ou seja, os sentimentos dessa pessoa são menosprezados. Essa pessoa também frequentemente esquece o que a outra faz de errado, e sabe que isso é errado (e até odeia isso), mas não consegue sair disso. Alerta de relacionamento abusivo, hein? Porque, em um relacionamento saudável, a gente permanece por escolha própria – e não por uma paixão cega e maluca que consome nossas energias.

“No air” – Jordin Sparks e Chris Brown


Trecho problemático: “But how/ Do you expect me, to live alone with just me?/ Cause my world revolves around you/ It’s so hard for me to breathe” [“Mas como/ Você espera que eu viva sozinha comigo?/ Porque meu mundo gira em torno de você/ É tão difícil de respirar”]

O problema: mais uma vez, temos um exemplo de relacionamento abusivo. Se você namora alguém que, quando está longe, torna respirar algo difícil para você, alguma coisa não está certa aí. Você deveria ser capaz de ficar consigo, mesmo longe da pessoa amada. Cara, em um determinado momento na musica, a Jordin chega a dizer que vai se afogar se o Chris Brown não voltar logo. Sai fora, né?

 ❤

“Don’t Cha” – The Pussycat Dolls


Trecho problemático: “Don’t you wish your girlfriend was hot like me?” [Você não gostaria que a sua namorada fosse tão gostosa quanto eu?]

O problema: tudo bem, todas nós temos momentos de cobiçar pessoas comprometidas. Mas existe uma enorme diferença entre se sentir atraída por alguém e de fato pegar essa pessoa, passando por cima da namorada dele(a) sem ligar para nada. Nessa música, as Pussycat Dolls não só ignoram que o cara tem uma namorada: elas ativamente menosprezam a dita cuja, dizendo que ela não é “tão gostosa” quanto elas. A sororidade é ridicularizada ao extremo aqui, e a competitividade é encorajada de uma forma brutal – as PCD cantam “eu sei que ela te ama, eu entendo, eu mesma seria tão louca assim por você se você fosse o meu homem”, ou então “Eu sei que você gosta de mim, eu sei que sim, é por isso que toda a vez que eu apareço ela fica toda em cima de você”. Manas, não: vamos nos amar. Para isso, precisamos parar de competir pelos homens!

 ❤

“I Kissed a Girl” – Katy Perry


Trecho problemático: “It’s not what good girls do/ Not how they should behave/ My head gets so confused/ Hard to obey” [Não é o que boas meninas fazem/ Não é como elas deveriam se comportar/ Minha cabeça se torna tão confusa/ difícil de obedecer]

O problema: o que exatamente são ‘boas meninas’? Meninas que não beijam meninas, não é? Pelo amor. Apesar de essa música tratar de experiências sexuais (o que é bacana), ela aborda o tema de um jeito bizarro, como se beijar meninas fosse ‘errado’ e a Katy fosse uma ‘rebelde sexual’ por fazer isso. Ela também diz que “garotas são mágicas” e que a garota que ela esta beijando e só um “jogo experimental”: dez mil pontos para a objetificação, pessoal. Eu lembro exatamente como, nessa época, os meninos se aproveitavam dessa música tocando para incentivar garotas bêbadas a se beijarem na frente deles nas baladinhas. Legal, né? Só que não.

“Girlfriend” – Avril Lavigne


Trecho problemático: “Hey, you, I don’t like your girlfriend/ No way, no way, I think ou need a new one/ Hey, you, I could be your girlfriend” [Ei, você, não gosto da sua namorada/ Nem a pau, nem a pau, acho que você precisa de uma nova/ Ei, você, eu poderia ser sua namorada]

O problema: exatamente a mesma questão de “Don’t Cha”, ou seja, a falta de sororidade. A Avril-menina-roqueira-rebelde curte atormentar a namorada do seu objeto de desejo, fazendo com que o casal se separe. Ela promove um bullying danado com a “rival”, dizendo que não gosta dela e que a própria Avril deveria ser a namô do cara(que, aliás, não faz nada para acabar com a rivalidade). Manas, mais uma vez: sororidade é tudo!

“Bleeding Love” – Leona Lewis


Trecho problemático: “But I don’t care what they say/ I’m in love with you/ They try to pull me away/ But they don’t know the truth/ My heart’s crippled by the vein/ That I keep on closing/ You cut me open and I/ Keep bleeding/ Keep, keep bleeding love” [Eu não ligo para o que dizem/ eu amo você/ as pessoas tentam me empurrar para longe/ mas elas não sabem a verdade/ meu coração está danificado na veia/ que eu continuo fechando/ você me corta e eu/ Continuo sangrado/ Continuo, continuo sangrando amor]

O problema: mais um relacionamento abusivo! Percebam como a Leona Lewis sabe que está entrando em uma relação de bosta, que machuca ela, que a faz sangrar, mas mesmo assim não consegue ouvir as pessoas ao redor dela e sair dessa. Manas, isso não é romântico, é desesperador. Cuidado!

“StickWitU” – Pussycat Dolls


Trecho problemático: “Nobody gonna love me better, I must stick with you forever/ Nobody gonna take me higher, I must stick with you/ You know how to appreciate me, I must stick with you, my baby” [Ninguém vai me amar melhor, eu preciso ficar com você para sempre/ Ninguém vai me levar mais alto, eu preciso ficar com você/ Você sabe como me apreciar, eu preciso ficar com você, meu querido]

O problema: miga, você realmente acha que ninguém mais além desse homem vai te amar? E que, por isso, você deve ficar com ele para sempre? Tem algo errado aí… Sei não, mas parece que esse relacionamento não é assim tão saudável. Você não precisa ficar com ninguém ‘para sempre’ só porque acha que ele (ou ela) é a única pessoa que vai te amar.

 ❤

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.

 

 

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